5 razões para você não comprar dólar agora, segundo quem acredita na volta do real forte
Gestores ouvidos pelo Seu Dinheiro acreditam que a queda do dólar abaixo de R$ 5 não é razão suficiente para você investir na moeda; saiba por quê

Mais de dois anos após o início da pandemia do coronavírus, as coisas lentamente começam a ganhar a mesma cara que tinham antes. Os escritórios voltam a ficar cheios, os bares e restaurantes voltam a fazer parte da rotina, o uso de máscara começa a ser dispensado e o dólar retoma o patamar abaixo dos R$ 5.
Era março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou que o “novo” coronavírus era um problema global, a moeda norte-americana teve o primeiro fechamento acima da marca psicológica dos R$ 5.
Depois disso, a divisa só voltou a ser negociada na casa dos R$ 4 apenas 14 vezes – duas delas nesta semana.

Em muitos momentos o real flertou com níveis ainda mais altos de estresse, mas os R$ 5 acabaram se tornando o “novo normal”. Esse cenário, no entanto, está sendo desafiado ao longo de 2022.
Até esta quarta-feira (23), o dólar à vista acumula uma queda superior a 11% no ano e, depois de tanto tempo em patamares tão elevados, muitos investidores já começam a ver a moeda a R$ 4,90 como uma verdadeira pechincha.
O discurso ganha ainda mais força quando levamos em consideração que há uma guerra que pressiona a cadeia produtiva no leste europeu e que o Brasil irá atravessar um turbulento processo eleitoral nos próximos meses.
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No momento, o câmbio brasileiro tem colhido os frutos da antecipação do Banco Central na normalização da taxa de juros, mas lá fora o processo de aperto monetário também começou.
Então será que é a hora de aproveitar a queda para encher a sua carteira de dólar?
Nesta semana, conversei com dois gestores que não acreditam que esse seja o caso – Licínio Neto, sócio-fundador e gestor da Ajax Capital, e Mario Schalch, sócio-fundador e gestor de multimercado da Neo Investimentos.
É importante destacar que a moeda norte-americana segue como uma forma de proteção para a carteira. Ou seja, é recomendável ter alguma exposição a ativos ligados ao dólar. Mas investir visando apenas ganhos no curto e médio prazo pode sair mais caro do que o esperado e não é o recomendado, segundo esses especialistas.
Confira nos próximos tópicos o que leva esses gestores a não apostarem contra o real e quando pode ser o momento ideal para comprar dólar.
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1) Olho na taxa de juros
Existem inúmeros fatores que ajudam a explicar as razões pelas quais o patamar atual do dólar pode ser considerado caro para alguns gestores, mas o principal deles tem relação com a taxa de juros.
Atualmente, a Selic está na casa dos 11,75% ao ano e deve ir a, pelo menos, 12,75% – lembrando que o Banco Central deixou uma alta de 1 ponto percentual contratada para a próxima reunião, sem indicar se esse será o fim do ciclo de alta.
Com uma inflação de 6,5% projetada para este ano, a perspectiva é que o Brasil trabalhe com juros reais de mais de 6% até dezembro.
Enquanto isso, no exterior, o Federal Reserve tem adaptado o seu discurso e iniciou o aperto monetário, mas deve fechar o ano ainda com juros reais negativos na casa de 7%.
Na Europa, o cenário é o mesmo, com os juros a 0,5% ao ano e o indicador de inflação em 5%. Quando ampliamos o horizonte levando em consideração as expectativas de inflação futuras, a taxa de juros real fica ainda maior – entre 7% e 8%.
Na prática, isso significa que o seu poder de compra em dólar vai ser menor no futuro. Ao comprar dólar com um valor nominal de R$ 5, será preciso que a moeda esteja a pelo menos R$ 5,65 no fim do ano para ficar apenas no zero a zero.
Nesse mesmo tempo, um investimento conservador com um retorno de 100% do CDI renderia muito mais. É o que os gestores chamam de custo de carregamento. Em outras palavras, esse é um “mau investimento”.
| Comparação entre as taxas básicas de juros | |
| Brasil | 11,75% |
| Estados Unidos | 0,25% |
| China | 3,70% |
| Inglaterra | 0,75% |
| União Europeia | -0,50% |
| México | 6,00% |
| Chile | 5,50% |
| África do Sul | 3,75% |
| Argentina | 42,50% |
2) O dólar ainda está caro
Mario Schalch, da Neo Investimentos, chama a atenção para alguns fatores históricos que ajudam a compreender a razão pela qual os gestores acreditam que o patamar atual do dólar pode ser considerado caro.
Observando a média dos últimos 30 anos, o nível atual da moeda americana frente ao real está mais de um desvio-padrão acima da média histórica, mas há poucos meses eram quase dois.
O gestor aponta que nem mesmo quando o país passava pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff o indicador foi tão alto. De acordo com a base de dados, o segundo desvio padrão só foi rompido em 2002, quando havia incertezas sobre os rumos do primeiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ele faz uma ressalva: isso não quer dizer que o país está no pior momento dos últimos trinta anos. Para Schalch, avanços importantes foram feitos no período e ajudam a trazer segurança jurídica ao investidores, como um banco central independente, um regime de metas de inflação e órgãos de controle que prezam pela saúde fiscal do país – ainda que esse seja um tema delicado no curto prazo diante da crise herdada da pandemia.
3) Welcome gringo!
O fluxo estrangeiro positivo tem sido um dos principais fatores que explicam a alta da bolsa brasileira e a forte queda do dólar frente ao real em 2022 e a tendência é que esse movimento continue. O primeiro atrativo é justamente o diferencial de juros exposto no tópico anterior.
Na sequência, temos o bom posicionamento do mercado brasileiro frente aos demais países emergentes. Com a Rússia travando uma guerra e sofrendo fortes sanções econômicas, uma fatia das carteiras destinadas às nações em desenvolvimento voltam a encarar o Brasil como uma boa escolha até mesmo quando comparado aos outros pares na América Latina.
4) Balança comercial firme e forte
Outro fator de destaque é a balança comercial brasileira. Mesmo com a valorização do real desde o início do ano, os preços de commodities como soja, café, carne e outros grãos não caíram. Nessa conta entra a guerra da Ucrânia, já que o país é grande exportador de grãos, e as projeções de que as próximas safras de café e soja devem ser superiores aos últimos anos.
As oscilações de mercado são uma realidade inegociável, mas ao que tudo indica, os preços dessas commodities não devem cair tão cedo. Com uma balança comercial positiva, a tendência é que o real siga valorizando frente às demais moedas.
5) Eleição assusta (mas não tanto)
Não é porque os gestores acreditam que o dólar não é um bom investimento no momento que a trajetória do câmbio deve ser apenas de queda, como o observado nos primeiros meses do ano. Existem incertezas conjunturais importantes que adicionam volatilidade ao ativo.
Para Licinio Neto, os próximos dois meses devem ser marcados pelo aumento da preocupação do mercado com a questão política. Pelo menos até que o mercado tenha mais clareza de quais serão os planos de governo de cada um dos principais candidatos.
Ainda que os investidores possam ter os seus favoritos, o gestor não acredita que a deterioração deve ser tão relevante dado que o Centrão deve seguir tendo a maioria do Congresso. Ou seja: qualquer projeto radical de qualquer um dos lados deve encontrar dificuldades de aprovação.
Quando é hora de comprar dólar?
Quem leu até aqui deve estar se perguntando “ se não agora, quando?”, mas essa não é uma pergunta simples de ser respondida.
O momento ideal para comprar dólar parece estar muito mais ligado ao cenário e à correlação do câmbio com a taxa de juros do que a uma cifra particular. Por isso, o gestor da Ajax Capital evita falar em números específicos e sim de cenários e a correlação dos juros com o dólar.
Se a parte política caminhar sem tropeços para um sentido moderado e o mundo continuar a praticar taxas de juros negativas, é difícil prever a quais níveis mais baixos o dólar ainda pode chegar.
Isso porque o Banco Central não deve poupar esforços para responder aos movimentos de mercado e garantir que o país siga tendo competitividade com os seus pares, assim como o BC tem feito nos últimos anos.
É mais fácil projetar o que pode ocorrer caso o cenário mude drasticamente.“Se começarmos a enxergar uma inflação fora do controle e a necessidade dos bancos centrais preservarem taxas de juros negativas, teremos uma luz verde importante para a compra da moeda”.
Já a Neo Investimentos tem um horizonte em mente, levando em consideração as incertezas que rondam o país. Segundo Schalch, os cálculos da gestora indicam atratividade no patamar de R$ 4,50, com uma probabilidade um pouco maior de o investimento trazer retornos. Para o fim do ano, a casa projeta o dólar a R$ 5,20.
Dólar: um seguro necessário
Se como investimento esse pode não ser o melhor momento para ter dólar na carteira, como reserva de valor e proteção moedas fortes seguem indicadas. Se o pior dos cenários se confirmar, a divisa provavelmente será um dos primeiros ativos a capturar valor.
Schalch, no entanto, pondera que assim como o seguro de um carro ou casa, esse é um dinheiro gasto com a expectativa que não precise ser utilizado, e essa segurança tem um preço alto.
O gestor aponta que para montar o “seguro” perfeito para o seu portfólio, o investidor deve analisar bem o seu perfil de risco. O ideal é você analisar o quanto de proteção a sua carteira realmente precisa, para não acabar pagando um preço alto demais sem grandes necessidades.
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