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Para analistas e gestores que veem o real forte como um fenômeno transitório, é hora de aproveitar a queda do dólar para manter ou aumentar a exposição na moeda norte-americana
Não há como negar que o primeiro trimestre do ano tem sido muito diferente do que a maior parte das projeções no mercado financeiro indicavam. Mas no quesito surpresas, poucas superam a forte queda do dólar em relação ao real, mesmo diante de um conturbado cenário de guerra no leste europeu e a proximidade das eleições presidenciais.
Em um momento em que se esperava cautela e corrida para ativos de segurança, o Brasil foi surpreendido com a entrada de mais de R$ 90 bilhões de investimento estrangeiro no país, a maioria em direção aos pesos-pesados da bolsa – as companhias produtoras de commodities. O resultado é uma alta de 14% do Ibovespa e uma valorização de quase 15% do real em 2022
Depois de contar para você a visão de quem acredita que essa não é a hora de comprar dólar, agora é a vez de ouvir o outro lado.
Para esta matéria, eu conversei com gestores e analistas que veem a queda da moeda norte-americana como uma oportunidade de compra — seja como proteção, investimentos no exterior ou em preparação para uma possível viagem futura.
Confira as razões que levam Marcello Negro, gestor de multimercados da Fator Administração de recursos; Victor Benndorf, Diretor na Benndorf Consultoria; e Bruno Di Giacomo, CIO da Blackbird Investimentos, a entrarem do time dos que apostam no dólar.
O segundo semestre de 2021 foi difícil para as empresas de mineração e siderurgia, grandes representantes entre as exportadoras brasileiras — que trazem dólares para o país.
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Para refrescar a memória: nos últimos meses do ano passado, a incorporadora Evergrande assustou o mercado com sua potencial falência com bilhões de dólares em dívidas, e o governo chinês impôs diversas restrições à produção de aço.
Em 2022 a página virou. A possível ruína da Evergrande deixou de ser um problema que ameaça o mercado financeiro de forma estrutural, e a China tem se mostrado disposta a continuar estimulando a economia local.
A demanda por commodities, em especial o petróleo, aumentou ainda mais com a guerra entre Rússia e Ucrânia.
A disparada dos preços das matérias-primas atraiu um grande fluxo de dinheiro estrangeiro para a bolsa brasileira. A enxurrada de dólares na B3 ajudou a derrubar as cotações do dólar.
O grande fluxo estrangeiro que tem sustentado o mercado brasileiro até aqui vai ao encontro principalmente das ações ligadas ao setor de commodities. Porém, na visão dos analistas consultados, é pouco provável que o ritmo se sustente nos próximos meses.
Para Marcello Negro, da Fator Administração de recursos, os efeitos da guerra sobre os preços das commodities não deve ser de alta tão relevante nos próximos meses.
Um eventual acordo de paz na Ucrânia, por exemplo, pode fazer com que o movimento visto até aqui se inverta. Nos últimos dias, as negociações entre os governos de Kiev e de Moscou avançaram, e um encontro entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin pode ocorrer nos próximos dias.
Outro ponto importante que faz com que os especialistas não acreditem em uma valorização mais expressiva do real são os sinais de que o ciclo de alta da Selic deve ser encerrado em breve.
Na última semana, o presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto, afirmou em duas ocasiões diferentes que uma alta adicional de juros na reunião de junho seria improvável, aumentando as apostas de que a taxa básica deve parar em 12,75% ao ano.
Para os analistas, o diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos tem sido atrativo até agora, mas a aceleração esperada para o aperto monetário do Federal Reserve no segundo semestre deve interromper o fluxo abundante de dólares que hoje entram no país, o que deixa o cenário mais propenso a uma desvalorização do real do que o contrário.
Até agora, o Brasil tem se mantido majoritariamente na contramão dos mercados internacionais, superando máximas enquanto o restante do mundo sente o peso do conflito que se desenrola no leste europeu e dos próximos passos do Federal Reserve. Mas isso não significa que o país é um porto seguro diante das incertezas globais.
Para Victor Benndorf, o Brasil surgiu como oportunidade em um momento em que mercados que poderiam ser boas opções atravessam um momento turbulento — com a Rússia em guerra e a China cercada por incertezas econômicas e geopolíticas.
Além disso, o analista não enxerga uma melhora estrutural significativa que ajude a explicar a valorização do real. Embora a parte fiscal esteja sendo compensada pela balança comercial positiva, a saúde das contas públicas ainda está longe do que era antes da pandemia.
O fator eleição também não é deixado de fora e pode ter implicações no cenário fiscal, já que os dois principais candidatos no páreo exibem tendências populistas.
Com um cenário menos otimista para o real em mente, os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro apontam que é hora de colocar mais dólar na carteira.
Para a Blackbird, o ponto de entrada atual até a faixa dos R$ 5 é atrativo. Em vez de simplesmente comprar a moeda, a gestora de fortunas prefere “colocar o dólar para trabalhar”, ou seja, investir em ativos em moeda estrangeira e que gerem fluxo de caixa — como ações, por exemplo.
Marcello Negro, da Fator, também aponta que esse é o momento para aumentar a fatia de proteção da sua carteira ou se preparar para uma viagem ao exterior. Embora veja espaço para o enfraquecimento do real, o gestor não crê que o dólar deve voltar às máximas.
Diante da incerteza que cerca o ambiente, o investidor precisa estar atento às mudanças de cenário e não se apegar eternamente ao conceito de “longo prazo”, já que as coisas podem mudar rapidamente, segundo Victor Benndorf, diretor da Benndorf Consultoria. “É preciso sempre monitorar os níveis do ativo e entender os catalisadores do cenário global. Diversificação segue sendo muito importante”.
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