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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

Rumo aos dois dígitos

Como ficam os seus investimentos em renda fixa com a Selic em 9,25%

Aumento da taxa básica dispara gatilho de mudança na forma de remuneração da poupança. Veja como fica o retorno das aplicações conservadoras de renda fixa agora que o Banco Central elevou a Selic mais uma vez

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
9 de dezembro de 2021
5:30 - atualizado às 16:16
Cofre de porquinho na praia | Reserva de emergência
Com Selic em 9,25% ao ano, poupança volta à sua remuneração antiga, mas fica ainda mais desvantajosa ante aplicações de renda fixa. Imagem: Shutterstock

Na sua última reunião de 2021, realizada ontem (08), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) elevou novamente a taxa básica de juros (Selic) em 1,5 ponto percentual, confirmando as expectativas do mercado e o aceno que já tinha sido feito no encontro anterior.

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Com isso, a Selic passa de 7,75% para 9,25% ao ano, acionando o gatilho para a mudança na regra de remuneração da caderneta de poupança. Agora, a aplicação volta a render 0,5% ao mês mais Taxa Referencial (TR), sua rentabilidade máxima, e não mais 70% da Selic + TR, como antes.

Neste momento, o BC se vê entre a cruz e a espada, precisando combater a inflação sem sacrificar demais o crescimento, uma vez que a economia não conseguiu se recuperar plenamente da pandemia, e o desemprego continua elevado.

Mesmo assim, a autoridade monetária já contratou uma nova alta de 1,5 ponto percentual para a próxima reunião, eu janeiro, o que levaria a Selic de volta para os dois dígitos.

Segundo o último Boletim Focus do Banco Central, o IPCA neste ano deve chegar a 10,18%. Já o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é estimado em 4,71%.

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Para o ano que vem, a expectativa é de que a inflação fique mais controlada, mas ainda acima do teto da meta (que será de 5%), fechando o ano em 5,02%.

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Em compensação, a Selic deve permanecer nos dois dígitos, terminando o ano em 11,25%. O PIB, por sua vez, deve ficar praticamente estagnado, com alta de apenas 0,51%. Já há quem espere até recessão para o ano que vem.

Seja como for, do ponto de vista do investidor, um retorno aos juros de dois dígitos e o ciclo de alta da Selic deixa a renda fixa mais conservadora cada vez mais atrativa.

A poupança agora atingirá seu retorno máximo e voltará a render como a poupança antiga, mas permanece menos rentável que as melhores aplicações pós-fixadas, como é o caso do Tesouro Selic (LFT), dos fundos DI e dos títulos bancários mais rentáveis, como os CDB, LCI e LCA pós-fixados.

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Assim, é um bom momento para investir nesses papéis pós-fixados (atrelados à Selic e ao CDI) para além da reserva de emergência, pois o retorno dessas aplicações tende a aumentar com a elevação da taxa básica. Além disso, aumenta a diferença entre a remuneração desses papéis e a da caderneta de poupança.

No vídeo a seguir, eu explico o que é a reunião do Copom e como a definição da Selic afeta a sua vida. Assista:

Vencendo o dragão

No patamar de 9,25% ao ano, a Selic já não perde para a inflação oficial projetada para os próximos 12 meses (de 5,36%, segundo o último Focus), como vinha acontecendo há algum tempo.

As aplicações financeiras cuja remuneração é atrelada à Selic ou à taxa DI - taxa de juros que costuma acompanhar a taxa básica - também já começam a vencer o dragão.

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Com a perspectiva de que a Selic continue em alta, o que tende também a controlar a inflação, essas aplicações devem encontrar cada vez menos dificuldades de preservar o poder de compra do investidor.

Como ficam os investimentos conservadores com a Selic em 9,25% ao ano

Para você ter uma ideia de como o retorno da renda fixa conservadora está neste momento, eu fiz uma simulação de rentabilidade com quatro aplicações pós-fixadas no novo cenário de juros: caderneta de poupança, Tesouro Selic (LFT), fundo de renda fixa/CDB e Letra de Crédito Imobiliário (LCI). Considerei Selic constante de 9,25% ao ano e o CDI constante de 9,15%, um pouco abaixo, como costuma acontecer.

Escolhi quatro prazos de forma a contemplar as quatro alíquotas de IR possíveis, no caso das aplicações tributadas (Tesouro Selic e fundos/CDB).

Usei datas reais para poder usar o simulador do Tesouro Direto para calcular o retorno do Tesouro Selic, de modo a incluir a taxa de custódia e o spread nos cálculos no caso de uma venda antes do vencimento.

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Para calcular o retorno da poupança utilizei os prazos em meses e anos. Já para simular os retornos do fundo/CDB e da LCI, levei em conta o número de dias úteis entre as duas datas reais consideradas em cada prazo.

Todas as rentabilidades estão líquidas de taxas, spread e imposto de renda, quando for o caso.

PrazoPoupançaTesouro SelicFundo de renda fixa / CDB 100% do CDILCI 100% do CDI
3 meses1,51%1,65%1,69%2,18%
8 meses4,07%4,74%4,81%6,01%
1 ano6,17%7,46%7,55%9,15%
2 anos12,72%16,09%16,23%19,10%

Parâmetros

Com o aumento da Selic para um valor superior a 8,50% ao ano, foi acionado o gatilho de altera o cálculo de rentabilidade da poupança.

Anteriormente, a caderneta pagava 70% da taxa Selic mais Taxa Referencial (TR), mas com a taxa básica neste novo patamar, a remuneração passou para 0,5% ao mês + TR, a mesma rentabilidade da poupança antiga e retorno máximo para esse tipo de aplicação.

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Lembrando que a caderneta de poupança não tem taxas nem imposto de renda, e sua rentabilidade é mensal, apenas no dia do aniversário. Como a TR tem se mantido zerada, eu a desconsiderei na simulação. Mas é possível que ela deixe de ser nula em algum momento do futuro próximo, com novas altas da Selic.

Já o Tesouro Selic é um título público que paga, no vencimento, a Selic mais um ágio ou deságio. Se vendido antes do vencimento, o retorno é levemente sacrificado em função de uma diferença entre as taxas de compra e venda do papel (spread), o que pode deixar a rentabilidade inferior à Selic do período.

O rendimento do Tesouro Selic é diário, e há cobrança de IR e de uma taxa de custódia obrigatória de 0,25% ao ano, paga à B3, apenas sobre o que exceder o saldo investido de R$ 10 mil. A partir de janeiro de 2022, essa taxa cai para 0,20% ao ano.

É possível, porém, que a rentabilidade do título seja um pouco maior do que a que aparece na tabela. Isso porque, nos casos de venda antes do vencimento, a calculadora do Tesouro Direto não confere a isenção de taxa de custódia para o valor investido inferior a R$ 10 mil.

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Levei em conta, ainda, que a corretora utilizada para operar no Tesouro Direto não cobra taxa de agente de custódia, que é aquela taxa de administração que as corretoras podem cobrar para oferecer acesso à plataforma do Tesouro - mas que a maioria já não cobra.

Considerei também os fundos de renda fixa que só investem em Tesouro Selic e não cobram taxa de administração, supondo que seu retorno represente a variação do CDI no período menos o imposto de renda. Assim, esses fundos se equiparam, por exemplo, aos CDBs, RDBs ou contas de pagamentos que remuneram 100% do CDI.

Vale aqui uma observação: os fundos Tesouro Selic não costumam pagar exatamente 100% do CDI. Sua remuneração tem ficado um pouco abaixo disso, e eles também estão sujeitos a eventuais quedas nos preços dos títulos, que são raras, mas podem acontecer. A simulação é apenas ilustrativa.

Por fim, simulei o retorno da LCI porque se trata de um título isento de taxas e de IR. Considerei um papel que pague 100% do CDI (às vezes surge uma dessas por aí), apenas para você ver o que seria receber uma rentabilidade líquida de 100% do CDI.

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A renda fixa voltou

Com a Selic em 9,25% ao ano, já dá para dizer que os investimentos de renda fixa atrelados à taxa básica de juros, mesmo os mais conservadores, "voltaram para o jogo".

Repare que, no prazo de um ano e considerando uma Selic constante, as rentabilidades líquidas projetadas para o Tesouro Selic (7,46%), os fundos Tesouro Selic ou CDBs que rendem 100% do CDI (7,55%) e as LCIs que rendem 100% do CDI (9,15%) já vencem a inflação projetada para 12 meses, de 5,36%.

Essa diferença tende a aumentar à medida que a Selic subir mais, conforme o previsto, e a inflação for, consequentemente, sendo controlada.

Repare ainda que a poupança se mantém desvantajosa frente aos demais investimentos conservadores, e deve ficar cada vez mais. Mas agora, mesmo a poupança já se mostra capaz de repor a inflação projetada em 12 meses.

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Além disso, nos atuais patamares de juros, o Tesouro Selic ganha da poupança nova em todos os cenários, mesmo quando há cobrança de taxa de custódia, no resgate antecipado e nos prazos mais curtos, quando a alíquota de IR é maior. Porém, como víamos no início do ano, nos patamares mais baixos de Selic, nem sempre isso é verdade.

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