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Haverá muita volatilidade, mas o final pode ser mais feliz para os mercados, seja com Lula, Bolsonaro ou uma terceira via
O humorista Robert Benchley oferece uma ironia de que gosto muito. Diz que existem dois tipos de pessoas: as que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e as que não fazem isso.
A resposta talvez esteja em Walt Whitman (ah, sim, a resposta sempre está na poesia): é necessária uma multidão de opiniões para ajudar as pessoas a entenderem que elas também são múltiplas. Há sempre várias perspectivas e possibilidades sobre cada assunto.
Eleição é um tema complexo. Dinâmico. E também bastante incerto. Evitemos a polarização das conversas com o titio do Zap e tratemos o tema com a profundidade que ele exige.
Perdidos no labirinto da PEC dos Precatórios, da Selic indo para 12%, da inflação de dois dígitos e da recessão esperada para 2022, já tendo perdido o fio de Ariadne desde que abandonamos a âncora fiscal, deixamos escapar algo importante: talvez a eleição de 2022 tenha sido definida e ninguém percebeu.
Calma. Mais uma vez: calma.
Isto aqui não é uma tentativa de adivinhação do nome vitorioso no pleito de 2022. Seria ridículo. Uma semana é muito tempo em política. Imagine um ano. Neste momento, parece haver boas chances de o presidente Bolsonaro ser reeleito. Também parece existir boa chance de o ex-presidente Lula ser eleito. E há ainda probabilidade razoável de eleição de uma terceira via. Resumidamente, portanto, os modelos mais científicos do planeta Terra podem afirmar sobre o tema: ninguém sabe nada.
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Segundo esclarecimento: as palavras aqui escritas têm como objetivo aventar hipóteses de impacto das eleições sobre os ativos financeiros. Ideologia política não combina com seu home broker.
Não é porque seu candidato vai ganhar a eleição que, necessariamente, você precisa ficar mais otimista com ativos de risco. Também não é razão para vender tudo se sua preferência for derrotada.
O mercado é aético (não significa antiético). E, com a transparência de sempre, àqueles que nutrem algum tipo de curiosidade sobre minhas preferências individuais, informo: sou liberal na economia e nos costumes. Lembrando que a essência do liberalismo e da meritocracia pressupõe igualdade de oportunidade. A falsa narrativa que tenta impor uma dicotomia entre responsabilidade social e responsabilidade fiscal deve ser evitada a qualquer custo.
O grande medo do mercado é de que resgatemos, à esquerda ou à direita, uma política fiscal irresponsável e um maior dirigismo estatal, semelhante àquele da época da trágica nova matriz econômica, cujas consequências infelizmente sentimos até hoje.
Como a prioridade de um político é se eleger (ou se reeleger), Bolsonaro poderia topar de tudo até o fim de 2022. Não haveria limites para a caixa de “bondades" (que, na verdade, representam maldades de médio e longo prazo, traduzidas em inflação, que piora a distribuição de renda, e juros mais altos, que aumentam o desemprego).
Teríamos mesmo irrompido para o lado da completa irresponsabilidade fiscal?
Não me parece o caso. Obviamente, a gestão do Orçamento e das diretrizes fiscais, sobretudo desde o fim de junho com o envio da nova reforma do IR e depois com a necessidade de se fazer o novo Auxílio Brasil, com brechas para mais emendas do relator e fundo partidário, tem sido um desastre completo. Isso é indiscutível. A questão que se coloca é: dado o nível de preços, as coisas já não parecem exageradamente negativas?
Do ponto de vista objetivo, a relação dívida/PIB, que todos temiam bater 105%, caminha para 80-81%. Há quem estime superávit primário em 2021 — parece um tanto otimista, mas ainda se falássemos de déficit de algo como 1,5% é uma redução sem paralelos para mercados emergentes no mundo todo frente aos gastos da pandemia. E o governo Bolsonaro deve encerrar seu primeiro mandato com uma proporção de gasto público sobre PIB inferior ao que recebeu, algo que não víamos desde a redemocratização.
Não quero dizer que o governo não tenha frustrado as expectativas mais liberais. Tampouco que não haja muitos erros, nem que deveríamos ter feito muito mais reformas e evitado o populismo em que caímos. Concordo com todas as críticas. Mas, dado o nível de preços, a efetiva piora fiscal já parece contemplada.
O grande medo seriam novas surpresas sucessivas ao longo de 2022. Pode ser, claro. Sempre pode ser. Contudo, há várias prerrogativas legais impedindo criação de novos gastos e irresponsabilidades em ano eleitoral, justamente para se preservar a igualdade de oportunidades entre os candidatos e garantir a lisura da disputa.
Existe alguma (longe do ideal, claro) institucionalidade que impede grandes rompantes, o Congresso é conservador (no sentido de conservar instituições e organizações que funcionam), e o tecido corporativo brasileiro é profundo e amplo, capaz de se organizar e resistir a grandes loucuras.
Cumpre também dizer que o primeiro ano do segundo mandato de um presidente costuma ser o período ideal para o abandono do populismo e o ajuste na casa — a presença de Joaquim Levy no Dilma 2 não é coincidência. A mensagem: ainda que possamos ter um ano mais difícil em 2022, resgataríamos a austeridade em 2023, evitando uma explosão do país. E isso precisa conversar com o nível de preços dos ativos.
Repito aqui as sábias palavras do amigo João Braga no podcast Mesa Pra Quatro (se você ainda não ouviu, corre lá). Eu só vi esses patamares de valuation em outras três situações na minha vida: no pós-quebra da Lehman em 2008, na maior recessão da era republicana brasileira em 2015 e na crise da Covid. Ou seja, as coisas estão baratas. Não significa, evidentemente, que não possam ficar ainda mais baratas. Ninguém aqui tem pretensão de cravar a mínima ou descartamos a volatilidade. A observação é mais geral: estamos numa zona compradora.
Agora analisemos o outro extremo: Lula. A grande preocupação é de retorno de um regime fiscal e intervencionista semelhante àquele vigente quando da nova matriz econômica. Em outras palavras, se tivermos o Lula 2 em vez do Lula 1, possivelmente enveredaríamos por um caminho mais complicado. De fato, é um temor legítimo.
Entretanto, debruçados sobre outros problemas, talvez tenhamos deixado escapar algo relevante. Ao cogitar Geraldo Alckmin como possível companheiro de chapa, Lula afasta a hipótese mais revanchista e isolacionista. Ainda que não venha a ser propriamente Alckmin seu candidato a vice-presidente, ao acenar para o centro e compor alianças impensáveis, Lula sinaliza uma cara para seu governo. É uma espécie de nova Carta aos Brasileiros, ainda não tão incisiva e clara quanto a primeira.
Curiosamente, a original também não foi recebida de imediato com muito entusiasmo. Somente conforme a equipe econômica foi conversando com o mercado e indicando o caminho à frente a tal Carta aos Brasileiros virou tão icônica.
Vale o lembrete: Alckmin é próximo a Persio Arida, autor, junto a André Lara Resende, da clássica proposta “Larida”, precursora do Plano Real. É a representação emblemática da ortodoxia na gestão da política econômica.
Muita coisa ainda precisa acontecer e outras sinalizações serão necessárias para tranquilizar o mercado. O flerte com o centro, no entanto, começou cedo, talvez indicando novos acenos à frente — a carta aos brasileiros original foi escrita apenas em julho de 2002, às vésperas da eleição.
O ponto central deste texto é que não importa tanto o nome em si. Precisamos de uma agenda, de um projeto para o país que contemple, necessariamente, responsabilidade fiscal, reformas estruturais, respeito aos contratos e obediência às sinalizações do sistema de preços.
Na falta de um candidato de centro competitivo, em termos práticos, apesar de provável retórica eleitoral mais incisiva, acalorada e extremista, talvez tenhamos três.
Quando confrontada com o atual nível de preços dos mercados brasileiros, a tão temida eleição de 2022 pode se transformar em um grande catalisador positivo.
Sem ilusões ou falsas esperanças: haverá muita volatilidade, mas o final pode ser mais feliz, independentemente, para os mercados, se for Lula, Bolsonaro ou a terceira via.
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