A virada colombiana e o novo pêndulo político da América Latina
Como a disputa entre Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda recoloca segurança, Estado e mercado no centro do debate regional

A eleição presidencial colombiana deixou de ser apenas mais uma disputa doméstica e passou a funcionar como mais um termômetro da política latino-americana. Abelardo de la Espriella, conhecido como “El Tigre”, venceu o primeiro turno com 43,7% dos votos, superando Iván Cepeda, candidato associado ao legado de Gustavo Petro, que obteve 40,9%.
Como nenhum dos dois ultrapassou a marca de 50%, a Colômbia seguirá para um segundo turno em 21 de junho, em uma disputa que promete ser intensa, polarizada e acompanhada de perto pelos mercados.
A surpresa não foi apenas o fato de Espriella chegar ao segundo turno, mas a força com que chegou. Até poucas semanas antes da votação, parte relevante das pesquisas sugeria que ele poderia sequer avançar à rodada final.
No entanto, o candidato independente de direita transformou o tema da segurança pública em eixo central da campanha, capturou o descontentamento com o governo Petro e superou com folga a média das últimas pesquisas.
O desempenho de Paloma Valencia, apoiada pelo uribismo tradicional, também foi decisivo: ela recebeu 6,9% dos votos, abaixo das expectativas, mas já declarou apoio a De la Espriella ao lado do ex-presidente Álvaro Uribe.
O resultado do primeiro turno da eleição presidencial colombiana

Se a transferência de votos de Paloma para De la Espriella ocorrer de forma relativamente eficiente, o candidato de direita parte em vantagem relevante. Somados, De la Espriella e Paloma alcançaram 50,7% dos votos no primeiro turno.
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Naturalmente, eleições não são operações matemáticas puras. Parte do eleitorado pode migrar para o adversário, anular o voto ou simplesmente se abster. Ainda assim, o ponto de partida favorece a direita, especialmente porque o discurso de segurança encontrou forte ressonância em um país novamente preocupado com violência, sequestros, deslocamentos forçados e expansão da produção de cocaína.
Segurança, fadiga política e o voto de protesto
A ascensão de Espriella não pode ser compreendida apenas como um fenômeno eleitoral de curto prazo. Ela reflete um desgaste mais amplo da experiência política inaugurada por Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história colombiana.
Petro chegou ao poder prometendo ampliar direitos sociais, aumentar o papel do Estado, reduzir desigualdades e negociar com grupos armados por meio da política de “Paz Total”. A intenção era substituir a lógica puramente militar por uma estratégia de diálogo. O problema é que, na percepção de parte crescente do eleitorado, os resultados ficaram aquém do prometido.
Nos últimos anos, a Colômbia voltou a conviver com indicadores preocupantes de segurança. O aumento dos homicídios, dos sequestros e dos deslocamentos forçados enfraqueceu o argumento de que a negociação, isoladamente, seria suficiente para estabilizar o país.
Nesse ambiente, Espriella ganhou tração ao defender uma abordagem mais dura contra o crime organizado, com referências indiretas a modelos de segurança mais rígidos, como o de Nayib Bukele em El Salvador.
Seu desafio, agora, será transformar a energia do voto de protesto em uma coalizão majoritária capaz de vencer o segundo turno. Abaixo, podemos ver como o desempenho de Espriella superou a média das pesquisas, enquanto Paloma Valencia ficou abaixo do esperado.

Do outro lado, Iván Cepeda representa a continuidade do campo político de Petro. Sua plataforma prioriza maior presença do Estado, expansão de políticas sociais, redistribuição de renda, reformas em saúde, educação, trabalho e previdência, além de uma agenda de transformação rural mais ambiciosa.
Trata-se de um programa mais intervencionista, voltado à inclusão social e ao desenvolvimento liderado pelo setor público.
O risco, do ponto de vista dos investidores, é que a continuidade desse caminho mantenha dúvidas sobre disciplina fiscal, ambiente regulatório, segurança jurídica e atratividade do país para o capital privado.
O que está em jogo para os mercados
A reação inicial verificada nos mercados foi positiva para os ativos colombianos, especialmente porque o resultado aumenta a probabilidade de uma mudança de orientação econômica.
Espriella propõe uma agenda mais pró-mercado, baseada em consolidação fiscal, desregulamentação, redução de impostos, fortalecimento do investimento privado e retomada da exploração de petróleo e gás.
Entre suas propostas estão reduzir o tamanho do Estado, buscar superávit primário por meio de um ajuste estimado em US$ 20 bilhões, fortalecer a regra fiscal, simplificar o sistema tributário, vender ativos públicos e modernizar a administração tributária com uso de inteligência artificial.
A agenda energética também é central. Depois de Petro suspender novas explorações de petróleo em uma tentativa de reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis, Espriella propõe reativar a exploração de óleo e gás, reforçar a autossuficiência energética, acelerar projetos offshore e tratar a Ecopetrol como ativo estratégico.
Para uma economia como a colombiana, cuja balança externa e arrecadação ainda dependem de maneira relevante do setor energético, essa mudança teria implicações importantes. O ponto de atenção é a execução: uma agenda dessa magnitude dependeria de apoio no Congresso, coordenação política e credibilidade no ajuste fiscal.
A guinada à direita na América Latina
Aliás, vale notar como a eleição colombiana se insere em uma tendência regional mais ampla. A América Latina atravessa um período de forte insatisfação social, crescimento econômico irregular, deterioração da segurança pública e perda de confiança nos partidos tradicionais.
Em vários países, esse ambiente abriu espaço para candidatos de perfil mais disruptivo, muitas vezes apresentados como outsiders, capazes de prometer ruptura com o establishment. Foi assim com Javier Milei na Argentina, com Nayib Bukele em El Salvador e, em alguma medida, com novas forças de direita em diferentes países da região. A Colômbia pode estar prestes a entrar nessa mesma sequência.
A eventual vitória de De la Espriella reforçaria a guinada à direita observada em parte da América Latina:

Para o investidor, a principal lição é que política voltou a ser uma variável macro central na América Latina. Segurança pública, disciplina fiscal, energia, regulação e relação entre Estado e setor privado deixaram de ser temas separados e passaram a compor uma mesma equação de risco.
A vitória de De la Espriella não eliminaria os desafios colombianos, mas poderia alterar de forma relevante a percepção sobre o futuro da política econômica do país.
Já uma vitória de Cepeda preservaria a continuidade do projeto de Petro, com maior ênfase em redistribuição e intervenção estatal.
O segundo turno, portanto, será muito mais do que uma disputa entre dois candidatos: será um teste sobre qual direção a Colômbia deseja seguir em uma América Latina cada vez mais polarizada.
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