Bolsonaro recua após 7 de setembro e leva alívio para bolsa, dólar e juros; Ibovespa retoma os 115 mil pontos e dólar cai 2%
Após os chefes dos demais Poderes engrossarem o tom e Michel Temer intervir, Bolsonaro voltou a adotar postura mais moderada e mercado aguarda cena dos próximos capítulos

O Ibovespa foi dormir preocupado com a crise institucional e o cabo de guerra entre os Poderes e acordou com a notícia de estradas bloqueadas em 15 estados por caminhoneiros alinhados ao governo federal e uma inflação ainda mais salgada do que já vinha sendo esperado. Mas a maior reviravolta do dia nem mesmo os mais otimistas conseguiam prever.
Depois de mais um dia de aversão ao risco no mercado financeiro local — com os juros futuros alcançando a casa dos dois dígitos nos vencimentos a partir de 2024 e a bolsa no vermelho —, o presidente Jair Bolsonaro voltou atrás nas suas pesadas falas feitas durante a celebração do 7 de setembro e mostrou que no cabo de guerra entre os Poderes, o Supremo Tribunal Federal venceu.
Com auxílio do ex-presidente Michel Temer, figura com credibilidade no mercado, Bolsonaro redigiu uma carta direcionada à nação em tom de desculpas. O chefe do Executivo disse ter sido levado pelo calor do momento, o que teria gerado as suas frases mais agressivas contra os demais Poderes.
Bolsonaro também afirmou ter respeito pelas instituições democráticas, e que embora tenha divergências pessoais com o ministro Alexandre de Moraes, na vida pública não têm o "direito de 'esticar a corda', a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia”. Confira aqui a íntegra da declaração do presidente da República.
O documento não deixa dúvidas de que após testar ao limite a paciência dos demais Poderes o presidente se viu obrigado a recuar. Ontem, Arthur Lira, presidente da Câmara, e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, reforçaram o compromisso com a democracia e com a pauta econômica, e restou ao ministro Luiz Fux, do STF, engrossar o tom e categorizar os ataques como “crimes de responsabilidade”.
Por ora, o Palácio do Planalto acena com uma bandeira branca de trégua. E o mercado financeiro aceita o pedido de desculpas. Na última meia hora de pregão, a bolsa brasileira saiu de mais um resultado negativo para fechar o dia em alta de 1,75%, aos 115.360 pontos, depois de encostar nos 112 mil pontos na mínima.
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O dólar à vista seguiu um caminho diferente da bolsa no início do dia. Enquanto os riscos com o cenário político, fiscal e a elevação da inflação acima do esperado pressionavam, a moeda americana seguia o ritmo de queda visto no exterior. A promessa de trégua em Brasília só acelerou esse movimento e fez com que o câmbio encerrasse o dia em queda de 1,86%, a R$ 5,2273.
Quando a declaração foi divulgada, o mercado de juros futuros já se encontrava na etapa estendida de negociações, após terem passado o dia sob intensa pressão e até mesmo paralisarem a negociação do Tesouro Direto após a alta volatilidade. Com o tom conciliador de Bolsonaro, os principais contratos de DI devolveram boa parte da alta expressiva registrada ao longo do dia. Confira as taxas de fechamento após a sessão estendida:
- Janeiro/22: de 6,99% para 7,26% (com máxima de 7,47%)
- Janeiro/23: de 8,81% para 9,03% (com máxima de 9,50%)
- Janeiro/25: de 10,06% para 9,97% (com máxima de 10,61%)
- Janeiro/27: de 10,51% para 10,36% ( com máxima de 11,08%)
Para Nicolas Borsoi, economista da Nova Futura Investimentos, a reação brusca do mercado hoje tem muito mais relação com a queda brusca registrada na véspera do que com uma possível reversão de tendência. Para diversos analistas, ainda é cedo para afirmar que Bolsonaro não voltará a cometer seus deslizes eufóricos antidemocráticos.
Embora uma trégua seja suficiente para dar mais tranquilidade para a bolsa e o câmbio, o mercado de juros deve ser mais resistente aos gatilhos de curto prazo. Afinal, a inflação medida pelo IPCA acumula alta superior a 9% nos últimos 12 meses e, pressionados pela crise hídrica e alta dos combustíveis, os preços devem seguir se elevando.
Os vilões da vez
A alta da gasolina foi o grande vilão da vez no resultado negativo do IPCA de agosto. A elevação de 2,80% no mês passado exerceu o principal impacto no índice e já acumula uma alta de 31,09% no ano.
Dos nove grupos pesquisados pelo IBGE, oito registraram elevação de preços. O acumulado da inflação nos 12 meses é de 9,68%, bem acima do teto da meta que havia sido estabelecida para 2021 pelo Banco Central, que era 5,25%.
Ao longo de todo o dia, diversas casas de análise e bancos revisaram para cima as suas projeções de alta da Selic e também da atuação do Banco Central na próxima reunião, que será feita no dia 22 de setembro.
Caminho fechado
O mercado já estava com as mãos cheias ao digerir a crise em Brasília, a inflação salgada e o dia negativo no exterior, mas o dia amanheceu com mais uma surpresa - estradas bloqueadas em mais de 15 estados por caminhoneiros aliados do presidente Jair Bolsonaro.
Ao longo do dia, que foi de dor de cabeça para o Ministério de Infraestrutura, o próprio presidente precisou negociar para ver as estradas liberadas e lideranças disseram esperar para negociar com o presidente do Senado.
Mesmo com a remoção de diversos bloqueios, o último boletim indicava que mais de 10 estados ainda apresentavam problemas
Olhando com lupa
Em Nova York, o dia começou positivo e com bons números do mercado de trabalho, após uma semana de dados decepcionantes. Os pedidos de auxílio-desemprego caíram a 310 mil, um recuo bem além do esperado pelo mercado.
Mas a preocupação com a velocidade de recuperação da economia voltou a preocupar e os índices americanos não conseguiram sustentar o movimento de alta.
- Nasdaq: - 0,25% - 15.248 pontos
- S&P 500: -0,46% - 4.493 pontos
- Dow Jones -0,43% - 34.879 pontos.
Outra notícia que mexe com o mercado internacional é a decisão de política monetária do Banco Central Europeu. O BCE manteve os juros inalterados, mas anunciou a intenção de reduzir o ritmo das compras de ativos.
Sobe e desce do Ibovespa
Com a aceleração do Ibovespa após o recuo de Bolsonaro, as empresas que já estavam na ponta positiva ampliaram os ganhos, devolvendo a queda do dia anterior. Com o otimismo generalizado tomando conta dos negócios, apenas duas ações encerraram o dia no vermelho.
Confira as maiores altas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VAR |
| PRIO3 | PetroRio ON | R$ 19,79 | 8,38% |
| CASH3 | Meliuz ON | R$ 33,34 | 6,86% |
| BIDI4 | Banco Inter PN | R$ 20,42 | 6,86% |
| ELET3 | Eletrobras ON | R$ 36,54 | 6,56% |
| WEGE3 | Weg ON | R$ 38,88 | 6,55% |
Confira as únicas quedas do principal índice da bolsa:
| CÓDIGO | NOME | ULT | VAR |
| SUZB3 | Suzano ON | R$ 62,20 | -0,62% |
| BRAP4 | Bradespar PN | R$ 60,39 | -0,05% |
*Colaboraram Rafael Passos, sócio da Ajax Capital, Leonardo Milane, economista da VLG Investimentos, e Nicolas Borsoi, da Nova Futura Investimentos
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