Especulação em Nova York se junta ao velho conhecido “risco fiscal” e Ibovespa derrete 3%
Na semana que vem, o mercado aguarda a decisão de temas importantes, como o pacote fiscal de Joe Biden e a eleição presidencial no Congresso

A empolgação desenfreada que marcou os primeiros dias de 2021 parece ter definitivamente ficado para trás. Depois de uma chuva de recordes pelas bolsas de valores de todo o mundo, o mercado financeiro parece ter colocado os pés no chão e entendido que existe um longo caminho até que as coisas voltem a se parecer com um mundo “normal”.
Sinais de que ainda estamos longe do ideal estiveram por toda parte nesta semana. Eles estavam na fala do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, que indicou que a economia americana ainda deve percorrer um “longo caminho”, estavam nas preocupações com o ritmo de vacinação contra a covid-19 em todo mundo e no endurecimento das regras de isolamento social.
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Eles estão também na atenção redobrada dedicada à corrida presidencial para o comando da Câmara e do Senado, afinal, os eleitos devem conduzir as pautas prioritárias para o país nos próximos dois anos — e há sinais de que a rediscussão do auxílio emergencial uma hora ou outra irá retornar à mesa, pressionando o risco fiscal.
Além disso, nenhum resumo da semana estará completo sem citar o pelo evento mais inusitado e “pop” do mundo dos investimentos em um bom tempo. As incertezas “padrão” que guiam o mercado financeiro desde o início da crise do coronavírus ganharam uma nova companheira nos últimos dias.
O “efeito GameStop” está na boca de todo mundo. Desde leigos aos investidores mais veteranos. O movimento, orquestrado por pequenos investidores de varejo, busca “inflar” o preço de algumas ações e derrubar os grandes fundos de Wall Street que operam vendidos, ou seja, acreditam na desvalorização destes papéis.
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Além de um reflexo imediato nas ações “alvo”, o movimento também trouxe uma carga extra de cautela e volatilidade ao mercado. A soma de tudo isso levou o Ibovespa a cair 3,21%, aos 115.067,55 pontos nesta sexta-feira, no maior recuo diário desde outubro de 2020. Na semana, o recuo foi de 1,97%, fechando o mês com uma queda de 3,32%.
As bolsas americanas não tiveram um dia muito diferente. Como palco central do movimento especulativo, a cautela reinou em Nova York. O índice Dow Jones recuou 2,03%, o S&P 500 teve queda de 1,93% e o Nasdaq caiu 2%.
A vingança das sardinhas
A GameStop, uma varejista de jogos eletrônicos que está longe do seu melhor momento, viu o valor das suas ações se multiplicar centenas de vezes em questão de dias, colocando uma dose extra de cautela sobre todo o mercado de ações. Isso porque o movimento não se limitou aos papéis da varejista. Até a gigante American Airlines foi um dos alvos escolhidos pelos especuladores durante a semana.
Não demorou muito para que o “efeito GameStop” inspirasse pequenos investidores em todo o mundo a tentarem resultados parecidos. No Brasil, as ações da resseguradora IRB Brasil chegaram a subir 18% em um único dia. Hoje, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que a prática do "short squeeze" é um tipo de manipulação e está sujeita a punições administrativas.
Os analistas concordam que essa movimentação artificial, que gera grandes prejuízos aos fundos de Wall Street, não é benéfica ao ambiente de negócios e, como disse o analista da Warren Brasil Igor Cavaca, dão um sinal de possível vulnerabilidade do sistema. Embora seja uma boa narrativa, essa movimentação anormal não é a única razão para a cautela ter reinado nas bolsas americanas e nos negócios brasileiros.
Para Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos, o episódio lá fora deu um empurrãozinho, mas um conjunto de fatores foram responsáveis por afundar o Ibovespa nesta sexta-feira. "Aqui no Brasil, ainda guardo as devidas proporções de comparação entre os dois mercados. Lá você tem um mercado onde a pessoa física tem uma penetração muito maior do que no aqui. Não acredito que isso possa continuar sendo um problema na semana que vem no nosso mercado".
Antecipando o amanhã
Tanto o analista-chefe da Toro quanto Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, acreditam que boa parte da tensão no mercado hoje foi uma antecipação das incertezas que deverão ser endereçadas na próxima semana.
Existem ruídos sobre a possibilidade de uma nova greve dos caminhoneiros e o mercado assiste de perto a reta final da campanha para a presidência da Câmara e do Senado.
O aumento do número de casos de coronavírus e os questionamentos relacionados à implementação de programas de vacinação seguem preocupando os investidores. Na última quinta, o País registrou 1.439 óbitos pela doença, terceiro maior número desde o início da pandemia.
O quadro delicado volta a pressionar o governo por medidas emergenciais e novas restrições de isolamento, que devem ter um impacto na atividade econômica. O consenso segue sendo de que não existe espaço para a manutenção do auxílio, mas o governo estuda uma reformulação do Bolsa Família para aliviar a pressão.
Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, os candidatos com apoio do governo para as duas casas, são os favoritos para vencer o pleito no Congresso. Com a presidência das duas casas, eles serão os responsáveis por pautar temas considerados importantes para o governo e para o mercado, como um Orçamento que respeite o teto de gastos e o andamento das reformas muito esperadas, como a administrativa e tributária.
Victor Scalet, economista e estrategista macroeconômico da XP Investimentos, acredita que mesmo que os candidatos apoiados pelo governo não sejam eleitos, o mercado não deve refletir negativamente. O maior ponto de tensão está na possibilidade da prorrogação do auxílio emergencial. Ainda que todos os candidatos tenham manifestado uma visão de compromisso com o teto de gastos, Scalet não acredita que seja possível abarcar uma nova rodada de estímulos dentro do orçamento.
Lá fora, temos expectativa também para o andamento do pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão proposto por Biden. Ontem, o líder da maioria do Senado indicou que a pauta deve caminhar já na semana que vem.
Pela manhã, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, ressaltou que Biden espera um esforço bipartidário para aprovar o pacote e que o presidente se reuniu com a secretária do Tesouro, Janet Yellen, para falar sobre o assunto. Além disso, Psaki disse que Biden deve manter um diálogo com o Congresso para garantir a aprovação.
“Tudo isso traz incerteza. E diante da incerteza você tem um mercado mais conservador”, aponta Panonko.
O recado do Copom
Outro fator que mexeu com a bolsa, dólar e juros nesta semana foi a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
A instituição apresentou um tom mais “hawkish” e abriu espaço para que uma alta de juros ocorra antes do que vinha sendo precificado pelo mercado. Ao longo da semana, diversas instituições já anteciparam a sua projeção de alta para a próxima reunião, já em março.
Com a perspectiva de uma alta para a Selic em breve, o esperado era que o câmbio tivesse algum alívio, mas ele foi bem pequeno, apenas um recuo de 0,08% na semana. A moeda americana até chegou a recuar forte logo após a divulgação da ata, mas seguiu uma trajetória de valorização.
Hoje, o dólar fechou o dia em alta de 0,71%, aos R$ 5,4745. No mês, a alta foi de 5,51%.
A antecipação da alta da Selic fez a curva de juros reagir de forma significativa ao documento e fechou a semana com uma queda expressiva. Confira as taxas de fechamento:
- Janeiro/2022: de 3,36% para 3,31%
- Janeiro/2023: de 4,93% para 4,84%
- Janeiro/2025: de 6,46% para 6,34%
- Janeiro/2027: de 7,14% para 7,01%
Dança das cadeiras
A temporada de balanços só aquecerá de vez na semana que vem, com a divulgação do resultado dos principais bancos do país, mas nem por isso a semana foi menos agitada no cenário corporativo.
A Cielo deu o pontapé inicial, e o mercado gostou do que viu. Mas esse não foi o maior destaque dos últimos dias. A semana começou com um golpe na ala liberal do governo de Jair Bolsonaro. Na segunda-feira, Wilson Ferreira Junior anunciou que deixaria a presidência da Eletrobras.
A decisão veio após alguns acenos negativos para a possibilidade de privatização da companhia. O executivo não ficou muito tempo sem uma cadeira para se sentar. Rapidamente, a BR Distribuidora foi anunciada como como sua nova casa. Os acionistas da companhia comemoraram a chegada do ex-CEO da Eletrobras, que deve assumir um papel importante na sequência de trabalho de desestatização da companhia.
Enquanto as ações da Eletrobras sangravam, repercutindo negativamente a notícia, a BR Distribuidora surfou uma onda de otimismo com a chegada do novo presidente.
Só desceu
Com a grande aversão ao risco que tomou conta dos investidores, o dia não teve grandes destaques positivos. No Ibovespa, apenas a Braskem (BRKM5) e a Marfrig (MRFG3) fecharam em alta.
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| BRKM5 | Braskem PNA | R$ 24,22 | 1,64% |
| MRFG3 | Marfrig ON | R$ 13,29 | 0,08% |
Os destaques negativos ficaram por conta das empresas ligadas ao minério de ferro. A commodity teve um recuo significativo nesta semana, o que fez com que as companhias, que vinham de uma valorização expressiva recente, realizassem parte do lucro de curto prazo. Confira as principais quedas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| CSNA3 | CSN ON | R$ 30,40 | -8,27% |
| IRBR3 | IRB ON | R$ 7,20 | -6,13% |
| ECOR3 | Ecorodovias ON | R$ 12,13 | -6,04% |
| HYPE3 | Hypera ON | R$ 32,29 | -5,58% |
| BRAP4 | Bradespar PN | R$ 62,51 | -5,27% |
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