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Pare de pagar taxas e receba dividendos

O preço das ações nos dá uma boa margem de segurança e o carrego dos dividendos, que devem pingar ao longo dos próximos três a cinco anos, mitiga boa parte dos riscos

2 de outubro de 2020
5:21 - atualizado às 15:58
mãos masculinas usando telefone inteligente enquanto digita em ATM, caixa eletrônico de banco | Banco Central Bancos Digitais
Imagem: Shutterstock

Logo que terminei a faculdade de Economia, ingressei no curso de Contabilidade da PUC-SP e, por razões de “a PUC é uma universidade católica” tive não só um, mas dois cursos de teologia no meu primeiro ano de graduação.

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O meu segundo professor, um italiano divertido e muito inteligente (confesso que não me recordo do nome, depois de tantos anos), realmente trouxe boas reflexões para a classe e, confesso, foi uma das disciplinas que mais gostei de cursar ali na rua Monte Alegre.

Uma das discussões que tive com ele foi sobre a necessidade da existência dos bancos. Segundo ele, se cada um emprestasse ao seu vizinho, o banco se fazia desnecessário e a usura, as taxas e os lucros bilionários todos seriam melhor divididos pela sociedade.

Escala, capilaridade e o risco do calote simplesmente impediam que o modelo proposto prospere, mas o professor, tão ou mais cabeça dura do que eu, não arredou o pé e se manteve resoluto. Bancos são o demônio.

Caça aos demônios

Com o avanço tecnológico e o advento dos apps, talvez meu professor não estivesse errado, apenas estava à frente de seu tempo. Tirando o fato de que os bancos, bem, não prestam apenas serviços de crédito.

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Assim como hoje você consegue encontrar sua cara metade na tela do celular, aplicativos vieram para simplificar os meios de pagamento, para facilitar a concessão de crédito, baratear os produtos bancários, mudar os meios de pagamento e até mesmo revolucionar as plataformas de investimento.

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Com isso, a estrutura gigante dos bancões tradicionais se viu, da noite para o dia, ameaçada. Quem tinha vida fácil e nadava sozinho se viu cercado de tubarões e está tendo que suar para se manter vivo.

Mas, por mais que as fintechs estejam ganhando espaço e complicando a vida dos bancos, ainda é seguro dizer que nem tudo vai desaparecer.

No âmbito do crédito corporativo, por exemplo, ainda me parece que as moderninhas têm pouco caixa para financiar grandes empresas e projetos estruturantes, por exemplo.

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Outro ponto importante é que os bancos brasileiros sobreviveram a muitas loucuras (é preciso uma certa resiliência para sobrevier a planos Cruzado, Collor, hiperinflação, fraudes e demais particularidades do ambiente financeiro no Brasil) e acabaram aprendendo um truque ou outro no meio do caminho.

No Brasil, banco empresta dinheiro, vende seguro, faz assessoria financeira e coordena IPO, tudo isso assobiando e chupando cana – no Itaú, por exemplo, um terço das receitas são originadas com prestação de serviços, sem contar o segmento de seguros, que está longe de ser desprezível.

Claro, o grosso do resultado ainda vem do “spread” bancário, que é a diferença entre os juros recebidos e pagos pelo banco, e as fintechs estão atacando quase todas os segmentos de atuação da cadeia financeira, mas me parece que o cenário é muito mais de acomodação do que um processo de extinção em massa.

O gigante acordou

Os bancos estão respondendo em diversas frentes, seja na aquisição de concorrentes, seja na maneira de fazer negócios e de se relacionar com os clientes. O Itaú comprou a XP, o Bradesco apostou na Agora e o Santander na Pi, que nesta semana abocanhou a Toro. Quase todo dia sai notícia de que o banco XPTO comprou a corretora fulano de tal.

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O Itaú está montando uma plataforma muito legal de investimentos, com diversos produtos na prateleira e muito acesso para clientes de diversos segmentos, ao mesmo tempo em que já deixou claro que está tentando mudar um pouco o foco da atuação.

O presidente do banco, Candido Bracher, deixou claro no último call de resultados: o Itaú está migrando de operações de cheque especial e rotativo do cartão de crédito e oferecendo produtos mais interessantes para o tomador, com menor taxas de juros, mas mais valor de longo prazo até mesmo para o relacionamento com os clientes.

Abre-se mão de retorno no curto prazo para tentar criar um ambiente mais harmonioso no longo prazo.

Com isso, claro, os índices de rentabilidade sofrem e o retorno sobre patrimônio líquido (ROE), que mede quanto de lucro o banco gera em relação ao capital próprio empregado pelos acionistas, deve sair da casa dos 23% para algo em torno de 15% a 18%, mais sustentável e ainda bem atrativo, quando olhamos para a Selic de 2%.

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No curto prazo, os desafios pós-pandemia ainda são grandes, com um provável aumento do índice de inadimplência (mas em níveis melhores do que esperados há alguns meses). Por outro lado, o banco já fez o dever de casa e aumentou de forma significativa as provisões nos dois primeiros trimestres do ano (há uma boa margem de segurança no balanço).

Em termos regulatórios, o Banco Central, respaldado pela figura do ministro Paulo Guedes, parece estar bastante empenhado em reduzir o oligopólio dos bancos e, no começo do ano, anunciou a criação do Pix, um sistema de pagamentos instantâneos que deve roubar receitas de serviços de transferência (TED e DOC) mas, a princípio, com impactos limitados – preocupa mais a postura do regulador, que deve trazer cada vez mais inovações do tipo para a mesa.

Desconto e dividendo

Porém, quando olho para os papéis, vejo um desconto exagerado: no ano, ITUB4 cai 37%, contra 17% do Ibovespa. O mercado realmente comprou a narrativa da disrupção das fintechs e o gringo, que costuma fazer muito preço no papel, tem ficado longe de bancos de uma forma geral, o que pode nos dar uma boa oportunidade de compra.

Quando olhamos para os números previstos para 2020, as ações do Itaú estão negociando a menos de 12x P/E (relação entre o preço e o lucro do banco) e a 1,6x P/B (que mede a relação entre o preço de mercado e o valor patrimonial das ações). Ambos são bem atraentes, ainda mais se pensarmos que o lucro de 2020 (o “E” do P/E) está bem depreciado.

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Num exercício simples, imaginando que o lucro esperado pelo consenso do mercado, de R$ 2,42 por ação, se materialize e que o banco distribua 50% dos resultados (conservador), o dividendo para 2021 será de R$ 1,21 por ação, ou cerca de 5,5% ao ano – muito interessante, ainda mais se pensarmos que o banco tem um histórico de distribuição mais agressivo e a Selic está em míseros 2% ao ano.

Nessa mesma pegada, se o lucro ficar em R$ 2,42, o preço atual nos dá um P/E de 9,3x, que é bem atraente, ainda que não possa ser considerado uma grande barganha.

Dito tudo isso, entendo que vale comprar ITUB4 ao redor de R$ 22, visando uma valorização de 15% a 20% nos próximos 12 meses. Os riscos não são poucos, como comentei aqui ao longo do texto – os desafios do Itaú para o longo prazo são grandes, ao mesmo tempo em que, no curto prazo, ainda vai ser preciso surfar por momentos complicados, sobretudo no que diz respeito ao mercado de crédito.

O preço das ações nos dá uma boa margem de segurança e o carrego dos dividendos, que devem pingar ao longo dos próximos três a cinco anos (o histórico de distribuição do banco é muito bom), mitiga boa parte dos riscos.

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