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O mês de março foi implacável para a indústria de fundos de investimento, e os gestores que acompanhamos não escaparam do banho de sangue. Mas eles conseguiram recuperar pelo menos uma parte das perdas
Alguém anotou a placa? O mês de março foi implacável para a indústria de fundos de investimento, e os gestores que acompanhamos aqui na Lupa dos Fundos não escaparam do banho de sangue nos mercados.
O choque provocado pela disseminação do coronavírus me remeteu à crise financeira de 2008 e também a uma conversa que tive com um experiente gestor. Na ocasião, perguntei como resistir à pressão e ainda ter lucidez para tomar decisões de investimento sobre o dinheiro de terceiros.
Ao me responder, ele citou uma famosa frase de Winston Churchill: “Se você está atravessando o inferno, não pare.”
De um modo geral, os gestores que acompanhamos aqui estavam pouco preparados para a descida ao inferno. Assim como quase todo o mercado, eles não dimensionaram adequadamente os efeitos devastadores do coronavírus tanto para a saúde como para a economia.
Mas os gestores não ficaram parados e procuraram ajustar as posições à nova realidade. O resultado é que a maioria dos fundos recuperou pelo menos uma parte do tombo sofrido em março.
Se você investiu em fundos que tiveram perda, imagino que em algum momento deve ter passado pela sua cabeça resgatar os recursos e, quem sabe, aplicar nos gestores que conseguiram antever a crise ou ao menos estavam preparados para uma súbita piora no cenário.
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Eu não sou fã dessa técnica de “operar fundos”. Até porque muitos dos ganhadores recentes vinham apresentado desempenho abaixo do mercado. E, como diz o velho mantra, “rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura”.
É claro que o retorno é uma variável importante. Mas eu entendo que conhecer o trabalho do gestor e, principalmente, confiar nas decisões de investimento tomadas são ainda mais importantes para quem decide pagar para alguém fazer o trabalho de administrar o seu dinheiro.
Aqui na Lupa dos Fundos eu trago a seguir o que aconteceu com os fundos que acompanhamos e como eles se posicionaram para reverter as perdas de março.
O único dos fundos entre os que acompanhamos que conseguiu ficar no azul no mês passado foi o mais recente da nossa lista, da gestora Kadima.
Com a estratégia quantitativa, baseada em algoritmos e modelos matemáticos, o fundo Kadima II conseguiu ganhar dinheiro nas principais crises desde que foi criado há 12 anos.
No fatídico mês de março, o fundo conseguiu mais uma vez se manter no positivo com um retorno de 0,13%, mas ficou abaixo do CDI. No acumulado do ano, porém, acumula uma invejável rentabilidade em tempos de crise de 3,25%, equivalente a 270% do indicador de referência.
O fundo costuma obter ganhos ao identificar de tendências de curtíssimo prazo – de 1 a 3 dias em períodos de volatilidade. Foi assim que ganhou dinheiro em momentos como a crise financeira de 2008, o “Joesley Day” e na greve dos caminhoneiros.
O problema é que desta vez o choque nos mercados foi tão forte que em alguns momentos impediu o fundo de operar. “Os limites de alta/baixa e os circuit breaks que ocorreram ao longo do mês de março atrapalharam bastante os modelos”, informou a Kadima.
Neste mês, com o pânico nos mercados um pouco mais controlado, mas ainda assim em níveis elevados, o fundo voltou a ter resultados acima do CDI.
Com uma longa experiência no mercado de crédito privado, a Capitânia já passou por diversas crises. Mas talvez nunca tenha enfrentado duas fortes turbulências em um período de menos de seis meses.
Os fundos que investem em títulos emitidos por empresas, como debêntures, perdem toda toda vez que os papéis que possuem na carteira são negociados no mercado a taxas de juros mais altas.
Isso aconteceu no ano passado por uma dinâmica própria do mercado. As taxas haviam caído muito e sofreram um ajuste, o que acabou afetando a rentabilidade dos fundos.
A Capitânia não só passou ilesa por esse primeiro movimento como ainda conseguiu entregar retornos acima do CDI enquanto quase todos os pares perderam dinheiro.
Quando o mercado parecia voltar à normalidade veio o choque do coronavírus. A onda de venda de todo e qualquer ativo que carregue algum risco levou a uma enorme pressão vendedora de debêntures.
O fundo Capitânia Premium, o nosso favorito, amargou uma perda de 1,28% em março, bem pior que o CDI mas relativamente bem na comparação com o IDEX, índice de debêntures calculado pela gestora JGP, que registrou queda de 7,7%.
O principal risco de quem investe em crédito privado nem são essas oscilações de taxa, mas sim o calote da empresa que emitiu as debêntures.
Embora o risco tenha de fato aumentado, a Capitânia enxergou na queda dos papéis mais um movimento de mercado do que o temor de um calote generalizado.
Depois de escapar ilesa de várias crises recentes no mercado brasileiro, como o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o Joesley Day, a Safari Capital foi pega no contrapé no choque provocado pelo coronavírus.
Os fundos da gestora operam com a estratégia “long bias”, que ganham com a alta da bolsa, mas podem se proteger em momentos de maior incerteza no mercado, ao contrário de um fundo de ações tradicional.
“Desta vez erramos ao não ter hedges para nossas posições, como fizemos na maioria das crises pelas quais passamos até hoje”, escreveu a Safari no relatório de gestão de março.
Diante da crise, a gestora diminuiu a exposição líquida à bolsa para 70% e passou a compor a carteira com ativos ligados ao câmbio, como Vale, Petrobras e frigoríficos, além de concessionárias de rodovias/ferrovias.
Na expectativa de que os Estados Unidos se recuperem primeiro da crise, a Safari também montou uma posição comprada no S&P500, principal índice de ações de Nova York.
As trocas não evitaram o tombo de 32,6% do fundo no mês passado, mas a carteira atual rende 7,14% em abril.
Lembrando que a Safari opera com a estratégia long bias desde 2015, mas o fundo disponível para investimento na época em que escrevi a reportagem (um espelho do principal, mas com carência de 45 dias para resgate) teve início em 2019.
De todas as gestoras que sofreram perdas com a crise, nenhuma ganhou tanto os holofotes como a Alaska. É compreensível, afinal os fundos atraíram mais de 200 mil investidores nos anos de alta da bolsa, mesmo sem serem distribuídos por nenhum grande banco.
Como não podia ser diferente, os fundos da casa caíram junto com a bolsa no mês passado. No fundo de ações tradicional, o Alaska Black Institucional, a perda foi de 32%, um pouco pior que a queda de 29,9% do Ibovespa em março.
O maior problema, no entanto, ocorreu no Alaska Black FIC FIA II, o fundo voltado para o público varejo que também pode carregar posições nos mercados de câmbio e juros.
Eu já havia alertado no texto passado sobre o desempenho dos fundos da Lupa que se tratava de uma aposta de alto risco. Mas não imaginava a tempestade perfeita que gestora atravessaria menos de dois meses depois.
Em meio às fortes perdas, a Alaska decidiu liquidar as posições tanto no mercado de juros como no câmbio. Mas não foi suficiente para evitar uma perda de impressionantes 59,6% no fundo em março.
Pode-se até criticar a forma como a Alaska estava exposta no pré-crise, mas é fato que a gestora sempre adotou uma postura bastante transparente quanto aos riscos dos fundos.
Com a recuperação da bolsa, os fundos devolveram uma parte das perdas, mas seguem com um desempenho bastante negativo no acumulado de 2020.
De todo modo, continuo acreditando na filosofia dos gestores que preza por manter posições de longuíssimo prazo nas companhias investidas.
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