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Agora repaginada e com foco em artigos esportivos, a Vulcabras espera agora virar a página da crise, segundo Pedro Bartelle, CEO da companhia
Um dos nomes mais tradicionais da indústria brasileira de calçados, a Vulcabras passou por um longo inferno astral. Agora repaginada e com foco em artigos esportivos, a empresa espera virar a página da crise.
Entre as mudanças no portfólio, a companhia repassou a Azaleia à Grandene e comprou a Mizuno no Brasil. A marca japonesa se juntou a Olympikus e à Under Armour, enquanto a empresa se prepara para dar fim à Dijean, de caçados femininos. Anunciadas recentemente, essas mudanças eram negociadas há pelo menos dois anos.
A Vulcabras fez sucesso nos anos 1970 e 1980 com os sapatos masculinos da linha "752". A empresa inovou no marketing ao escalar como garotos-propaganda gente como Paulo Maluf, Leonel Brizola e Hebe Camargo. Mas no início da década de 2010, diante de mudanças do mercado, a empresa fez novas apostas — errou e correu até o risco de quebrar.
O avanço de marcas que produzem na Ásia, com países que cresciam ao mesmo tempo em que os europeus enfrentavam uma crise, mexeu com as empresas brasileiras do setor. A Vulcabras optou por adquirir em 2007 a Azaleia (e com ela a Olympikus), investiu recursos e triplicou de tamanho, em uma tentativa de concorrer com estrangeiras. Não deu totalmente certo.
"A gente se preparou para um crescimento que não aconteceu", conta o atual CEO da Vulcabras, Pedro Bartelle, em entrevista ao Seu Dinheiro. O executivo assumiu os negócios da família em 2015, depois da reestruturação promovida pelo consultor Claudio Galeazzi, especialista em corte de custos.
A Vulcabras chegou a ter 29 fábricas e 45 mil funcionários. Hoje são dois espaços de fabricação no Brasil e 13 mil pessoas trabalhando para a companhia — incluindo os colaboradores do centro administrativo e do centro de tecnologia e desenvolvimento. Há ainda duas filiais e centros de distribuição no Peru e na Colômbia.
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Com os cortes, a empresa saiu de cinco anos de prejuízo, entre 2010 e 2015. Embora afetada na pandemia, a empresa voltou a dar lucro no terceiro trimestre, com um resultado de R$ 43,4 milhões — alta anual de 3,9%.
Bartelle defende que o portfólio da Vulcabras é adequado ao bolso do brasileiro — com produtos que, segundo ele, duram mais e não são caros — e que a covid-19 ainda deixa o legado da aceleração da digitalização das vendas. “Nossos custos diminuíram muito, com viagens para feiras, por exemplo”, diz.
O executivo conta que a empresa foi surpreendida com a velocidade de retirada de pedidos, durante o último lançamento da coleção. "Hoje temos 300 pessoas na nossa força de venda, 'disparando' conversas e videoconferências", diz Bartelle. "A gente tem catálogos digitais e consegue mostrar o produto em três dimensões."
Ao se desfazer apenas da Azaleia, em um contrato de ao menos três anos, a Vulcabras abriu mão de uma marca que fatura R$ 100 milhões por ano, mas o movimento complementaria a entrada da Mizuno — que tem receita anual de R$ 44 milhões. A empresa desembolsou R$ 200 milhões para ficar com a marca esportiva.
"Nós vamos usar todos recursos do feminino [da Azaleia, que foi repassada à Grandene] adaptados para a produção de calçados esportivos", explica o executivo da companhia.
O negócio ainda precisa de aprovação do Cade, mas Bartelle diz que, passada essa etapa, a companhia espera realizar contratações e investimentos para a capacidade produtiva — a Vulcabras é responsável por todas as etapas envolvendo as marcas, da pesquisa à produção, e do marketing à venda para os lojistas.
A atuação da empresa hoje, segundo o CEO, é muito mais de gestão de marca, e não apenas de fabricação. "As marcas nacionais antigamente eram de vender mais, em volume, e não fazer licenciamento", lembra. "Com o passar do tempo, a Olympikus precisou fazer produtos para performance esportiva, pensando em uma coleção de acessórios [e não só o calçado]."
Dona de marcas estrangeiras no País, a Vulcabras é definida pelo CEO como uma incentivadora da indústria nacional. "Outros países não têm uma produção local tão forte, então a marca internacional opera diretamente", afirma. "O Brasil é um país de dez Brasis. É muito mais vantajoso ter um parceiro local que já desenvolveu um conhecimento de capilarização no País".
Bartelle ainda cita como um movimento positivo para indústria local a compra da Nike no Brasil pela Centauro. "Você tem uma parceria com uma empresa nacional comprometida em dar resultado. Isso ajuda a disciplinar o mercado, a não tornar o país um lugar em que estrangeiras escoam produção excedente".
Na bolsa de valores, uma oferta de ações está por ora descartada, segundo Bartelle. "Acredito que seria até desrepeitoso com o nosso acionista, levando em consideração o preço das ações da Vulcabras hoje — que, acredito, não estão com um valor justo", afirma.
A empresa também não paga dividendos aos acionistas por conta dos prejuízos acumulados. Os papéis da Vulcabras são negociados nos últimos dias na faixa de R$ 7, com um desconto de 24% neste ano e de 62% nos últimos 10 anos.
Para se ter uma ideia da gangorra que enfrenta o acionista de longo prazo da empresa, em fevereiro de 2000 as ações da Vulcabras valiam R$ 25. No mesmo mês de 2015 o preço era de R$ 1,08.
Analistas costumam ser cautelosos com a empresa, mas dizem ver como positiva as mudanças no portfólio. O BTG Pactual, por exemplo, lembra que a Vulcabras é dependente do cenário macroeconômico doméstico — o alto desemprego e a baixa intenção de consumo das famílias seriam fatores de risco, na visão dos analistas.
A avaliação considera que o legado da covid-19 sobre a economia ainda não muito claro. A pandemia também seria razão pela qual a companhia é mal avaliada no site Reclame Aqui pelos consumidores diretos — e não os lojistas, que compram da Vulcabras —, segundo o CEO.
"As vendas aumentaram bastante. Mas o serviço de atendimento aos consumidores pode ter caído um pouco, algo que a gente já tem corrigido." A empresa tem uma nota de 4,2/10,0 no site de reclamações.
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