O mercado trucou, e o Banco Central mandou descer ao bancar juro baixo
Emparedado pelo repique da inflação e pelo aumento do risco fiscal, o BC foi inflexível e sustentou o “forward guidance”, a sinalização de que a Selic permanecerá baixa por um longo período

Emparedado pelo repique da inflação e pelo aumento do risco fiscal, o Banco Central foi inflexível: não só manteve a taxa básica de juros (Selic) em 2% ao ano como sustentou o “forward guidance”, a sinalização de que as taxas permanecerão baixas por um longo período.
Na prática, a decisão significa que o BC segue no jogo depois que o mercado gritou “truco”. A aposta dos investidores é que a autoridade monetária não tem cartas na mão para sustentar a Selic no menor patamar da história.
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Na edição mais recente do boletim Focus, o mercado projeta uma Selic a 2,75% ao ano no fim do ano que vem. Mas as taxas futuras negociadas na B3 já embutem juros acima dos 5% ao ano em 2021.
As apostas contra o BC ganharam força em setembro, com as ameaças do governo ao teto de gastos e a indefinição sobre como financiar o Renda Cidadã, a versão ampliada do Bolsa Família.
Nas últimas semanas, a visão de que o Banco Central não teria como manter os juros em 2% ao ano foi reforçada com a alta dos índices de inflação ao consumidor.
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Até então, havia dúvidas se a inflação medida pelos IGPs, muito sensíveis à variação cambial e preços no atacado, chegaria ao IPCA, o índice usado como referência do sistema de metas de inflação.
A turma dos que acreditam que a ameaça da inflação é real ganhou mais adeptos depois da divulgação do IPCA-15 de outubro, que registrou a maior alta para o mês dos últimos 25 anos.
Praticamente ninguém no mercado esperava que o Copom mexesse na Selic na reunião que terminou nesta quarta-feira. Mas a visão predominante era que o BC adotasse uma postura mais dura tanto com relação ao risco fiscal quanto de inflação.
Uma maneira de fazer isso seria retirar o "forward guidance" ou sinalizar de forma mais clara que pode agir para conter as pressões.
O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) não deixa nenhum dos temas sem resposta. Mas traz uma cenário aparentemente mais otimista do que o traçado pelo mercado.
Sobre a inflação, manteve o diagnóstico de que o choque de preços é temporário e que as diversas medidas de inflação apresentam-se “em níveis compatíveis com o cumprimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a política monetária”. Mas acrescentou que monitora a evolução dos preços com atenção.
Com relação a um possível furo no teto de gastos em 2021, o BC alerta que o prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia ou frustrações em relação à continuidade das reformas podem elevar os prêmios de risco.
Essa ameaça, porém, não é suficiente para fazer o BC desistir do “forward guidance” porque os diretores entendem não houve mudanças no regime fiscal. O Copom nem sequer fechou completamente a porta para novos cortes na Selic no futuro.
Resta agora saber se os investidores vão aumentar a aposta no truco contra o BC ou levarão a sinalização do “forward guidance” a sério. A trajetória do dólar e dos juros futuros a partir de amanhã deve trazer a resposta.
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