Investidores amarrados e amordaçados
Sem poder operar em feriados, investidores ficam inertes às quedas sistêmicas: de certo, estamos definitivamente em bear market.

Na página 347 da edição da Inversa de meu livro Os mercadores da noite, há a seguinte narrativa:
“[…] nenhum movimento especulativo foi tão intenso quanto o que ocorria na virada do segundo para o terceiro milênio. De uma maneira ou de outra, todos se envolviam com o gigantesco mercado eletrônico. Era possível negociar ações, opções de ações, obrigações dos países, junk bonds e títulos de dívida em qualquer quantidade, de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora do dia ou da noite.”
Como o livro foi publicado pela primeira vez em novembro de 1996, sendo portanto o texto acima futurista, lamento informar que minha previsão não se materializou completamente.
Hoje, quinta-feira, 11 de junho de 2020, feriado de Corpus Christi, o índice industrial Dow Jones está sofrendo uma queda cavalar. Neste exato momento, 13:58, horário brasileiro, o Dow cai 1.509 pontos, equivalentes a 5,54%.
Para desalento dos investidores e especuladores que operam nos mercados de ações e de futuros de São Paulo, eles não podem fazer absolutamente nada. Com exceção daqueles habilitados e cadastrados para operar ETFs, que espelham o Ibovespa em Nova York, os demais estão simplesmente amarrados e amordaçados. Para estes, mesmo um stop defensivo está fora de questão.
Já era para termos aqui no Brasil um sistema através do qual a Bolsa não parasse nunca, sem necessidade de recorrer a Nova York. Isso impediria que os mercadores tupiniquins fossem pegos com as calças na mão.
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[captacao]
Segundo o site da Bloomberg, “A liquidação se aprofunda em meio à crise pandêmica com seus reflexos econômicos”. Publicam isso como se fosse novidade.
Se o mercado estivesse subindo, escreveriam algo como: “A alta das Bolsas se deve às perspectivas de diminuição dos casos de coronavírus nos Estados Unidos e posterior recuperação econômica.”
Isso se chama profecia do passado.
A verdade é que a Covid-19 e suas consequências sanitárias e econômicas, sem exagero, alteraram o rumo da História. Tipo: antes e depois, tal como o crash de 1929, o 11 de setembro e a crise do subprime.
Antes de 1987, as bolsas de valores brasileiras não eram muito influenciadas pelos mercados externos.
Claro que na Grande Depressão elas sofreram. Mas só depois que o preço do café despencou. Aliás, naquela época, a Bolsa do Café de Santos era mais importante que a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então principal centro de negociações de ações no país.
Eu devo ter sido um dos primeiros a ganhar dinheiro na Bovespa (atual B3) na segunda-feira 19 de outubro de 1987, a Black Monday – logo irão mudar esse nome, por ser politicamente incorreto, mas é assim que a denominam desde que o crash ocorreu.
Pois bem, na sexta-feira, 16, a Bolsa de Valores de Nova York fechou com os gráficos diário, semanal e mensal rompendo linhas de suporte importantíssimas. Dava-se como certa a queda na segunda.
Como nesse dia, 19, o mercado já abriu com um obsceno downside breakway gap, não dava mais para se ganhar dinheiro vendido a descoberto em Nova York.
Só que São Paulo demorou alguns segundos a reagir. E foi nesse tempinho exíguo que consegui shortear o índice e lavar a égua, pois logo em seguida o mercado paulista acompanhou Nova York.
Outra ocasião em que as Bolsas internacionais despencaram, com as daqui fechadas, foi na Segunda-feira de Carnaval de 1993.
Naquele dia, foi noticiado pelas agências de notícias que o trader Nick Leeson, chefe da mesa de operações do Baring Brothers, banco mais antigo do mundo, em Singapura, havia quebrado a instituição, numa compra de Índice Nikkei futuro na Symex – Singapore International Monetary Exchange.
Para alavancar muito além de seus limites operacionais, Leeson se valeu da Conta Erro que, por ser constituída para lançamento de operações feitas por engano, obviamente não tinha limites.
O grande terremoto-tsunami que atingiu o Oceano Índico, matando 228 mil pessoas e arrasando cidades costeiras da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia, Maldivas, Mianmar e Somália, ocorreu na manhã do domingo 26 de dezembro de 2004, em pleno feriadão de Natal.
Com todos os mercados fechados, ninguém teve chances de fazer stops em suas posições.
Retroagindo no tempo, o fuzilamento do casal Ceausescu (Nicolae e Elena), ele ditador da Romênia, ela parceira atuante, aconteceu no próprio dia de Natal de 1989.
A execução, um dos marcos do fim do comunismo internacional (Cuba e Coreia do Norte são exceções que confirmam a regra; a China é capitalista disfarçada), com certeza seria altista para os papéis de renda variável.
Já está na hora dos mercados não serem interrompidos nunca, como escrevi em Os mercadores da noite.
Estou terminando esta crônica às 17 horas de quinta-feira. O Dow Jones expandiu sua queda minutos antes do fechamento. Agora cai 7%, o maior tombo em 12 semanas. Enquanto isso, os touros brasileiros permanecem manietados e inoperantes em seus currais.
Amanhã, ao entrarem na arena, terão de compensar as perdas de quinta-feira em Nova York.
Aqueles poucos que ainda tinham esperança de ver o mercado voltar às máximas do ano, alcançadas em janeiro, podem tirar o cavalo da chuva.
Definitivamente estamos em um bear market.
Aproveito para convidar você a participar de uma reorganização financeira de perder o fôlego com a Dara Chapman (especialista da Invesa). O link para inscrição é este (gratuito).
Um grande abraço,
Ivan Sant'Anna
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