O diabo é velho — e sedutor
Todos querem acreditar que podemos saber se é para comprar tudo, porque não haverá uma segunda onda importante de coronavírus no mundo, a vacina está logo aí e as eleições norte-americanas não trarão grandes problemas.

Lembra aquela máxima de que o diabo é diabo porque é velho, não porque é sábio? Faz sentido. Se é verdade que você não consegue ensinar truques novos a cães velhos, também é difícil que cães novos aprendam velhos truques. A experiência conta em Bolsa. Evita armadilhas e permite o reconhecimento de padrões, o que poderia inclusive ser uma das definições de intuição.
Às características diabólicas, porém, gostaria de acrescentar uma outra: a sedução.
[captacao]
Os filmes de Hollywood sempre foram muito fáceis de entender — um de seus méritos. Mas eu nunca consegui compreender uma coisa: por que seus vilões são tão feios e asquerosos? Darth Vader, Sauron, Voldemort, Scar, Pinguim… todos eles sórdidos, nojentos e desagradáveis, inclusive com seus companheiros mais fiéis. Como alguém poderia, de fato, seguir um sujeito como esses na vida real? Não é crível.
O Cristianismo percebeu o problema de maneira sagaz. Os retratos do antagonista denotam alguém atraente e sedutor. O satã sempre foi mostrado como uma deslumbrante, sábia e bela (esteticamente) figura. O diabo é uma tentação sedutora. Não me parece coincidência ambos constarem na mesma frase: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
Existem narrativas preocupantes em Bolsa justamente porque elas são atraentes. A mais perigosa de todas, para mim, é aquela de que as pessoas são capazes de antever o futuro. Se você sabe o que vai acontecer, está no controle. Retira a incerteza do processo e pode antecipar os movimentos do mercado.
Todos querem acreditar que podemos saber se é para comprar tudo, porque não haverá uma segunda onda importante de coronavírus no mundo, a vacina está logo aí e as eleições norte-americanas não trarão grandes problemas. Então, podemos vender o combo “stay at home”, notadamente as empresas de tecnologia americanas e o dólar, e comprar tudo que se beneficia da abertura das economias. Vá para ativos de risco clássicos e fique rico rapidamente.
Ou também podemos crer no contrário, em que devemos nos alojar nas big techs americanas e no greenback, pois ao menos uma segunda onda é inevitável no outono e no inverno no hemisfério norte, as economias vão perder força depois do impulso inicial dos estímulos fiscais e monetários e do efeito da demanda reprimida, a vacina ainda demora para chegar, de fato, à população, e as eleições nos EUA impõem um risco importante.
Claro que, depois, com o benefício da retrospectiva, ficará óbvio qual caminho deveria ter sido seguido. A História não conta tudo que poderia ter sido; apenas um cenário entre os vários possíveis acaba se materializando. Esse é um dos paradoxos da necessidade de se tomar decisões ex-ante. Você pensa prospectivamente e pondera os vários cenários possíveis e prováveis à frente. Contudo, só um deles vai se materializar. Ou seja, por mais racional, prudente e científico que você seja, pensando probabilisticamente, você vai errar, porque a vida não conta probabilidades.
O day trade é outra narrativa atraente. Ganhe dinheiro rápido com esse método aprendido durante o final de semana e passe a fumar charutos caros e a beber whisky vestido de camisa com abotoadura e suspensório — veja como a figura de Gordon Gekko é diabólica. Quem não quer? A Pasárgada mental do home broker.
“Ah, as chances de se dar bem com o day trade são mesmo baixas, mas as chances de se dar bem em outra profissão também são. Só uma parcela pequena da população brasileira é bem-sucedida.”
Pode até ser, mas não são coisas equivalentes. Erro tipo 1 e erro tipo 2. Se você entra para trabalhar numa multinacional com 35 anos, não se adapta e é mandado embora, você sai com patrimônio muito parecido, sem grandes ferimentos. Agora, se você passa a operar em Bolsa sem o profundo conhecimento e gerenciamento de riscos, o que só vem com anos de estudo e prática (como em qualquer outra profissão), aquilo pode lhe render prejuízos materiais expressivos. Na vida real, no gerenciamento do patrimônio familiar, perder não é ganhar com um sinal de menos na frente. Os efeitos são bastante diferentes entre ter um prejuízo e deixar de ter um lucro. Se você tem um milhão e perde esse um milhão, o efeito é completamente diferente do que se tem um milhão e deixa de ganhar um segundo milhão. O primeiro é uma tragédia familiar. O segundo significa apenas que a luta continua, companheiro.
A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle, resume Nietzsche. Há duas verdades inconvenientes (e preocupantes) sobre o processo de investimento. A primeira é que você jamais terá controle da dinâmica. Estaremos sempre num ambiente de incerteza e sujeitos à aleatoriedade. Para não perder da inflação, você terá de abandonar a poupança e os fundos DI. Ou seja, vai precisar correr risco. E o risco é o escopo da incerteza, da probabilidade, da falta de controle sobre o processo. É preciso entregar-se ao desconhecido e às intempéries da deusa Fortuna para ganhar dinheiro de verdade. Delegar o controle do seu dinheiro a um processo estocástico não é trivial para cérebros que foram feitos para acreditar estarem no comando.
A segunda é que o ato de investir não é atraente ou sedutor. Ao contrário, quando bem feito, é bastante entediante. Não tem nada a ver com jogo, adrenalina, tesão.
Você passa meses estudando uma empresa, conversa com todos os elos da cadeia (RI, gestores, controlador, entidades setoriais, concorrentes, etc.), se debruça sobre os ITRs, monta planilhas, remonta, revisa. Decide então não comprar, porque o preço já subiu muito enquanto você estudava com diligência. Meses de um trabalho aparentemente jogado fora. Então, você refaz o processo para uma nova. Mais seis meses naquilo. Desta vez, você compra, porque está mais barato do que vale. Mas, claro, não é porque você comprou que a ação vai retribuir-lhe o agrado e passar a subir imediatamente. Você passa mais seis meses sendo visto como um idiota, porque, no semestre inicial, ninguém ainda havia percebido aquela assimetria informacional. Para identificar aquele subapreçamento, você esteve em vantagem sob a ótica da informação, teve um “edge” em relação ao consenso de mercado, que só foi descobrir depois de seis meses que você estava certo. Seis meses de estudo, seis meses apanhando do mercado — um ano de um processo nada agradável. Só depois colhemos algum fruto; assumindo, claro, nenhuma surpresa tipo a Covid no meio do caminho. Os black swans podem jogar esse seu ano fora também.
A vida é dura. Não tem nada a ver com Gordon Gekko. Como atrair as pessoas para uma narrativa assim?
- Quer receber mais insights de investimentos feitos pelo Felipe Miranda? Acesse a série Palavra do Estrategista.
O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Pato manco (com laranja): eleições nos EUA, balanço do Itaú e decisão do Copom movimentam os mercados hoje
4 de novembro de 2026 - 8:26O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Outro patamar: Ibovespa volta do feriado com petróleo, juros, resultado do Itaú e eleições nos EUA no radar
3 de novembro de 2026 - 8:34O MELHOR DO SEU DINHEIRO
É preciso olhar pra fora: o viés doméstico do investidor brasileiro e o que mexe com os seus investimentos na semana
2 de novembro de 2026 - 9:45VISÃO DE DONO
O orçamento aceita tudo: como acertar no planejamento do budget da sua empresa
2 de novembro de 2026 - 9:14DÉCIMO ANDAR
O Casamento Vermelho dos mercados: o que fazer com os fundos imobiliários (FIIs) depois das urnas
1 de novembro de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O preço da oportunidade: bolsa em queda, dólar em alta e leilões de imóveis antes do feriado
30 de outubro de 2026 - 8:46SEXTOU COM O RUY
O cenário para a bolsa brasileira mudou; saiba como se preparar
30 de outubro de 2026 - 7:21O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Amigo da onça na bolsa: balanço da Vale (VALE3), Fed, tecla SAP e agenda cheia mexem com mercados após fuga de Flávio Bolsonaro
29 de outubro de 2026 - 8:07EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: Moro num Brasil tropical e trôpego, mas moro no Brasil
28 de outubro de 2026 - 19:30O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Rota de fuga: investidores repercutem decisão do Fed, balanços, imposto sobre dividendos, formação do governo e paradeiro de Flávio Bolsonaro
28 de outubro de 2026 - 8:54O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Não precisa ser assim: Ibovespa junta os cacos da ressaca eleitoral
27 de outubro de 2026 - 8:59INSIGTHS ASSIMÉTRICOS
O choque passou pela bolsa, mas o veredito virá do fiscal
27 de outubro de 2026 - 7:10O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Nunca antes: bolsa, dólar e juros reagem à reeleição de Lula com circuit-breaker no radar dos investidores
26 de outubro de 2026 - 8:21O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O jogo só termina quando acaba: WEG em queda, IPCA-15 e cautela na bolsa no último pregão antes do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro
23 de outubro de 2026 - 7:51SEXTOU COM O RUY
A bolsa tem bons motivos para continuar subindo, mas a WEG (WEGE3) serve como alerta
23 de outubro de 2026 - 6:03O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Uma nova aposentadoria complementar: novas pesquisas eleitorais e início da temporada de balanços movimentam os mercados
22 de outubro de 2026 - 8:27EXILE ON WALL STREET
Rodolfo Amstalden: Na média, continua tudo meio igual
21 de outubro de 2026 - 20:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Um passo de cada vez: início da temporada de balanços e pesquisa Quaest mexem com os mercados hoje
21 de outubro de 2026 - 8:44O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O joio, o trigo e os inadimplentes: eleições, temporada de balanços, revolta na França e petróleo em alta movimentam os mercados hoje
20 de outubro de 2026 - 8:23INSIGTHS ASSIMÉTRICOS