Os fundos de ações mais rentáveis de 2019: campeão rendeu quase 3 vezes o Ibovespa
Melhores fundos de ações do ano passado se destacam por gestão ativa, ausência de compromisso em seguir o Ibovespa ou estratégias com small caps

O investimento em ações foi um dos mais rentáveis de 2019, e com os juros baixos, muitos brasileiros engordaram o patrimônio dos fundos de ações.
Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a classe dos fundos de ações foi a que mais captou recursos no ano passado: cerca de R$ 88 bilhões ingressaram nesses veículos, enquanto os fundos de renda fixa perderam R$ 74 bilhões.
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Os investidores queriam, a um só tempo, buscar retornos maiores que os da renda fixa tradicional, cuja rentabilidade estava nas mínimas históricas, e aproveitar o bull market, movido por juros baixos, perspectivas de reformas e de retomada econômica em um ambiente de inflação baixa e controlada.
Com o mercado de ações numa trajetória de alta, a verdade é que foi muito difícil não ganhar dinheiro na bolsa em 2019. O Ibovespa fechou o ano com um retorno de 31,58%, contra apenas 5,95% do CDI, o indicador que baliza o retorno da renda fixa conservadora.
Mesmo assim, alguns fundos se destacaram, com retornos equivalentes a duas ou três vezes o Ibovespa. Eu pedi à consultoria Economatica um ranking dos fundos de ações mas rentáveis de 2019 que estejam disponíveis para investidores pessoas físicas.
Gestão ativa e small caps
Como você vai ver a seguir, a maioria dos gestores que entregaram desempenhos muito acima da média aos seus cotistas são especializados em ações, fazem gestão ativa dos fundos e não têm compromisso de investir em papéis do Ibovespa ou de seguir o índice.
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Destaque também para os fundos small caps, focados em ações de empresas de baixo valor de mercado. Este segmento da bolsa teve um desempenho quase duas vezes melhor que as grandonas do Ibovespa no ano passado. O retorno do Índice Small Cap (SMLL) em 2019 foi de nada menos que 58,20%.
Os fundos que seguem essa estratégia e chegaram ao topo do ranking se caracterizam por buscar empresas fora do radar do mercado e que estejam com o preço muito descontado, apesar de terem boas perspectivas.
Também é comum que esses fundos tenham uma postura mais ativista, como participantes ou conselheiros da gestão das empresas onde investem. A visão é de longo prazo: o papel pode ficar dois, três, cinco anos na carteira.
Os 20 fundos de ações mais rentáveis de 2019

Metodologia
O ranking inclui apenas fundos com mais de mil cotistas no fim do ano passado, na tentativa de criar um filtro para fundos disponíveis para o investidor de varejo, evitando aqueles que só podem receber aportes de outros fundos ou investidores institucionais.
Foram excluídos os fundos setoriais, os que investem em apenas uma ação, e os fundos espelhos (para evitar duplicidade na lista).
Pedi ainda a rentabilidade acumulada em dois e três anos porque, para fundos de ações, é sempre legal analisar históricos longos - eles são voltados para objetivos de longo prazo e têm alta volatilidade, podendo apresentar perdas eventualmente. Lembrando sempre que rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.
Muito além do Ibovespa
O primeiro e o terceiro colocado da lista são fundos de casas especializadas em ações e com gestão ativa, sem obrigação de manter qualquer correlação com o Ibovespa.
Campeão de 2019, o Tagus Fundamental deveu boa parte dos seus quase 90% de retorno a dois grandes grupos de empresas: as que tiveram impacto benéfico da queda dos juros no seu endividamento, com destaque para o setor de logística, e companhias mais ligadas a mercados digitais.
Neste último, destacaram-se fintechs - notadamente bancos com estrutura digital e negócios muito escaláveis - e empresas com operação de comércio eletrônico.
“Dentro desse subtema do e-commerce, tem a questão de que esse é um mercado amplo, aberto, competitivo, mas com discrepância brutal de precificação entre as empresas. Mas a tecnologia será cada vez mais homogênea, então os preços tendem a buscar uma convergência”, diz Régis Abreu, head da área de gestão da Tagus.
Posições vendidas, que permitem ganhar com a queda das ações, também contribuíram. Foi o caso de Burger King (BKBR3), que caiu mais de 13% em 2019. Segundo o gestor, a ação vinha sendo negociada a um múltiplo muito alto, comum em empresas de tecnologia, mas que não se justificam no ramo alimentício.
Já o HIX Capital Institucional FIA - que obteve o melhor desempenho entre os fundos com mais de R$ 100 milhões de patrimônio - teve como principais investimentos no ano passado os papéis da Eneva (ENEV3), Jereissati Participações (JPSA3) e Sinqia (SQIA3).
Todas as três eram posições antigas e ainda se mantêm na carteira. Os investimentos em Eneva, que no ano passado subiu 173%, e em Jereissati Participações, que teve alta de 68%, foram ambos feitos em 2016. Sinqia, que se valorizou 270%, é de 2015. Condizente com a estratégia fundamentalista e de longo prazo da casa.
Eneva era a maior posição do fundo e, segundo o sócio Lucas Giorgio, vinha andando de lado, apesar de entregar resultados crescentes. “No ano passado, o papel entrou no radar de alguns fundos e andou bem. Ainda gostamos muito do ativo, achamos que ainda têm um potencial bom e seguimos comprados”, diz.
Já a posição em Jereissati Participações foi uma maneira que a HIX encontrou de comprar ações da gestora de shoppings Iguatemi com desconto. “A Jereissati é a holding familiar que investe em shoppings Iguatemi, e estava com desconto de quase 75% quando entramos no papel em 2016”, diz Giorgio.
A Sinqia, por sua vez, tem sido um caso de ativismo da HIX. A gestora é o acionista com maior posição na companhia, com 8% de participação. O CIO da HIX, Rodrigo Heilberg, é o presidente do conselho de administração da empresa de software. “Os donos da Sinqia convidaram a HIX para o conselho”, explica Giorgio.
Pequenas e fora do radar
Três dos melhores fundos do ranking são focados em small caps e superaram o Índice SMLL no ano: o Trígono Flagship, o Banrisul FIA e o 4UM Small Caps.
A carteira do Trígono Flagship tem apenas 3% de sobreposição com o Índice Small Caps. Segundo o CIO Werner Roger, os papéis que mais contribuíram para o seu retorno de 69,01% no ano passado foram Trisul (TRIS3) e JSL (JSLG3), que tiveram, respectivamente, altas de 280% e 282%.
A Trisul é a única aposta da gestora no setor de construção, cujas empresas Roger já considera caras. Apesar disso, a Trígono ainda mantém o papel na carteira, embora com exposição menor do que há um ano.
Já a empresa de logística JSL é muito ligada à economia doméstica e ao crescimento do PIB. “O mercado havia renegado esse tipo de companhia”, diz o gestor.
Contudo, à medida que foi mostrando bons resultados, a empresa foi chamando atenção, ficando ainda mais em evidência quando da tentativa frustrada de abertura de capital da Vamos, seu braço de locação de caminhões, máquinas e equipamentos. Também sentiu o impacto benéfico da queda da taxa de juros no seu endividamento.
“Agora que a economia começou a dar sinais de melhora, a ação está subindo ainda mais. O investidor estrangeiro, principalmente, gosta muito dessa ação”, diz Werner Roger.
A 4UM, novo nome da gestora paranaense JMalucelli Investimentos, é outra gestora com expertise em small caps. Seu fundo 4UM Small Caps FIA rendeu 62,43% no ano passado.
Todas as dez ações do portfólio totalmente voltado para small caps tiveram alta no ano passado, mas os destaques foram os papéis da Qualicorp (QUAL3), que subiram 243%, da construtora Rodobens (RDNI3), que se valorizaram 192%, e da fabricante de silos para armazenagem de grãos Kepler Weber (KEPL3), com alta de 101%.
A Qualicorp foi adquirida em 2018, depois que os papéis da companhia desabaram 30% devido à aprovação de um pagamento de R$ 150 milhões ao seu presidente para que ele não vendesse sua participação por seis anos.
Apesar do problema de governança, a 4UM considerou a reação do mercado exagerada, já que a companhia era sólida, boa pagadora de dividendos, e a questão não afetaria os resultados da empresa.
Além disso, os demais acionistas não iriam ficar parados, como de fato não ficaram, e a situação acabou se resolvendo com um novo acordo. “Foi uma das teses mais rápidas da história do fundo”, disse Dedini. O fundo vendeu sua posição em meados de 2019.
Já a Rodobens foi adquirida pelo fundo em abril de 2019 e ainda permanece na carteira. A companhia vinha de uma série de resultados ruins e era negociada a apenas 40% do valor patrimonial, com baixíssima liquidez.
Apesar disso, estava se reformulando, melhorando a gestão e atuando num segmento em que não tinha concorrência: condomínios de casas para público de renda baixa e média em cidades do interior.
Finalmente, a Kepler Weber é uma posição antiga, montada em 2016, mas que só mais recentemente passou a se recuperar. A companhia também é líder no seu segmento e vem se beneficiando da queda dos juros, do retorno da confiança e das perspectivas de crescimento.
Segundo Dedini, ela vinha descontada devido à baixa liquidez dos papéis e à existência de um bloco de controle mais “engessado”, questão que recentemente também foi resolvida.
Já o Banrisul FI Ações se beneficiou principalmente do bom desempenho da rede de farmácias Panvel (PNVL4), que subiu 101,60% em 2019, e com as nem tão desconhecidas Minerva (BEEF3) e Via Varejo (VVAR3), que subiram, respectivamente, 158% e 154% no ano passado.
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