Saltando do avião com paraquedas: confira os melhores e piores investimentos de julho
Ativos de risco têm mais um mês de recuperação, mas ouro também dispara; já o dólar tem desvalorização e fica na lanterna

Julho foi mais um mês de recuperação para os ativos de risco após o pânico visto em março. Mas, assim como no mês passado, os investidores mantiveram um pé no risco, com as apostas na recuperação da economia, e outro pé nas proteções, porque vai que dá errado?
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Dessa forma, tivemos entre os melhores investimentos do mês o bitcoin - animado por notícias de maior institucionalização do mercado de criptomoedas -, os títulos públicos de longo prazo atrelados à inflação - beneficiados pela redução da percepção de risco e queda nos juros longos -, o ouro - ativo de proteção preferido de julho -, e a bolsa, com o avanço de 8,27% do Ibovespa, aos 102.912,24 pontos.
Na lanterna do ranking, tivemos uma queda surpreendente do Índice de Fundos Imobiliários, o IFIX, e uma descompressão do dólar, que apresentou a maior queda mensal ante o real no ano, fechando a R$ 5,22 na cotação à vista e R$ 5,20 na PTAX (cotação do Banco Central). Confira o ranking:
Os melhores investimentos de julho

Meio lá, meio cá
Assim como no mês passado, em julho os investidores continuaram surfando a imensa liquidez disponível no mercado, em um mundo de juros próximos a zero e repleto de medidas de estímulo por parte de governos e bancos centrais.
O Federal Reserve, o banco central americano, anunciou compra de títulos públicos e privados e manteve os juros zerados, comprometendo-se a mantê-los neste patamar por tempo prolongado, até que a economia americana mostre sinais de ter superado a crise.
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O governo americano apresentou um novo pacote de estímulos no valor de US$ 1 trilhão, e na União Europeia foi aprovado um pacote de US$ 1,8 trilhão de euros.
Desta vez, porém, uma série de dados econômicos e resultados corporativos positivos se mesclaram a dados e resultados negativos, ora gerando uma aposta numa rápida recuperação econômica, ora deixando os investidores com o pé atrás.
Embora a economia chinesa já esteja mostrando uma certa tração, na Europa e nos Estados Unidos, os dados econômicos foram mistos. E mesmo aqueles que vieram melhores que o esperado, ainda vieram bem ruins.
É o caso do PIB americano do segundo trimestre, que caiu 33% na cifra anualizada, maior contração da série histórica iniciada em 1947; ou dos PIBs dos países europeus e da zona do euro, que também apresentaram quedas recordes.
Assim, os investidores ainda não conseguem cravar que uma recuperação econômica firme nos países desenvolvidos esteja em curso. Seja como for, parece ter se sedimentado a visão de que o pior da crise já ficou para trás, lá nos meses de abril e maio. Além disso, as notícias sobre os avanços das pesquisas de vacinas contra o coronavírus têm sido animadoras.
Velhos e novos riscos
Por outro lado, temos no horizonte velhos e novos fatores de risco. Entre os velhos riscos, você sabe, a pandemia de covid-19 ainda não deu trégua nos Estados Unidos, e durante o mês de julho ameaçou tornar a fechar o comércio e os serviços presenciais - em alguns casos, como o dos bares e restaurantes da Califórnia, fechou mesmo.
Já a Europa e alguns países da Ásia começaram a ver números recordes de casos depois de algum tempo com a doença aparentemente controlada, reacendendo os temores em relação a uma segunda onda após o relaxamento das medidas de isolamento social. Certos países europeus, como França e Espanha, parecem de fato estar passando por uma segunda onda, e barreiras a viagens voltaram a ser erguidas no Velho Continente.
Entre os "novos" fatores de risco, vimos as tensões entre EUA e China escalarem depois que os americanos ordenaram o fechamento do consulado chinês em Houston, estado do Texas, sob acusação de espionagem. Os chineses retaliaram fechando um consulado americano na cidade de Chengdu, província de Sichuan. A troca de farpas entre Washington e Pequim levou os mercados a temerem que o acordo comercial entre os dois países, assinado em janeiro, caia por terra.
O retorno das reformas?
Localmente vimos um fenômeno parecido com o que ocorreu lá fora. Dados econômicos e balanços corporativos mistos, mas no geral sugerindo que o pior da crise ficou para trás.
Um fato novo que animou bastante os investidores por aqui foi o avanço, ainda que tímido, da reforma tributária. O governo finalmente apresentou a sua proposta ao Congresso, e a postura do ministro Paulo Guedes, de ter ido ao Senado para entregá-la, foi bem recebida pelo mercado, pois demonstrou boa vontade entre o Executivo e o Legislativo.
Saltando do avião...
Nesse cenário, os fatores positivos do mês acabaram contribuindo para reduzir a percepção de risco no Brasil e no mundo, impulsionando a bolsa, enfraquecendo o dólar e aliviando os juros futuros de longo prazo, muito relacionados ao risco-país. Foi em julho que o Ibovespa retomou o patamar de 100 mil pontos, depois de ter ido à casa dos 60 mil pontos em março.
A boa percepção quanto à reforma tributária também contribuiu para a queda dos juros longos. Esse "fechamento da curva de juros" ajudou os títulos prefixados e atrelados à inflação de longo prazo, que apanharam um bocado em março, a se recuperarem e praticamente zerarem as perdas do ano. É o caso dos títulos Tesouro IPCA+ com vencimentos em 2045 e 2035, que estão entre os papéis com maior volatilidade do Tesouro Direto.
Os juros de curto prazo também caíram, com as apostas renovadas de que o Banco Central fará um novo corte na taxa Selic na próxima reunião, depois que o Fed manteve os juros nos EUA zerados e reforçou que eles devem permanecer assim ainda por um bom tempo.
Isso também contribuiu para a valorização de títulos públicos mais curtos, embora em menor intensidade.
No lado dos ativos de risco, o desempenho ruim dos fundos imobiliários surpreende, uma vez que eles tendem a ser beneficiados por juros baixos e cadentes, bem como pelo aumento do apetite a risco.
Não houve, em julho, nenhum fato relevante que abalasse os fundamentos dos FII. É possível que, como o IFIX vinha se saindo melhor que o Ibovespa e o apetite a risco aumentou em julho, parte dos recursos alocados em fundos imobiliários tenha sido migrada para o mercado de ações.
Eu conversei com o nosso colunista e analista de FII Alexandre Mastrocinque, e ele levantou ainda uma outra bola: os investidores podem ter ficado desanimados com a perspectiva de tributação de dividendos, como deseja o governo, que poderia levar à tributação dos rendimentos dos FII, hoje isentos de IR para a pessoa física na maioria das situações.
...mas sem esquecer o paraquedas
Mesmo com a menor aversão a risco vista ao longo do mês, os investidores não esqueceram o paraquedas. Mas o refúgio preferido em julho foi o ouro, e não o dólar.
A moeda americana tem visto uma desvalorização global ante outras moedas fortes, e em julho houve queda também ante moedas emergentes. A inundação de dólares com os estímulos feitos pelos Estados Unidos contribui para esse fenômeno, bem como a menor aversão a risco aliada ao fato de que a economia americana ainda não dá grandes sinais de força.
Meu colega Vinícius Pinheiro publicou, na última semana, uma matéria sobre como esse enfraquecimento do dólar faz parte de um movimento maior, e explica a tese dos gestores de fundos que estão apostando em quedas adicionais da moeda americana.
Os ativos reais e escassos, por sua vez, têm roubado a cena como proteções de carteira, como é o caso dos metais preciosos.
No fim das contas, o raciocínio dos investidores foi o de tomar mais risco animado pela recuperação econômica, mas sem descuidar de alguma proteção, já que o ambiente ainda é de muitas incertezas.
Boas notícias para o bitcoin
Um pouco alheio a toda essa movimentação dos mercados tradicionais (mas nem tanto assim), o bitcoin acumulou uma alta de 18,68% em julho, tendo retomado o patamar dos US$ 10 mil.
Além do movimento de alta esperado para depois do halving - evento que ocorre a cada quatro anos e diminui a oferta de novos bitcoins no mercado - o criptoativo passou por um rali no fim do mês, impulsionado pela notícia de que os bancos americanos poderão passar a custodiar criptomoedas.
Notícias como essa tendem a impulsionar os preços do bitcoin, pois quanto mais regulado e institucionalizado esse mercado, mais investidores institucionais podem participar dele. E esses grandes players são capazes de trazer muito dinheiro e maior profissionalização ao mercado cripto.

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