Ibovespa dispara, dólar e juros tombam: mercados começam dezembro com o pé direito
Índice tem maior alta em três semanas com força de Vale e outros pesos-pesados. Ações de setores que sofreram na crise se recuperam. Moeda americana vai ao menor patamar desde julho

O rali de novembro continua em dezembro. Ao menos foi assim na primeira sessão do último mês do ano — se vai ser assim até o dia 30, é outra história.
O Ibovespa disparou 2,3% para 111.400 pontos nesta terça-feira (1), embalado pelas altas das bolsas nos Estados Unidos e na Europa com novas esperanças de vacina no curto prazo e dados animadores da economia da China. Foi a maior alta do Ibovespa desde 9 de novembro.
Na luta contra a covid-19, a notícia de hoje foi de que Pfizer e BioNTech solicitaram a autorização do uso emergencial de sua vacina à União Europeia (UE).
A UE também já havia recebido solicitação da Moderna para autorização emergencial. A agência do bloco europeu responsável por dar aval a medicamentos informou que poderá aprovar os pedidos de ambas as farmacêuticas para liberar o uso das vacinas entre dezembro e janeiro.
Enquanto isso, a economia chinesa continuou a dar indícios de recuperação. O índice de gerente de compras (PMI, da sigla em inglês) industrial divulgado na noite de ontem avançou de 53,6 em outubro para 54,9 em novembro, o maior nível desde novembro de 2010. O resultado é explicado pela maior procura por aço, o que elevou o preço do minério de ferro e ajudou, por exemplo, a Vale.
Os sinais inflaram o otimismo dos agentes financeiros, também impactando o dólar e os juros. Razões locais foram adicionadas ao bom humor.
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O presidente Jair Bolsonaro sinalizou hoje ser contra a extensão do auxílio emergencial em 2021 e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, marcou a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 16 de dezembro.
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Esse misto de bons fatores internos e externos levou o principal índice acionário da B3 a marcar a maior alta em uma semana, com destaque para ações que apanharam um bocado em meio à pandemia de coronavírus: os setores de concessão de rodovias, de shoppings, educacional e bancos ficaram entre as principais altas do Ibovespa.
Quem sobe, quem desce
As ações de bancos, Petrobras e Vale continuaram impulsionando o índice, com grande entrada de estrangeiros nesses papéis.
Os bancos, cujas ações estão defasadas do ponto de vista de valor, subiram forte hoje. Entre os grandes, as ações que menos dispararam foram as Banco do Brasil ON, que registraram um avanço 2,9%. Papéis de bancos acumulam queda de ao menos 10% no ano.
As ações de Petrobras subiram forte, na contramão do petróleo do tipo Brent negociado em Londres, em meio ao adiamento da reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) que ocorreria hoje para quinta (3).
Ações da Vale continuaram a trajetória de alta, avançando 4,4% e somando 60% de ganhos no ano.
Gabriel Mota, operador de renda variável da RJ Investimentos, escritório filiado à XP Investimentos, observa que os bancos estrangeiros Credit Suisse e Goldman Sachs estavam entre os maiores compradores de Vale pela manhã, o que pode indicar a disposição dos gringos pelo papel da mineradora.
No fim da sessão, o Goldman reduziu o volume de compras do papel e a ponta compradora começou a ter maior participação de JP Morgan e Morgan Stanley, além do Credit. O Itaú liderou as compras.
Ações de concessionárias, entre as que mais perderam valor no índice em 2020, como EcoRodovias ON, Rumo ON e CCR ON, também subiram forte.
Ações de administradoras de shoppings também ficam entre as principais altas percentuais do dia, com Multiplan ON e Iguatemi ON disparando mais de 5% hoje. No ano, ainda caem 30%.
Veja as maiores altas:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| YDUQ3 | Yduqs ON | 35,63 | 7,90% |
| ECOR3 | Ecorodovias ON | 12,90 | 7,23% |
| SANB11 | Santander Brasil units | 41,95 | 7,15% |
| COGN3 | Cogna ON | 5,00 | 6,61% |
| PRIO3 | PetroRio ON | 53,45 | 6,54% |
Na outra ponta, ações de varejo online, como Magazine Luiza ON e Via Varejo ON, voltaram a ficar entre as maiores quedas. Papéis Localiza ON, que somam alta de 40%, também recuaram fortemente.
Ações de Raia Drogasil e Fleury também terminaram o dia entre as maiores baixas do Ibovespa, o que pode ser explicado por um movimento de "rotation trade".
"Vejo mais como um movimento de rotação setorial. Foram os ativos que se recuperaram de forma mais rápida e agora sofrem uma alteração do fluxo de capital", diz Igor Cavaca, analista da Warren.
Veja as principais quedas:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| TOTS3 | Totvs ON | 25,76 | -3,70% |
| VVAR3 | Via Varejo ON | 17,15 | -3,38% |
| RADL3 | Raia Drogasil ON | 24,98 | -3,37% |
| FLRY3 | Fleury ON | 25,82 | -2,79% |
| RENT3 | Localiza ON | 65,45 | -2,63% |
Dólar e juros tombam
O dólar aproveitou o cenário de risk-on para manter a trajetória de queda vista em novembro e caiu 2,2%, fechando cotado a R$ 5,2278, puxado pelo fluxo estrangeiro em ingresso nos mercados locais motivado pelo cenário exterior favorável com vacina e recuperação chinesa.
A moeda fechou no menor patamar de fechamento frente ao real desde 31 de julho, quando encerrou cotada a R$ 5,2170, e também apresentou queda frente aos pares emergentes do real, como rublo russo, rand sul-africano e peso mexicano.
O Dollar Index (DXY) apontou a fraqueza do dólar frente a moedas fortes como euro, libra e iene, em um dia de ampla tomada de risco nos mercados financeiros globais no qual os agentes financeiros aproveitam para se desfazer de ativos considerados "porto seguro", como é o caso da divisa americana.
O DXY intensificou a queda durante a tarde e aponta recuo de 0,7%, para 91,2, no menor nível visto desde abril de 2018.
A possibilidade de que um acordo por um pacote de estímulos fiscais enfim saia na maior economia do mundo explica a queda da moeda. Hoje, um grupo de senadores democratas e republicanos propuseram um plano de US$ 910 bilhões, a fim de encerrar o impasse existente na política americana que trava o andamento do socorro econômico.
A proposta ocorre em um contexto de desaceleração da atividade econômica dos Estados Unidos — e, nesse sentido, mais apoio fiscal significaria mais recursos para levantar uma economia deprimida.
No entanto, não há sinais de adesão nem da Casa Branca nem de líderes do Congresso do país.
Enquanto isso, os juros futuros locais ao longo de toda a curva reagiram ao ambiente mais propício para a tomada de risco em forte queda na sessão de hoje.
O movimento de descompressão das taxas foi intenso e, no miolo da curva, em taxas de contratos para janeiro/2022 e janeiro/2023, por exemplo, chegou a ficar entre 20 e 25 pontos-base de queda (0,2 a 0,25 ponto percentual).
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No fim, taxas de contratos para esses prazos fecharam tombando entre 0,18 e 0,2 ponto.
A ponta longa da curva, que monitora a situação fiscal do país mais de perto, teve queda ainda mais forte, refletindo o sinal de Alcolumbre de votar a LDO dentro de 15 dias, além de apreciar 22 vetos de Bolsonaro — como, por exemplo, ao marco do saneamento básico e a regras dos programas emergenciais criados em meio à pandemia.
O fato de o presidente ter sinalizado que o auxílio emergencial se encerra no fim do ano também traz alívio tanto ao mercado de juros quanto o de câmbio.
"Querem perpetuar benefícios. Ninguém vive dessa forma, é caminho para insucesso", disse o presidente, em visita às obras da Ponte da Integração Brasil-Paraguai.
De outro lado, a agenda econômica de reformas estruturantes — como a tributária e a administrativa — ainda está paralisada no Congresso, apesar de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ter afirmado ontem que "temos votos suficientes" para aprovar a reforma tributária.
Do ponto de vista macroeconômico, temos novidade sobre inflação. As bandeiras tarifárias vermelhas na conta de luz serão retomadas, o que deve pressionar ainda mais o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de dezembro, mas aliviar a inflação de 2021.
Essa pressão menor nos preços do ano que vem diminui a percepção por parte do mercado de que o Banco Central terá de subir juros no ano que vem, o que aliviou a curva de taxas futuras hoje, disse Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
Com a próxima decisão do Copom se aproximando, os investidores averiguarão com lupa a resposta do BC sobre a alta dos preços, no comunicado da reunião.
Além disso, o Tesouro Nacional realizou hoje leilão de NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional Série B), título público que tem a rentabilidade atrelada à inflação. Foram vendidos 8 milhões desses títulos, a oferta integral do lote.
Confira as taxas dos principais vencimentos:
- Janeiro/2021: de 1,928% para 1,920%
- Janeiro/2022: de 3,31% para 3,13%
- Janeiro/2023: de 5,01% para 4,81%
- Janeiro/2025: de 6,78% para 6,57%
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