Filtro solar e galocha: de tudo um pouco na carteira do investidor prevenido
Em uma quarta-feira nem tão ociosa, um problema que ninguém nem sabia existir veio e tirou mais de R$ 160 milhões de valor de mercado de um fundo imobiliário – uma perda de 13,6% em dois dias.

Eu gosto muito do Baz Luhrmann.
Qualquer diretor que consiga modernizar Shakespeare sem mudar os diálogos e, de quebra, emplacar uma trilha com Garbage, Cardigans e Radiohead merece respeito. Além disso, o cara conseguiu fazer um musical usando Nirvana, Elton John, Queen e até o Kiss no meio da bagunça – ninguém me tira da cabeça que “Chicago” só levou o Oscar de 1999 para corrigir a injustiça com “Moulin Rouge!” em 98.
É verdade que ele fez “Australia” que, na falta de um termo melhor, é uma merda, mas todo mundo tem um “Jackie Brown” pra chamar de seu.
Além de uns filmes coloridos, Luhrmann gravou um vídeo bacaninha que girou o mundo no finzinho dos anos 90. Com “Everybody’s Free” tocando ao fundo, que também faz parte da trilha do Romeo + Juliet do Luhrmann, ele fez uma colagem de imagens para uma coluna do Chicago Tribune de 1997. O texto emula um discurso de formatura e é uma série de conselhos para que jovens aproveitem melhor a vida – dentre eles, o reforço para que usem filtro solar – dá uma olhada na versão legendada abaixo.
https://www.youtube.com/watch?v=cdnqbFw8IiY
Uns anos depois, o nosso querido Pedro Bial traduziu e regravou o texto e deixou tudo muito brega, com aquele ar de BBB. Brasileiro tem essa mania de estragar as coisas boas da vida, primeiro o Orkut, depois o texto do filtro solar e tá impossível brincar no Twitter sem que algum PhD apareça pra dar pitacos.
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De qualquer forma, toda vez que eu revejo o vídeo do filtro solar, me pego concordando com algumas partes específicas, a depender do meu momento e humor: “se esforce para conhecer seus pais, você nunca saberá quando os perderá para sempre” e “seja gentil com seus joelhos” fazem bem mais sentido hoje do que nos meus 18 anos.
Uma das passagens, porém, bateu forte na primeira vez que ouvi e me acompanha até hoje em praticamente tudo o que eu faço: “os verdadeiros problemas na sua vida geralmente são coisas que nunca nem passaram pela sua cabeça; do tipo que te pegam no contrapé às 4 da tarde de uma terça-feira ociosa”.
Isso é muito verdade. Hoje, ontem e sempre!
No dia 07 de agosto, pouco depois do fechamento do mercado, recebo na minha caixa de entrada um fato relevante do ABCP11, fundo imobiliário que tem 98% do Grand Plaza Shopping, um baita shopping em Santo André.
Em linhas gerais, a CVM está pedindo que a diretoria refaça as demonstrações financeiras do fundo dos últimos dois anos. De acordo com o órgão regulador, a estrutura do ABCP11 fere o art. 2º da Lei nº 9.779/99: “Sujeita-se à tributação aplicável às pessoas jurídicas, o fundo de investimento imobiliário [...] que aplicar recursos em empreendimento imobiliário que tenha como incorporador, construtor ou sócio, quotista que possua, isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais de vinte e cinco por cento das quotas do fundo”.
Traduzindo para o português: se um fundo imobiliário tiver um cotista com mais de 25% do total das cotas que seja incorporador, construtor ou sócio de um imóvel investido pelo fundo, ele deve ser tributado como qualquer outra empresa (pagar PIS, Cofins, IR e CSLL).
O fundo tem como cotista relevante (são mais de 60% das cotas) a Cyrela Commercial Properties (CCP), que foi responsável pela transformação de um antigo galpão em Santo André no que é hoje o único investimento do ABCP11. Pelos argumentos da CVM, a CCP cai em algum dos três conceitos citados pela Lei 9.799 (incorporadora, construtora ou sócia).
Cabe bastante discussão e o resultado dessa história além de incerto, deve demorar uns bons anos para ser conhecido. Por mais que se tente argumentar em uma ou outra direção, vai depender da cabeça dos juízes que avaliarem a matéria e, como diz o ditado, fralda de neném e cabeça de juiz...
Uma paulada inesperada
Mais do que tentar avaliar cenários, resultados e oportunidades, o que fica aqui é a mudança que ocorreu de uma hora pra outra, sem aviso algum. O risco de enquadramento dos fundos listados não estava no radar de ninguém na indústria. Agora, faz parte da rotina de qualquer analista que se preze.
O ABCP11 está por aí há mais de duas décadas, já passou por auditorias, fiscalizações, avaliações, análises e todo tipo de escrutínio. Um belo dia, a CVM vem, solta uma notificação e uma história que era de segurança, estabilidade e resiliência virou um case binário sujeito a decisões, liminares, voltas e reviravoltas.
Em uma quarta-feira nem tão ociosa, um problema que ninguém nem sabia existir veio e tirou mais de R$ 160 milhões de valor de mercado do fundo – 13,6% em dois dias.
Isso serve para vários outros eventos/ativos – quem esperava pelo rompimento da barragem de Mariana e, alguns depois, de Brumadinho? Ou os problemas geológicos que, supostamente, a mina de sal da Braskem causou em Alagoas?
Imagine a surpresa de investidores da Volkswagen quando se depararam com as notícias de que a empresa fraudou testes de emissão de poluentes? Poucos dias depois, as ações acumularam queda de quase 40%.
Os exemplos são inúmeros!
Por mais detalhada que seja a análise, por mais diligente que seja o investidor, você nunca vai cobrir todos os riscos possíveis, porque eles são quase infinitos e, em grande parte desconhecidos. Melhor do que tentar prever o futuro é se preparar para qualquer que seja – diversificar é sempre mais eficiente do que tentar obter conforto em um único caso.
Como você se prepara para uma viagem se não sabe se vai chover, nevar ou fazer sol? É fácil, você leva galocha, guarda-chuvas, biquíni, bermuda e óculos escuro. E, claro, nunca sai de casa sem antes passar protetor solar.
Veja abaixo o vídeo sobre como investir em fundos imobiliários
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