Investidor estrangeiro tem visão errada sobre Bolsonaro e não vai voltar ao Brasil, diz Rogério Xavier, da SPX
Lendário gestor responsável por administrar R$ 40 bilhões está comprado em dólar e se mostrou cético tanto com o crescimento do PIB como com o avanço da agenda do governo, mas espera juro baixo por um longo período

Que horas o investidor estrangeiro volta para o Brasil? Para o sócio-fundador da SPX Capital, Rogério Xavier, nem adianta esperar porque não vai entrar dinheiro de fora tão cedo para investimentos de portfólio, como a bolsa.
O lendário gestor responsável por administrar R$ 40 bilhões participou nesta terça-feira de um evento promovido pela XP Investimentos. E a palavra que mais repetiu durante o painel foi "cético".
O ceticismo sobre a volta do investidor estrangeiro é uma das razões que sustentam a posição comprada da SPX em dólar contra o real. A aposta vem se mostrando certeira, já que a moeda norte-americana alcançou a máxima histórica de R$ 4,205 nesta segunda-feira.
Parte do mercado tinha uma visão contrária à do gestor e esperava a volta do estrangeiro à bolsa brasileira depois da aprovação da reforma da Previdência, o que faria pressão para a queda do dólar. Esse movimento, contudo, ainda não aconteceu.
Para Xavier, não aconteceu nem vai acontecer porque os estrangeiros têm hoje uma visão errada sobre o Brasil, e comparam a nossa situação política à de países como Turquia e Hungria.
"O estrangeiro tem uma percepção equivocada sobre o governo Bolsonaro, da qual discordo veementemente, mas o fato é que as pessoas veem assim", afirmou.
Cético com cenário global
O gestor, que hoje vive em Londres, também se mostrou preocupado com o que chamou de "sentimento de recessão" da economia global, ainda que os números não venham a mostrar uma retração da atividade.
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Esse sentimento, que também ajuda a afastar os estrangeiros do Brasil, ainda é potencializado pela tensão política nos países vizinhos, como Chile e Bolívia, junto com o fracasso do governo liberal de Mauricio Macri na Argentina, de acordo com o gestor da SPX.
Ele ainda vê uma chance de desestabilização política e econômica global, com a possibilidade de a onda de protestos nos países sul-americanos se expandir para a Europa, que está perto de enfrentar mais uma recessão.
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Cético com PIB
Xavier também não compartilha a visão mais otimista de parte do mercado com a retomada do crescimento do PIB brasileiro. Ele até espera algum alento e uma expansão da ordem de 2% da economia no ano que vem graças a eventos como a liberação do FGTS e a redução dos juros. "Mas não acredito que esse seja um movimento que se perpetue no tempo", afirmou.
Para ele, o ajuste fiscal implementado pelo governo, apesar de necessário, fará com que a contribuição do setor público para o PIB fique perto de zero.
"Isso significa que a gente depende efetivamente do setor privado para o PIB crescer, e com uma contribuição ainda maior para ter crescimento muito acima de 1%", disse.
Cético com agendas do governo
O gestor da SPX afirmou ainda que não vê nenhuma das medidas de reformulação do Estado encaminhadas pelo governo avançarem no Congresso.
Para Xavier, o governo faz o papel dele ao promover a agenda, mas disse que a crença na aprovação das medidas pelo Congresso "beira a ingenuidade".
"Os políticos querem ter o dinheiro, mas não querem a obrigação", disse, ao comentar o plano do novo pacto federativo enviado pela equipe do ministro Paulo Guedes.
Apesar de todo o ceticismo (e um pouco em consequência dele), Xavier tem uma visão até que positiva para os ativos brasileiros. Ele considera, por exemplo, que a bolsa pode ter um bom desempenho mesmo com o PIB fraco, a exemplo do que aconteceu nos anos anteriores.
Banco Central errou
O gestor da SPX também espera que a taxa básica de juros permaneça em níveis baixos por um período mais longo do que o mercado espera. Graças ao que ele chamou de "deficiência de capacidade de crescimento", o país não deve conviver com pressões inflacionárias nos próximos anos.
Ele considera, no entanto, um "chutômetro" tentar acertar qual será o piso dos juros após o atual ciclo de cortes. "Quem tentou fazer isso errou barbaramente."
Por falar em erro, Xavier considera que o Banco Central se equivocou na condução da política monetária ao não dar início antes ao atual ciclo de redução da Selic. Para ele, Roberto Campos Neto parece ter sofrido da "síndrome de presidente do BC que acaba de assumir o cargo e tem que mostrar que é 'hawk' [falcão, mais duro no combate à inflação]".
Mas vale lembrar que Xavier também comete erros nas suas análises e previsões. No ano passado, ele chegou a falar em tsunami vindo em direção ao país com a piora no cenário externo nos últimos meses de 2018, o que acabou não se concretizando.
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