Crianças, não briguem – é o investidor quem deve ganhar
Na tentativa de eliminar concorrentes, pode-se até obter vitória, às custas, porém, do investidor. É ele quem acaba orientado por interesses sub-reptícios de segunda ordem, por vezes não muito claros [...]
“Eu não faço nada, não. Mas sou muito bom no que faço”, diz João Estrela (Selton Mello), dando aquela xavecada básica na Sofia (Cleo Pires), em “Meu Nome Não É Johnny”. Gosto do filme, do Selton Mello e, óbvio, da Cleo Pires.
Às vezes, querendo falar para todo mundo, corre-se o risco de não falar para ninguém. Para erros e fracassos, sou um grande sucesso – tenho o maior hit rate da indústria. Paciência. Lá vamos nós sermos vividos pelas ideias que nos acometem a cada manhã, no ritmo e na frequência determinados por elas. Assim mesmo: são as ideias o agente da frase. Somos vividos por poderes que fingimos entender, resumiu Wystan Auden.
O texto de hoje possui três partes. A primeira se volta mais àqueles que acompanham o noticiário financeiro de perto – o leitor mais leigo e apressado pode pular essa parte. A subsequente direciona-se aos menos assíduos. E a última retoma um pouco as conversas aqui tratadas na semana passada, tentando esclarecer alguns pontos em relação a agentes autônomos – antecipo uma das conclusões: os AAIs, embora não consigam ver agora em meio ao tiroteio, serão os grandes beneficiados dessa história toda.
Bora!
Parte I - Vitória de Pirro: quem ganha nessa história?
Sendo sincero com você, nunca fui dos maiores fãs da gestão de José Zitelmann à frente dos fundos de renda variável do BTG. Sempre respeitei, claro. Não o conheço pessoalmente, mas sempre acompanhei o desempenho do famoso Absoluto, o fundo de ações carro-chefe por lá.
Sei de todo renome e reconheço o bom histórico – aliás, não há como negar isso; seria brigar contra a realidade. Também registro que pessoas mais próximas ao sujeito já me fizeram elogios rasgados a seu respeito. A própria Luciana Seabra já falou muito bem dele pra mim. E se a Lu falou algo sobre o universo dos melhores fundos, eu valorizo demais – é ela quem realmente entende do riscado.
Leia Também
Não é, porém, o estilo de gestão que me atrai. Para comprar Localiza, Lojas Renner, Ultrapar (ao menos nos velhos tempos), Equatorial, Itaú, Iguatemi, B3, Hypera e coisas parecidas, a mamãe também poderia escolher bem; seria ótima gestora de ações. Sem ofensas, mãe.
Entendo os méritos desse tipo de gestão, de verdade. Só, na minha opinião, não parece justificar pagar 2 com 20. Para comprar coisas um tanto óbvias, eu mesmo faço. Não quero convencer o eventual leitor discordante a mudar de ideia. Só também não preciso ser convencido da opinião contrária. Envios de retornos históricos e Sharpe Ratios não vão alterar minha cabeça. Agradeço, mas dispenso o esforço. Concordamos em discordar e está tudo bem. Ciclos em que o quality (ações de qualidade) liderou os movimentos vão beneficiar os fundos… quality. De novo, é mais beta do que alfa.
Mas não é este o ponto central aqui. Estou mais interessado nas decisões de alocação a partir da saída de Zitelmann do BTG, com gente importante da indústria sugerindo “zerar a posição” nos fundos anteriormente geridos pelo executivo. Não é uma questão aqui sobre a qualidade ou a falta dela do fundo, mas, sim, das motivações por trás da mudança intempestiva de opinião.
Meu receio é de que esse alocador esteja misturando um pouco as coisas, passando brigas pessoais, disputas concorrenciais e outras avenças à frente do real interesse do investidor. Note que esse mesmo alocador não mexera em nada de suas sugestões de posicionamento quando da saída de James de Oliveira, com posição muito mais relevante do que de Zitelmann no BTG, em 2016 – enquanto o primeiro era head de renda fixa, crédito e multimercados, o último era “apenas” head de equities.
Na tentativa de eliminar concorrentes, pode-se até obter vitória, às custas, porém, do investidor. É ele quem acaba orientado por interesses sub-reptícios de segunda ordem, por vezes não muito claros – indicações de investimento feitas para atender uma agenda oculta não costumam dar bons frutos.
Feito à luz do dia e com recorrência, esse tipo de prática vai acabar sendo percebido pelo próprio cliente e investidor. E se você não tem foco exclusivo no cliente, importando-se mais com a concorrência do que com aquele que efetivamente sustenta sua própria companhia, o bumerangue, cedo ou tarde, acaba se voltando contra você.
Tenho outro ponto rápido a falar sobre o escopo e as fofocas do mundo de fundos. Talvez o eventual leitor mais assíduo tenha lido por aí matérias negativas sobre a gestora SPX após a saída de dois sócios. Como eu havia indicado aqui o fundo Nimitz, ainda aberto para aplicações na Ágora Corretora, recebi e-mails questionando sobre manter ou não o dinheiro lá aplicado. A tal matéria só pode ter sido escrita por alguém que: i) não conhece a SPX; ii) também carrega uma agenda “diferente” debaixo do braço; ou iii) sem querer digitou errado “SPX” enquanto queria, na verdade, falar de outra gestora. A hipótese iii me parece a mais provável.
Apesar de menos provável, a hipótese de que certos jornalistas (uma minoria, felizmente) escrevem matérias apenas para gerar cliques ou com interesses ainda mais escusos me desperta bastante medo. O objetivo deveria ser apenas o de informar e orientar o investidor.
Se você quer ler sobre a SPX e não sobre a outra gestora marciana tratada por aí, sugiro a leitura da excelente matéria da Luciana Seabra para o Seu Dinheiro.
Parte II - Trilemas impossíveis ou (triângulos quase amorosos)
A Economia está cheia dos chamados “trilemas impossíveis”, a incapacidade de três coisas, por vezes desejadas, conviverem simultaneamente na mesma intensidade. O caso mais importante talvez seja da combinação entre eficiência, equidade e liberdade – em tese, valores perseguidos por qualquer sociedade. O problema é que quase nunca conseguimos ter as três coisas ao mesmo tempo.
Também é bastante famoso o tal “trilema mundelliano”, a ideia formalizada por Robert Mundell de que um país nunca conseguirá ter de maneira simultânea conta de capital aberto, câmbio fixo e controle da taxa de juros – precisará abrir mão de uma delas.
Nas Finanças, também encontramos certos triângulos pouco amorosos. Todos nós gostaríamos de ter ao mesmo tempo altos retornos potenciais, baixo risco e muita liquidez. Infelizmente, porém, não é possível. O ativo com essas três características não existe.
Os mercados são informacionalmente muito eficientes e, se percebessem essa superoportunidade, logo sairiam comprando aquilo, comprimindo na velocidade da luz os retornos potenciais. Daí vem a ideia de que não há almoço grátis no mercado ou, numa linguagem um pouco mais técnica, não há oportunidades de arbitragem.
Por que estou falando isso agora?
Pelo seguinte: com Selic de 6,5 por cento ao ano de maneira sustentada e Ibovespa a 100 mil pontos, cada vez mais precisaremos correr riscos atrás de bons retornos potenciais.
A verdade é que as pessoas, ou ao menos parte delas, já perceberam isso. Na minha experiência aqui na empresa e também por conversas com outros players relevantes, percebo que a tal onda de “desbancarização” e a migração em direção a ativos financeiros mais sofisticados estão se intensificando nos últimos meses – entendo que deverá ser assim por um bom tempo ainda.
Daí ocorre algo sensível: haverá muitos novos entrantes no mercado, muitos deles sem o devido conhecimento. Eles são muito bem-vindos, claro, mas precisam ser orientados adequadamente.
Mas não se trata de propaganda aqui. Meu objetivo em trazer o tema à superfície é apenas de mostrar para o investidor onde ele está se metendo. O sujeito não pode se animar fortemente com os ganhos (grandes) das carteiras em janeiro e, ao mesmo tempo, desesperar-se com as perdas, marcadas a mercado, do início de fevereiro – e olha que as perdas foram muito modestas. Se você quer ter o alto retorno de janeiro, precisará incorrer no risco de encontrar um início de fevereiro pela frente.
Eu adoraria lhe oferecer 30 por cento ao ano, com liquidez diária, sem volatilidade e sem risco (faço questão de separar as duas últimas coisas, porque elas são bem diferentes, apesar do equivocado tratamento igualitário a elas conferindo pela maior parte do mercado). Infelizmente, porém, eu não consigo. Ninguém consegue. Por favor, nunca se esqueça disso.
Como alertou Warren Buffett, se você não é capaz de tolerar ver sua ação momentaneamente caindo 50 por cento, você não deve estar na Bolsa. Está tudo bem, sem ressentimentos. É apenas uma questão de estilo e perfil.
Parte III - A verdade vos libertará
Os quatro leitores mais assíduos talvez se lembrem de minhas críticas, na semana passada, à estrutura de incentivos conferida à relação entre corretoras, agentes autônomos e seus clientes. O velho ditado resume a parada: quem parte e reparte fica com a melhor parte. Quem vende e aconselha (ou sugestiona, pelo menos) está sujeito ao conflito de interesses.
Não deveria ser segredo pra ninguém. É intuitivo e está na literatura. Ainda assim, parte do pessoal fica chateada. Ninguém quer ter expostas as próprias mazelas. Afinal, a crítica que mais inflama o criticado é justamente aquela que expõe os problemas de maneira incisiva e cirúrgica.
O que eu gostaria humildemente de dizer aos os agentes autônomos:
1- Não se trata de colocar todos na mesma cesta. A maior parte de vocês é competente, séria, dedicada e honesta. Mas isso não é uma abordagem pessoal. O problema é a estrutura de incentivo. E ela pega todo mundo. O modelo, em sua essência, é conflitado. Essa – e só essa – é minha crítica. Venda e sugestionamento precisam estar separados, em qualquer empresa.
2 - A suposta “briga” vai ser boa para o AA no final. Ao jogar luz sobre o problema e enfrentar competição mais justa, a corretora vai ser obrigada a fazer concessões (já começou a fazer, inclusive). Aliás, boa parte das críticas era justamente para que a corretora divida mais com o agente autônomo – a tal custódia disfarçada ou taxa de corretagem adicional colocada ao final das notas de corretagem que tanto critiquei era um exemplo claro disso. A corretora que cobra essa taxa de “outros" não a divide com o agente autônomo – foi um jeito de dar um drible e se apropriar de mais margem.
3 - A maior exigência por parte do cliente bem-informado vai diferenciar o bom AA do ruim. O bom vai dar transparência do que faz. O ruim não vai poder mostrar as esfoladas no cliente. Se você faz parte dos bons, estará em vantagem sobre os demais e atrairá mais clientes. A verdade é instrumento para catalisar a meritocracia. A Transparência Radical de Ray Dalio, por exemplo, se liga umbilicalmente à meritocracia de ideias. Não dá para ter a segunda sem a primeira.
Epílogo: as coisas que interessam menos
Mercados iniciam a quarta-feira em tom predominantemente positivo, enquanto digerem tom mais otimista adotado por Donald Trump nas negociações comerciais com a China e um monte de especulações sobre a reforma da Previdência por aqui, incluindo idade mínima de 57 anos para mulheres e 62 anos para homens. Alta hospitalar do presidente Jair Bolsonaro é aguardada, principalmente porque pode agilizar noticiário sobre reformas.
Agenda doméstica destaca vendas ao varejo e fluxo cambial semanal. Nos EUA, saem estoques de petróleo, inflação ao consumidor e resultado fiscal.
Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4 por cento, juros futuros caem e dólar sobe.
UMA PARCERIA DE TRILHÕES
Ações da Coinbase disparam 22% após corretora firmar parceria para oferecer criptomoedas para maior gestora de ativos do mundo
4 de agosto de 2022 - 12:56MARKET MAKERS
Bitcoin deixa de ser ‘ilha’ e passa a se comportar como mercado tradicional — mas você não deve tratar criptomoedas como ações de tecnologia
3 de agosto de 2022 - 15:47SÓ O AMOR…
Entenda o que são as ‘pontes’ que ligam as blockchains das criptomoedas; elas já perderam US$ 2 bilhões em ataques hackers
3 de agosto de 2022 - 14:35DESVIANDO DO FOGO
Mesmo em dia de hack milionário, bitcoin (BTC) e criptomoedas sobem hoje; depois de ponte do ethereum (ETH), foi a vez da solana (SOL)
3 de agosto de 2022 - 11:36CRIPTO-GUERRA
Em 6 meses de guerra, doações em criptomoedas para Rússia somam US$ 2,2 milhões — mas dinheiro vai para grupos paramilitares; entenda
2 de agosto de 2022 - 15:48EXCLUSIVO
Bitcoin (BTC) na origem: Conheça o primeiro fundo que investe em mineração da principal criptomoeda do mercado
2 de agosto de 2022 - 11:41PONTES DESTRUTÍVEIS
Mais um roubo em criptomoedas: ponte do ethereum (ETH) perde US$ 190 milhões em ataque; porque hacks estão ficando mais frequentes?
2 de agosto de 2022 - 11:39DE OLHO NA BOLSA
Esquenta dos mercados: Bolsas preparam-se para brilhar no último pregão de julho; Ibovespa repercute hoje dados da Vale e Petrobras
29 de julho de 2022 - 8:03ESQUENTA DOS MERCADOS
Somente uma catástrofe desvia o Ibovespa de acumular alta na semana; veja o que pode atrapalhar essa perspectiva
22 de julho de 2022 - 7:24Esquenta dos mercados
Bolsas amanhecem sob pressão do BCE e da renúncia de Draghi na Itália; no Ibovespa, investidores monitoram Petrobras e Vale
21 de julho de 2022 - 7:21DE OLHO NA BOLSA
Esquenta dos mercados: Dirigente do Fed traz alívio aos mercados e bolsas sobem com expectativa por balanços de bancos
15 de julho de 2022 - 7:06DE OLHO NA BOLSA
Esquenta dos mercados: Bolsas internacionais tentam recuperação após corte de juros na China; Ibovespa acompanha reunião de Bolsonaro e Elon Musk
20 de maio de 2022 - 8:11DESTAQUE NEGATIVO DO DIA
Hapvida (HAPV3) decepciona e tomba 17% hoje, mas analistas creem que o pior já passou — e que as ações podem subir mais de 100%
17 de maio de 2022 - 13:29SEU DIA EM CRIPTO
Oscilando nos US$ 30 mil, bitcoin (BTC) mira novos patamares de preço após criar suporte; momento é positivo para comprar criptomoedas
17 de maio de 2022 - 11:49SEU DIA EM CRIPTO
Bitcoin (BTC) permanece abaixo dos US$ 30 mil e mercado de criptomoedas está em estado de pânico com stablecoins; entenda
16 de maio de 2022 - 11:16SEU DIA EM CRIPTO
Terra (LUNA) não acompanha recuperação do bitcoin (BTC) neste domingo; criptomoedas tentam começar semana com pé direito
15 de maio de 2022 - 10:20MERCADOS HOJE
Bolsas no exterior operam em alta com balanços melhores que o esperado; feriado no Brasil mantém mercados fechados
21 de abril de 2022 - 11:54BITCOIN (BTC) HOJE
Em recuperação, bitcoin (BTC) sobe mais de 4% hoje, mas Solana (SOL) é destaque entre criptomoedas e dispara 17% após anúncio do Solana Pay; entenda
1 de fevereiro de 2022 - 11:58BITCOIN (BTC) HOJE
Bitcoin (BTC) cai após um final de semana de recuperação e criptomoedas esperam ‘lei Biden’ esta semana, mas ethereum (ETH) se aproxima de ponto crítico
31 de janeiro de 2022 - 11:46semana em cripto