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Os temores em relação à recessão econômica global mexeram com a confiança dos mercados, derrubando o Ibovespa de volta aos 99 mil pontos
O barco das bolsas globais estava navegando a todo vapor, cortando os mares sem enfrentar maiores obstáculos. É verdade que, vez ou outra, uma onda mais forte fazia a embarcação chacoalhar, mas a viagem era relativamente tranquila — tanto é que o Ibovespa e os índices acionários americanos vinham se segurando perto das máximas.
Só que, como bem lembram os marujos de longa data, as águas do mercado financeiro são traiçoeiras. Os tripulantes mais experientes sabem que uma criatura marítima de vários tentáculos reside no fundo do oceano: a recessão econômica. E, de tempos em tempos, esse ser monstruoso vai à superfície.
Nesta segunda-feira (12), as bolsas sentiram o primeiro tranco: um braço cheio de ventosas envolveu no casco do barco, freando a navegação. Os marinheiros até tentaram manobrar e despistar o monstro marinho, mas foi em vão: na quarta-feira (14), a criatura atacou com força, destruindo mastros e rasgando velas.
Para se ter uma dimensão do estrago, basta ver o desempenho do Ibovespa na semana: o principal índice da bolsa brasileira até fechou o pregão desta sexta-feira em alta de 0,76%, aos 99.805,78 pontos, mas acumulou perda de 4,03% desde segunda-feira. Foi o pior saldo semanal desde o meio de maio.
As bolsas americanas também fecharam a semana no vermelho, embora com baixas menos intensas que as do Ibovespa. Afinal, o monstro da recessão é capaz de trazer pânico até ao mais veterano dos navegadores.
É verdade que os marujos já falavam há tempos que essa criatura poderia estar perto de despertar: a economia da China dava sinais cada vez mais nítidos de desaceleração e a atividade na Europa vem fraca há tempos. Só que, com os canhões da guerra comercial fazendo um barulho cada vez mais alto, o risco de enfurecer a besta foi aumentando.
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E, de fato, um ataque fulminante aconteceu na quarta-feira: dados mais fracos que o esperado na China e na Alemanha — o PIB alemão caiu 0,1% no segundo trimestre — representaram um duro golpe à confiança da tripulação, que sentiu o barco tremer.
Em meio à correria no convés, um segundo tentáculo desferiu mais uma ofensiva: a inversão da curva de juros nos Estados Unidos, um sinal de que os mercados não estão confiantes quanto às perspectivas para a economia americana — em outras palavras, um temor de que o país poderá entrar em recessão.
Tudo isso resultou em perdas expressivas para as bolsas globais: na quarta-feira, o Ibovespa caiu 2,94%, o Dow Jones recuou 3,05%, o S&P 500 teve baixa de 2,93% e o Nasdaq fechou em queda de 3,02%.
É verdade que, ao longo da semana, sinais mais amenos ajudaram a melhorar um pouco o sentimento dos mercados. No front da guerra comercial, os Estados Unidos recuaram um pouco nas tarifas às importações chinesas, determinando que alguns produtos eletrônicos e de vestuário comecem a ser sobretaxados apenas em dezembro.
No entanto, essa sinalização não foi suficiente para deixar a tripulação tranquila. Por mais que, hoje, a leitura seja a de que os diálogos entre Washington e Pequim estejam caminhando, também há a percepção de que as disputas entre os países estão longe de uma resolução — e que parte do estrago na economia global já esteja consumado.
Como se esses dois braços não fossem suficientes, um terceiro tentáculo atingiu o barco das bolsas. E esse ataque acertou em ceio a ala dos ativos emergentes — incluindo o Ibovespa.
Na segunda-feira, os mercados amanheceram com a notícia de que as prévias das eleições presidenciais na Argentina indicavam uma ampla vantagem à chapa de oposição, encabeçada por Alberto Fernández e com Cristina Kirchner como vice. Mais precisamente, 15 pontos de diferença em relação ao atual presidente, Mauricio Macri.
A novidade pegou os agentes financeiros de surpresa, uma vez que as pesquisas de intenção de voto mostravam que a disputa estava equilibrada. E, dado o passado populista de Kirchner — e a situação financeira delicada da Argentina —, os mercados reagiram de maneira amplamente negativa ao resultado das urnas.
Afinal, a diretriz econômica de uma provável gestão Fernández — as eleições de fato ocorrem apenas em outubro — ainda é nebulosa. Assim, um movimento de aversão ao risco foi disparado, e esse fluxo atingiu os ativos emergentes como um todo.
Nesse sentido, os mercados brasileiros foram afetados com maior intensidade, considerando ainda a proximidade econômica do país com os portenhos. Na segunda-feira, o Merval, principal índice da bolsa argentina, recuou mais de 35% — no Brasil, o Ibovespa teve baixa de 2%.
E a nau de câmbio, como ficou com ressurgimento do monstro da recessão?
Bom, o dólar à vista teve alta de 0,33% nesta sexta-feira, a R$ 4,0031, acumulando alta de 1,39% na semana. O contexto mais defensivo e de maior aversão ao risco no exterior foi decisivo para ditar os rumos da moeda americana, mas outros fatores contribuíram para trazer algum alívio.
Em linhas gerais, os agentes financeiros adotam uma estratégia bastante simples no mercado de câmbio ao se depararem com um cenário de incertezas: na dúvida, é melhor vender os ativos mais arriscados — como as moedas de países emergentes — e correr para a segurança do dólar.
Assim, divisas como o peso mexicano, o rublo russo, o rand sul-africano e o próprio real perderam terreno em relação ao dólar, sofrendo as consequências do ataque da recessão. Esse movimento só não foi mais intenso por aqui porque o Banco Central fez um anúncio que acalmou os agentes financeiros.
No meio da semana, o BC comunicou que voltará a vender dólares no mercado à vista pela primeira vez em mais de 10 anos. Serão ofertados US$ 550 milhões por dia entre 21 e 29 de agosto, em conjunto com diversas outras operações de swaps.
Mesmo sem começar a fazer as vendas imediatamente, o BC conseguiu acalmar o dólar à vista, que chegou a bater os R$ 4,03 na quarta-feira. Apesar disso, a moeda americana ainda fechou a semana acima dos R$ 4,00.
Forte alta na sexta-feira não evitou recuo no acumulado da semana, em meio à guerra no Irã, à pressão do petróleo e à reprecificação dos juros nos Estados Unidos e no Brasil
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