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Se você vai sair completamente do negócio, pouco importa quem está comprando. Venda pelo maior preço e vá passar o resto dos dias tomando drinks coloridos na praia. Mas, se sua intenção é continuar com participação relevante na empresa, é sempre bom saber quem vai se sentar com você à mesa
Não é muita gente que sabe, mas o hoje superministro Paulo Guedes teve um papel importante na consolidação do setor de educação brasileiro. Guedão fundou a Bozano Investimentos (que mudou de nome para Crescera), uma gestora de Private Equity que tem no portfólio nomes como Abril Educação, Ânima Educação, Medcel e Affero Lab...
Além da excelente capacidade de gestão e avaliação, o time contava com a marca “Paulo Guedes” – reza a lenda que empresários do setor preferiam vender mais barato para os fundos da Bozano: o histórico da empresa era de manter as pessoas chave no negócio e gerar muito valor agregando conhecimento e não simplesmente metendo o dedo na porra toda.
Pode parecer conversinha para boi dormir, mas não faltam exemplos de sócios do mercado financeiro que destruíram grandes empresas – o cara fez MBA em escola boa lá fora, leu uns dois ou três livros do Kotler e acha que pode ensinar varejo para o Abílio Diniz. Tocar negócios na vida real é muito difícil: pergunte para o pessoal mais do que competente da Tarpon como é dura a vida de quem se propõe a vender frango.
Isso tudo passou pela minha cabeça enquanto lia as notícias da guerra entre Magazine Luiza (MGLU3) e Centauro (CNTO3) pela Netshoes – o que começou com uma proposta do Magalu de US$ 2 por ação, chegou a impressionantes US$ 4,10 na última oferta da Centauro.
Por uma dessas coincidências do destino, as notícias de que a Centauro ofereceu US$ 127 milhões para tentar fechar o negócio saíram enquanto eu entrava em uma van justamente para visitar um centro de distribuição da Netshoes
Nos 150 quilômetros de viagem, todos concordamos que era melhor vender mais barato e ter Luiza e Fred Trajano como sócios – a Centauro ainda luta para ganhar relevância no mercado digital, enquanto a compra da Netshoes seria só um movimento para diversificação de produtos e clientes.
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Se você vai sair completamente do negócio (e não tem nenhum apego por seu “filho”), pouco importa quem está comprando. Venda pelo maior preço e vá passar o resto dos dias tomando drinks coloridos na praia. Mas, se sua intenção é continuar com participação relevante na empresa, é sempre bom saber quem vai se sentar com você à mesa.
Curiosamente, o argumento do Conselho da Netshoes para recomendar a proposta da Magalu foi bem mais pragmático: “a água bateu na bunda”. Em documento enviado aos acionistas, o Conselho argumentou que o aceite da proposta da Centauro poderia demorar meses e o caixa da Netshoes não seria suficiente para atravessar o período.
“O que não tem remédio, remediado está”
Tomar decisões com a arma apontada para a cabeça sempre deixa um gosto amargo na boca, mas, no fim das contas, me parece que a Netshoes acabou escrevendo certo por linhas tortas. Continuo achando que os pouco mais de 10% de diferença não justificavam, de fato, a escolha pela Centauro.
E, cá entre nós, quem tinha as ações nem pode reclamar: o papel fechou 2018 cotado a menos de US$ 1,50 – em menos de seis meses, quase 150%, é por cento pra caralho!
Outra empresa que deu o que falar no varejo brasileiro foi a Via Varejo (VVAR3) – depois de meses de papinho e burburinho, as Casas Bahia acabaram voltando para as mãos de seu criador: a família Klein fechou a compra de uma fatia das ações que estava com o Grupo Pão de Açúcar (PCAR4) – R$ 4,75 por ação.
Diferentemente do que houve com a Netshoes, Via Varejo não fechou seu capital e, dada a forma que foi feita, a transação não disparou tag along – os minoritários não vão poder vender pelo mesmo preço que os Klein pagaram. Mesmo assim, as ações subiram bastante depois do anúncio e, hoje, estão cotadas acima dos R$ 5.
A ideia por trás do movimento (acho eu) é que o mercado prefere ter os Klein tocando o negócio: o controlador do Pão de Açúcar (Casino), desde a saída do Abílio, tem derrapado tanto na gestão da operação tanto no trato com os minoritários. É claro que estar no meio de um bull market ajuda: burro carregando mel, até o c* é doce!
De qualquer forma, é um bom exemplo de como o mercado olha para o currículo dos controladores e pode aplicar prêmios ou descontos se gostar ou não da figura que vai tomar conta do negócio.
Quem gosta de cerveja já tem o discurso pronto: se a Ambev comprou uma cervejaria artesanal, vai reduzir custos, colocar mais água, tacar milho e estragar a brincadeira. Há quem diga que já não é mais assim, que a política da Ambev mudou e que agora se preocupam muito mais com qualidade e marca.
Mas não adianta, a fama pegou: “...comprei Appia esses dias de garrafa. Intomável. Acabaram com a Colorado”. Resmungou meu amigo em um grupo de whatsapp.
Outra coisa que é importante olhar são as tais das sinergias: no Power Point do banqueiro, qualquer combinação de negócios gera MUITO valor. Sonae Sierra (SSBR3) e Aliansce (ALSC3) se juntaram e formaram a maior empresa de shoppings do Brasil com promessa de economia de R$ 55 milhões a R$ 70 milhões em custos e SG&A (despesas com vendas, gerais e administrativas).
Me parece um pouco exagerado, já que as duas companhias juntas têm SG&A anual de R$ 111 milhões (números de 2018) e não enxergo muitas economias de escala dada distribuição geográfica do novo portfólio: para shoppings, os custos caem quando se negocia grandes contratos de prestação de serviço em várias unidades – se cada shopping está em um canto e é atendido por uma empresa diferente, não há muito poder de barganha para conseguir descontos.
Mas, de novo, é bull market e todo mundo acredita nos gráficos impecáveis dos bankers.
O resumão disso tudo é que tem muita coisa para olhar quando rola um M&A (fusões e aquisições, da sigla em inglês). Quem está comprando? Por que alguém está vendendo? Como vai ficar a estrutura acionária depois da transação? Anunciaram sinergias? São factíveis?
Mais do que isso, é preciso desconfiar de praticamente todas as informações – invariavelmente, tem um banco de investimentos por trás da história que ganha muito dinheiro mesmo que, depois de um tempo, o negócio se prove um mico gigantesco.
No meio da história, tem pouca gente (se é que tem alguém) olhando para os minoritários. Se você não cuidar dos seus interesses, é pouco provável que alguém o faça. Se for continuar no negócio, tenha certeza de que o cara do outro lado está minimamente alinhado com você. Se não, é melhor vender tudo e procurar um sócio melhor – tem bastante por aí!
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