Confissões: o arrependimento de ter comprado esta ação
As Finanças Comportamentais estão na moda agora. É difícil falar contra elas. Contudo, existe uma sutileza nessa história de “aversão à perda”

Com uma mãe católica fervorosa, uma criação jesuíta e valores judaico-cristãos enraizados, não necessariamente associados à fé religiosa, sempre me interessei pela relação entre arrependimento — uma das bases da doutrina cristã, já que devemos estar sempre nos arrependendo e confessando nossos pecados em prol da limpeza da alma — e investimento.
Como manter-se cristão e investidor proficiente ao mesmo tempo? A Igreja Católica sempre teve lá seus problemas com a questão da usura. Não é esse meu foco de interesse. Quero centrar a atenção na relação entre o arrependimento, o pecado e as finanças. Como você lida com seus erros de investimento, com seus desvios daquilo que deveriam ter sido decisões acertadas? Precisamos nos confessar e sofrer por um determinado pecado, remoendo equívocos e percalços?
Para mim, o investidor encontra a resposta não em Santo Agostinho, que escreveu suas “Confissões” para poder proclamar-se pecador e pedir a misericórdia de Deus. Não há razão para isso. Não há juízes ou censuradores na B3. O caminho para uma trajetória profícua à frente, a despeito dos pecados e prejuízos passados, pode passar por Michel de Montaigne e Jean-Paul Sartre.
Montaigne foi e voltou várias vezes em seus “Ensaios”. Retomou constantemente o trabalho na obra, mas quase nunca optou por apagar alguma coisa. Não era o caso de refazer o passado ou reescrever trechos da obra, mas apenas de acrescentar algo novo. Mantinha-se fiel à proposta estoica do “amor fati”, a aceitação amigável do que vier a nos acontecer, aplicando-a à escrita. Se a ideia lhe ocorreu em algum momento, não deveria ser apagada nem reescrita. Precisaria ser aceita, porque representava também um dos pensamentos e uma das vertentes de Montaigne — ainda que ele possa ter mudado de ideia. Não havia por que se arrepender, passar a limpo o passado e purificar escritos antigos. Por mais que coisas anteriores pudessem não mais fazer sentido, ele se limitava a perceber que era então uma pessoa diferente e, portanto, aquilo continuava ali. De uma forma ou de outra, existia motivo para determinada situação ou citação. “Somos todos uma colcha de retalhos, tão sem forma e tão diversa em sua composição que cada pedacinho, cada momento joga seu próprio jogo.” Conforme escreve Sarah Bakewell a seu respeito, “ele não tentava apagar a vida de seus eus anteriores, tampouco haveria motivos para que o fizesse em seu livro”.
Sartre, por sua vez, trouxe visão igualmente útil sobre o arrependimento, o remorso e a capacidade de seguir em frente, a despeito das mazelas do passado. Comentando uma das interpretações de sua peça “As Moscas” poucos anos depois da tragédia do Holocausto, disse: “Para os alemães, também, penso que o remorso não faz sentido. Não digo que devam simplesmente varrer da memória os erros do passado. Não. Mas tenho certeza de que não ganharão o perdão que o mundo lhes pode dar apenas mostrando um arrependimento obsequioso. Irão ganhá-lo com o engajamento total e sincero num futuro de liberdade e trabalho, com o firme desejo de construir esse futuro e com a presença do maior número possível de homens de boa vontade entre eles. Talvez a peça possa, se não levá-los a esse futuro, ao menos encorajá-los nessa direção”.
Sabe, hoje, quando olho o portfólio dos investidores ou quando converso com os três leitores desta coluna vejo um apego excessivo ao passado, uma dificuldade enorme em construir o futuro, sem o peso dos erros de ontem. Há sempre uma dificuldade enorme em se desfazer de posições perdedoras, como se, necessariamente, o investidor precisasse pagar o pecado de ter comprado a ação ABCD mais cara somente a partir de uma recuperação da própria ação ABCD. Ele não consegue se livrar dos próprios pecados. Seria mesmo a ação ABCD a mesma indicada para você recuperar os prejuízos acumulados ali? Ou será que assumir os prejuízos, libertar-se dos pecados do passado e recuperar numa outra ação com melhores perspectivas não é a melhor opção?
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Há embasamento científico para a dificuldade de apenas “seguir em frente, na direção de um engajamento total e sincero num futuro de liberdade e trabalho” por parte do investidor. Terrance Odean estudou milhares de contas de investidores pessoas físicas e constatou uma tendência a realizar lucros cedo demais e carregar posições perdedoras por mais tempo do que seria razoável. Levando a estratégia ao limite, o sujeito morre com uma carteira de micos na mão no longo prazo.
A turma das Finanças Comportamentais associa o fenômeno à chamada “aversão à perda”, um suposto viés cognitivo que torna a perda ou a dor, em média, 2,5 vezes mais sofrida do que o benefício sentido por algum fato positivo, como um lucro. Queremos evitar ao máximo a materialização da perda e, por isso, carregamos as posições perdedoras. Ainda que a marcação a mercado nos diga diariamente que já estamos perdendo, o reconhecimento para si mesmo de que aquilo realmente não deu certo e que “ok, temos uma perda concreta aqui” só vem mesmo depois de zerarmos a posição. Assim, vamos carregando conosco aquele pecado, sem conseguirmos seguir em frente. Com isso, tornamo-nos paradoxalmente ainda mais pecadores, transformando nossa carteira numa reunião de posições perdedoras e raras exceções lucrativas.
Entra uma nuance importante aqui. Por vezes, há uma crítica rasa e muito carregada de tinta a essa postura, sendo que, na verdade, o problema maior é que ela desafia nossos elementos mais primitivos, vai contra nossa natureza. E é sempre um problema lutar contra si mesmo. Investidores ainda são seres humanos e o que estou pedindo aqui é, em alguma medida, para que nos tornemos menos humanos.
As Finanças Comportamentais estão na moda agora. É difícil falar contra elas. Contudo, existe uma sutileza nessa história de “aversão à perda”. Originalmente, o termo foi cunhado depois que estudos mostraram que, na prática, o investidor não tem “aversão ao risco”. No geral, ele é avesso ao risco em situações positivas e de lucro, e propenso ao risco em situações negativas e de prejuízo. Então, haveria aí uma suposta falha na racionalidade, diante da instabilidade das preferências. Diante de um mesmo problema, o investidor adotaria posições diferentes, caracterizando um viés cognitivo.
Há uma falha nesse raciocínio. É perfeitamente racional você ser avesso ao risco em situações confortáveis (não há razão para ser muito agressivo, a vida está boa) e disposto ao risco em situações de perda ou de perigo (você está sob ameaça e precisa fazer alguma coisa). Se hoje você fosse convidado para ser cobaia num novo tratamento experimental para câncer de pâncreas, provavelmente negaria. Haveria muito a perder (um eventual efeito colateral) e pouco a ganhar (você não sofre de câncer de pâncreas). Já se você estivesse com câncer terminal, muito provavelmente toparia o tratamento. A decisão necessariamente depende da sua posição e do momento.
Conforme escreve Taleb, o único tipo de definição possível de racionalidade é aquele que se liga à sobrevivência. Não ter percebido isso talvez seja o pecado original da teoria econômica. Da sua parte, investidor, não há pecado algum. Olhe para a sua carteira e pense, independentemente de erros do passado, se ela é a melhor composição para construir o futuro.
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