Ibovespa e dólar fecham em leve queda, com mercados assumindo postura cautelosa
Os mercados domésticos tiveram um dia de oscilações moderadas, ponderando os riscos no cenário local e no exterior. E, nesse cenário, tanto o dólar quanto o Ibovespa fecharam em leve queda

Quem bate o olho no fechamento do Ibovespa e do dólar à vista pode achar que a sessão desta quarta-feira (22) foi tranquila — e, de fato, a fotografia da linha de chegada dá a entender que o dia foi de poucas emoções.
Mas, num dia como hoje, é melhor assistir ao filme completo. E o longa-metragem de 22 de maio de 2019 não foi exatamente um água com açúcar — a película se enquadra melhor no gênero de suspense.
E isso porque, no front doméstico, os mercados assumiram um tom de "otimismo cauteloso" em relação ao cenário político, atentos aos desdobramentos em Brasília. E, no exterior, a guerra comercial continuou trazendo dor de cabeça e exigindo prudência por parte dos agentes financeiros.
[captacao]
O dólar à vista, por exemplo, chegou a cair 0,99% durante a manhã, tocando os R$ 4,0076. Mas esse clima de suspense fez a moeda americana se afastar das mínimas, encerrando a sessão com uma baixa bem mais modesta: apenas 0,18%, a R$ 4,0407.
O Ibovespa, por sua vez, passou a quarta-feira oscilando entre os campos positivo e negativo: na mínima, foi aos 93.882,56 pontos (-0,64%) e, na máxima, aos 95.211,75 pontos (+0,77%). Ao fim do dia, recuou 0,13%, aos 94.360,66 pontos.
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Onde os fracos não têm vez
O noticiário local trouxe elementos mistos, dificultando a trama para quem chegou ao cinema sem ler a sinopse. Por um lado, havia a percepção de que a relação entre governo e Congresso estava melhorando, mas, por outro, diversos focos de atrito em Brasília ainda inspiravam cautela.
O avanço de MPs defendidas pelo governo no Congresso foi visto como um sinal de que a relação entre os poderes Executivo e Legislativo está avançando — o que animou os agentes financeiros e criou expectativas mais positivas para a tramitação da reforma da Previdência.
Ontem, por exemplo, a Câmara aprovou a MP que autoriza a entrada de capital estrangeiro nas companhias aéreas brasileiras. E a MP da reforma administrativa, outra pauta importante para a gestão Bolsonaro, será votada hoje, após um acordo firmado entre o governo e o Congresso.
Tal cenário animou o mercado e levou à conclusão de que os temas econômicas estão sendo priorizados em Brasília. No entanto, esse cenário de 'pacificação' entre os poderes já havia sido precificado ontem, quando tanto o Ibovespa quanto o dólar passaram por uma forte onda de alívio.
"O mercado já corrigiu para baixo e para cima, de acordo com o noticiário político", diz um operador. "A partir de agora, é preciso ter novidades para ver se o Ibovespa busca novamente os 100 mil pontos ou cai outra vez para os 90 mil", diz um operador. "É preciso ter sinais mais fortes".
Apesar desse otimismo, outras notícias no front político sinalizam que a tensão em Brasília ainda está longe de terminar, o que limitou a tendência de recuperação dos ativos locais.
A própria MP do setor aéreo é um exemplo. Após aprovação na Câmara, o tema precisaria ser apreciado pelo Senado ainda hoje, ou perderia a validade — mas, segundo o Broadcast, os senadores não aceitam aprovar o texto sem a exigência de uma cota de voos regionais às empresas estrangeiras e, assim, devem derrubar a MP.
Além disso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, rompeu com o líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO). O desentendimento ocorreu por causa de uma mensagem encaminhada por Vitor Hugo em grupos de WhatsApp, em que associa a negociação do governo com o Congresso com sacos de dinheiro.
"O mercado está em compasso de espera", diz Pedro Galdi, analista da corretora Mirae Asset. "Está aguardando a definição da MP da reforma administrativa e quer ver como a reforma da Previdência vai andar".
Guerra infinita
No exterior, cresce a percepção de que as disputas comerciais entre Estados Unidos e China irão se arrastar por muito tempo — a questão deve render uma sequência de filmes até ser resolvida.
Afinal, os governos de ambos os países continuam trocando farpas e assumindo uma retórica de ataque e contra-ataque. "Há o sentimento de que o pessoal não está se entendendo e também não está com pressa para resolver as pendências", diz Galdi.
Em reação aos bloqueios impostos à Huawei, o governo da China anunciou o corte de impostos sobre os setores de software e circuitos integrados, de modo a fomentar o desenvolvimento desse segmento em meio à pressão exercida pelos Estados Unidos no front comercial.
Sem saber ao certo se Washington irá ampliar a lista de empresas chinesas embargadas, o mercado assumiu uma postura cautelosa: em Nova York, o Dow Jones (-0,39%), o S&P 500 (-0,28%) e o Nasdaq (-0,45%) fecharam em queda, após passarem toda a sessão no campo negativo.
Essa postura mais prudente também foi vista no mercado de câmbio. O dólar ficou praticamente estável ante a maior parte das divisas emergentes, como o peso mexicano, o rublo russo, o rand sul-africano, a lira turca e o peso argentino.
Apesar das incertezas domésticas e globais, as curvas de juros conseguiram encerrar o dia em leve queda. Os DIs com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 6,87% para 6,85%, os com vencimento em janeiro de 2023 caíram de 8,05% para 8,01% e os para janeiro de 2025 foram de 8,63% para 8,60%.
Declarações do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, foram analisadas pelo mercado ao longo do dia. Mais cedo, ele afirmou que o desafio da instituição é conduzir a política monetária em um ambiente em que a retomada da atividade econômica mostra sinais de arrefecimento e o equacionamento da estabilidade fiscal depende da continuidade das reformas.
Oscar de atriz principal
O destaque do pregão ficou com as ações ON da Natura (NATU3). Os papéis tiveram uma sessão intensa após a empresa confirmar que estava em discussões avançadas com a Avon para a aquisição da rival.
Como resultado, os papéis da empresa abriram o dia sob pressão e chegaram a cair 5,98% mais cedo. Contudo, os ativos foram ganhando força ao longo do dia, fechando em alta de 9,43%, liderando os ganhos do Ibovespa.
E, logo após o fechamento dos mercados, a Natura confirmou o fechamento da compra da Avon, criando uma gigante global do setor de cosméticos com faturamento anual superior a US$ 10 bilhões. Os acionistas da empresa brasileira irão deter 76% do capital da companhia combinada.
A negociação
As ações da Petrobras ficaram perto da estabilidade nesta quarta-feira. As fortes perdas do petróleo pressionaram os ativos da estatal, mas esse efeito foi neutralizado pelo noticiário corporativo envolvendo a empresa.
Rumores de que a Petrobras estaria às vésperas de dar início ao processo de venda da BR Distribuidora mexeram com os papéis ao longo do dia — e, também após o fechamento, a estatal confirmou que planeja reduzir sua participação na companhia para menos de 50%, por meio de uma oferta secundária de ações (follow on).
Nesse contexto, os papéis ON da estatal (PETR3) subiram 0,10%, enquanto os PNs (PETR4) tiveram alta de 0,32%.
A cor do dinheiro
O minério de ferro teve alta de 3,68% na China nesta quarta-feira, o que deu suporte às ações diretamente ligadas à commodity no Ibovespa — caso da Vale e das siderúrgicas, como CSN, Gerdau e Usiminas.
Vale ON (VALE3), por exemplo fechou em alta de 0,11%. Entre as siderúrgicas, destaque para CSN ON (CSNA3), que avançou 3,13% — Gerdau PN (GGBR4) ficou estável e Usiminas PNA (USIM5) subiu 0,24%.
Câmeras apontadas para o céu
Fora do Ibovespa, destaque para as ações PN do Banco Pan (BPAN4), que dispararam 23,32% nesta quarta-feira. Desde o início do ano, os papéis do Banco Pan acumulam ganhos de mais de 140%.
Azul e Gol
Em meio à expectativa em relação à MP que libera a entrada de capital estrangeiro nas companhias aéreas brasileiras, as ações da Gol e da Azul também terminaram a sessão no campo positivo. Gol PN (GOLL4) teve ganhos de 5,61%, enquanto Azul PN (AZUL4) avançou 1,25%.
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