Balança, mas não cai: apesar das instabilidades, Ibovespa tem a quarta semana de alta
O Ibovespa fechou o pregão desta sexta-feira no campo positivo, terminando a semana com um ganho acumulado de 1,27%. O novo corte na Selic e as indicações de que esse ciclo deve continuar deram ânimo à bolsa brasileira

O percurso do Ibovespa parecia especialmente ameaçador nesta semana. As decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos e as incertezas do noticiário referente à guerra comercial faziam a corda bamba dos mercados chacoalhar como nunca — nesse cenário, uma queda não seria surpreendente.
O que já parecia difícil em teoria ficou ainda mais complicado na prática: uma rajada de vento vinda do Oriente Médio trouxe instabilidade extra ao trajeto. Ataques às refinarias da Aramco na Arábia Saudita provocaram um frenesi no mercado de câmbio e mexeram com o equilíbrio das bolsas.
Mas, passo a passo, o Ibovespa foi conseguindo avançar. As pernas chacoalharam em alguns momentos, mas o principal índice da bolsa brasileira não se intimidou pelos desafios. Pelo contrário: fechou o pregão desta sexta-feira em alta de 0,46%, aos 104.817,40 pontos e, com isso, acumulou ganho de 1,27% na semana.
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Essa foi a quarta semana consecutiva em que o Ibovespa registra desempenho positivo: em 23 de agosto, o índice estava ao redor dos 97 mil pontos. Em linhas gerais, esse avanço contínuo se deve aos desdobramentos mais amigáveis das disputas entre Washington e Pequim e à expectativa de corte de juros no Brasil e nos EUA.
E, nessa semana, os dois fatores tiveram desenvolvimentos majoritariamente positivos. Assim, o Ibovespa seguiu com coragem para continuar caminhando na corda bamba — e, pelo menos por enquanto, sem dar sinais de desequilíbrio.
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Tempestade de areia
No início da semana, os agentes financeiros foram pegos de surpresa pelos ataques a duas refinarias da Aramco, comprometendo a capacidade de produção de petróleo da Arábia Saudita. Rebeldes do Iêmen assumiram a autoria da ação, mas os governos americano e saudita acusaram o Irã de estar por trás do ocorrido.
Independente de quem foi o autor, fato é que a situação provocou forte volatilidade no mercado de commodities: na segunda-feira, os contratos do Brent e do WTI para novembro dispararam mais de 14%. Nas bolsas, o tom foi de cautela, em meio aos temores de uma nova escalada nos atritos geopolíticos no Oriente Médio.
No Brasil, a disparada do petróleo impulsionou as ações da Petrobras. Assim, o Ibovespa conseguiu se equilibrar: a maior aversão global ao risco foi compensada pelos ganhos dos papéis da estatal — e o índice como um todo não sofreu com grandes oscilações por causa do temor externo.
No dia seguinte, a dinâmica foi a contrária: sinais de que a produção saudita de petróleo não seria tão afetada fez os preços da commodity recuarem, o que fez a aversão ao risco diminuir e os papéis da Petrobras caírem. Novamente, os dois fatores se anularam, deixando o Ibovespa sem maiores volatilidades.
Tremores centrais
Na quarta-feira (18), tivemos o dia D para os mercados: durante a tarde, seria conhecida a decisão de juros dos Estados Unidos; no início da noite, seria a vez do Brasil ter novidades no front da política monetária.
E, em linhas gerais, tudo correu conforme o planejado: o Fed cortou os juros americanos em 0,25 ponto, enquanto o Copom reduziu a Selic em 0,50 ponto — movimentos em linha com as estimativas do mercado financeiro.
No entanto, diferenças nas sinalizações emitidas pelas duas autoridades monetárias geraram trepidações na corda bamba. Nos Estados Unidos, o Fed deu a entender que a porta estava aberta para novas reduções de juros no futuro, mas o presidente da instituição, Jerome Powell, adotou um tom menos enfático em sua coletiva de imprensa.
Sempre que questionado a respeito dos próximos passos do BC americano, Powell ressaltou que a instituição irá agir de acordo com os sinais emitidos pelos dados econômicos, sem se comprometer de antemão com novos cortes. Essa postura mais hesitante acabou decepcionando os agentes financeiros no exterior.
No entanto, o Ibovespa não foi afetado por essa dose maior de cautela vista lá fora, já que, por aqui, o Copom adotou uma postura contrária à do Fed: o BC brasileiro foi enfático ao sinalizar que novas reduções na Selic irão ocorrer neste ano, o que fez muitos bancos e instituições financeiras revisarem para baixo suas previsões para a taxa básica de juros a fim do ano.
Em geral, a Selic mais baixa diminui a rentabilidade dos investimentos em renda fixa atrelados à taxa de juros. Assim, quem quer ter rendimentos mais elevados precisa buscar alternativas que envolvam riscos maiores — e a bolsa tem exatamente esse perfil. Desse jeito, apesar do exterior mais tenso, o Ibovespa continuou caminhando.
Guerra comercial chacoalhando
Por fim, a guerra comercial foi o destaque da sessão desta sexta-feira. E tivemos uma peça em dois atos: durante a manhã, o clima era de otimismo em relação às negociações entre EUA e China. Mas, durante a tarde, a cautela voltou a reinar entre os mercados.
Desde quinta-feira, uma delegação chinesa estava em Washington para acertar as bases da nova rodada formal de negociações entre os dois países, prevista para outubro.
E, nesse contexto, uma sinalização do governo americano trouxe otimismo aos agentes financeiros: nesta manhã, o escritório do representante de comércio dos EUA excluiu temporariamente 437 produtos chineses da lista de importações do país asiático que sofre com tarifas extras para entrar em território americano.
Essa nova orientação aumentou a perspectiva quanto ao sucesso das conversas preliminares, abrindo terreno para que a rodada formal de negociações seja realizada no mês que vem — e que, de fato, seja atingido algum tipo de acerto entre as duas potências.
Só que, no início da tarde, toda essa percepção mais favorável foi por água abaixo, com a notícia de que a delegação chinesa encerrou os diálogos antes do previsto. Assim, o que antes parecia um sinal promissor no front da guerra comercial acabou virando um fator de tensão para os mercados financeiros.
Por aqui, essa virada de humor fez o Ibovespa perder força e se afastar das máximas — no melhor momento do dia, o índice bateu os 105.044,50 pontos (+0,68%). No entanto, o mercado acionário brasileiro conseguiu se sustentar no campo positivo, ao contrário das bolsas americanas.
Nos EUA, o Dow Jones (-0,59%), o S&P 500 (-0,49%) e o Nasdaq (-0,80%) fecharam o dia em baixa. Na semana, os três índices acumularam desempenhos negativos.
Dólar pressionado
No mercado de câmbio, o dólar à vista até passou por um leve movimento de despressurização nesta sexta-feira e fechou em queda de 0,22%, a R$ 4,1537. No entanto, a moeda americana acumulou alta de 1,64% na semana — na sexta-feira passada, a divisa estava cotada a R$ 4,08.
Há dois vetores que ajudam a explicar esse movimento do mercado de câmbio local: em primeiro lugar, há a redução no diferencial de juros entre Brasil e EUA, já que o corte nas taxas promovido pelo Copom, de 0,50 ponto, foi maior que o adotado pelo Fed, de 0,25 ponto.
Com isso, há um apelo menor para o chamado carry trade, operação em que investidores estrangeiros aplicam dinheiro no Brasil para lucrar com os juros bem mais elevados que os vistos nos EUA. Com a Selic cada vez menor e mais próxima às taxas americanas, ocorre o movimento contrário: a segurança do dólar é mais atrativa.
Em segundo, também há uma estratégia defensiva por parte dos agentes financeiros: com a bolsa em níveis elevados, muitos investidores optam por aumentar suas posições em dólar: caso o noticiário traga instabilidade aos mercados e provoque um correção nas bolsas, o dólar funcionará como um mecanismo de proteção para a carteira.
Juros em queda
As curvas de juros passaram por um forte movimento de ajustes negativos nos últimos dois dias, em meio às sinalizações emitidas pelo Copom de que o processo de cortes na Selic tende a continuar no futuro próximo.
Nesse cenário, os DIs para janeiro de 2021 caíram de 5,02% para 4,98% nesta sexta-feira; na ponta longa, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 recuaram de 6,19% para 6,08%, e as para janeiro de 2025 foram de 6,81% para 6,70%.
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