Apesar da guerra comercial, o Ibovespa e as bolsas globais tiveram um dia zen
O clima mais ameno nos mercados globais permitiu que o Ibovespa tivesse um dia bastante tranquilo e retomasse os 104 mil pontos

Os agentes financeiros globais passaram a quinta-feira (8) repetindo um mantra:
Hoje não, guerra comercial. Hoje, não
Desde o início do dia, os mercados globais mostraram-se dispostos a não se deixar contaminar pelo estresse gerado pelas disputas entre Estados Unidos e China. Fecharam os olhos, controlaram a respiração e trataram de limpar a mente. E, leves como uma pluma, o Ibovespa e as bolsas americanas levitaram.
O principal índice acionário brasileiro, por exemplo, fechou o pregão em alta de 1,30%, aos 104.115,23 pontos — na máxima, o Ibovespa chegou a avançar 1,46%, aos 104.281,89 pontos. E, em Nova York, o Dow Jones (+1,43%), o S&P 500 (+1,88%) e o Nasdaq (+2,24%) também tiveram ganhos expressivos
Toda essa postura zen tem como base o noticiário internacional. Apesar de ainda não haver sinais de alívio na guerra comercial — pelo contrário, o yuan voltou perder força em relação ao dólar e o presidente americano, Donald Trump, continuou atirando para todos os lados no Twitter — outros desdobramentos trouxeram paz de espírito aos mercados.
Em destaque, aparece a balança comercial da China em julho, que veio bem mais forte que o projetado pelos analistas e especialistas. Com o resultado, aumentou a percepção de que o gigante asiático ainda não está sendo fortemente impactado pelos atritos com os EUA, o que trouxe tranquilidade às negociações.
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O mercado de câmbio também aproveitou esse contexto para meditar: por aqui, o dólar à vista passou por um forte alívio e fechou em baixa de 1,18%, a R$ 3,9275 — comportamento semelhante ao visto no exterior, onde a moeda americana também perdeu terreno em relação às demais divisas de países emergentes.
Guerra e paz
A guerra comercial ganhou novos episódios nesta quinta-feira: o Banco do Povo da China (PBoc, na sigla em inglês), voltou a depreciar o yuan em relação ao dólar, mas esse movimento foi menos intenso do que o projetado pelos mercados — o que deu força à leitura de que Pequim não pretende entrar numa guerra cambial neste momento.
Além disso, os dados da balança comercial da China em julho vieram mais fortes que o esperado: as exportações do país asiático subiram 3,3% no mês passado, enquanto as importações caíram 5,6%, gerando um superávit comercial de US$ 45 bilhões.
Esse resultado indica que a economia do país asiático tem conseguido resistir aos potenciais impactos negativos das disputas com os Estados Unidos. E esse fator, em conjunto com o tom 'ameno' do PBoC, contribuiu para trazer alento às negociações globais, dando força aos ativos de risco e de países emergentes.
"As últimas sessões foram bem negativas, então o mercado aproveitou essa conjuntura de hoje para respirar um pouco", destaca Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. "Mas a guerra comercial segue no radar dos investidores. A China está, de fato, confrontando os Estados Unidos".
Olhando para dentro
Com o clima mais favorável no exterior, os agentes financeiros locais ficam mais tranquilos para dar atenção aos desdobramentos do cenário doméstico, em especial, a conclusão da votação da reforma da Previdência pela Câmara dos Deputados, na noite de ontem — dando sustentação extra ao Ibovespa e ao dólar à vista.
A Câmara rejeitou os oito destaques apresentados, mantendo o texto-base da proposta inalterado, mantendo a potência fiscal prevista pela reforma num patamar acima dos R$ 900 bilhões em 10 anos. Agora, o projeto segue para aprovação no Senado.
Em linhas gerais, o mercado já dava a aprovação da Previdência como certa desde que o texto recebeu sinal verde na votação em primeiro turno no plenário da Câmara, em julho. No entanto, a possibilidade de desidratação da reforma via destaques trazia alguma apreensão aos agentes financeiros — temor que foi definitivamente afastado.
Calminho, calminho
A força demonstrada pela balança comercial chinesa acabou aumentando a propensão dos agentes financeiros ao risco, e esse movimento foi bastante perceptível no mercado de câmbio. As moedas de países emergentes e exportadores de commodities, que se desvalorizaram em bloco em relação ao dólar nos últimos dias, hoje recuperaram parte do terreno perdido.
Com os mercados assumindo uma postura menos defensiva, ocorreu um movimento de busca por ativos mais rentáveis. No câmbio, essa movimentação implica numa saída das posições em dólar em direção às divisas emergentes.
Nesta quinta-feira, quase todas as moedas com esse perfil ganharam força, com destaque para os pesos da Colômbia, do Chile e do México; para a lira turca e para o forint húngaro — além, é claro, do real.
Vale ressaltar que, por aqui, o dólar à vista já acumulava ganhos de 4% em julho até ontem, quando fechou a R$ 3,9743 — o que abre espaço para um alívio mais amplo nesta quinta-feira.
Juros distensionados
As curvas de juros passaram por mais um leve ajuste negativo nesta quinta-feira. E o movimento de hoje possui relação com o resultado da inflação medida pelo IPCA em julho: o indicador ficou em 0,19%, a menor taxa para o mês desde 2014.
Com a inflação controlada, cresce a percepção de que o Banco Central tem espaço para promover mais cortes na Selic. E, com esse princípio em mente, os agentes financeiros ajustaram as curvas de juros.
Na ponta curta, os DIs para janeiro de 2020 caíram de 5,51% para 5,47%, e os com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 5,42% para 5,40%. No vértice longo, as curvas para janeiro de 2023 foram de 6,37% para 6,34%, e as com vencimento em janeiro de 2025 fecharam em baixa de 6,88% para 6,83%.
Mais balanços
Voltando ao Ibovespa, outro destaque fi a continuidade da temporada de balanços corporativos, com três empresas que integram o índice reportando seus números recentemente: Banco do Brasil, Braskem e Azul — você pode conferir um resumo dos números nesta matéria especial.
A companhia aérea Azul saiu do prejuízo e registrou lucro líquido de R$ 345,5 milhões entre abril e junho deste ano — como resultado, as ações PN da empresa (AZUL4) subiram 2,60%. Em relatório, o Itaú BBA afirmou que os números da Azul foram bons, mas em linha com o esperado — a margem operacional "sólida" foi um dos destaques do trimestre.
Já os papéis ON do Banco do Brasil (BBAS3) tiveram um desempenho mais discreto, em alta de 0,72%, apesar do salto de 36,8% no lucro líquido, para R$ 4,432 bilhões. Para o UBS, apesar do crescimento no lucro, chama a atenção as maiores provisões no trimestre — o que ajuda a reduzir a empolgação com os resultados.
Por fim, Braskem PNA (BRKM5) caiu 2,28% e teve o pior desempenho do Ibovespa, após a petroquímica registrar uma baixa de 79% no lucro líquido, para R$ 102 milhões. O Safra afirma que os dados operacionais da Braskem foram fracos, o que justifica a má reação dos papéis da empresa.
Commodities se recuperam
Após passarem os últimos dias sob intensa pressão por causa da escalada nas tensões entre Estados Unidos e China, o minério de ferro e o petróleo encontram espaço para recuperarem parte do terreno perdido — e, assim, os papéis ligados a esses produtos também avançam.
O minério de ferro fechou em alta de 0,87%, interrompendo uma sequência de seis baixas consecutivas na cotação da commodity. Esse fator, somado ao otimismo em relação à economia da China após os dados da balança comercial, dá força às ações da Vale e das siderúrgicas, um dos grandes consumidores globais de minério e de aço.
Nesse contexto, Vale ON (VALE3) subiu 1,51%, CSN ON (CSNA3) teve alta de 2,47%, Gerdau PN (GGBR4) avançou 3,24% e Usiminas PNA (USIM5) teve ganho de 4,01% — esta última liderou os ganhos do Ibovespa nesta quinta-feira.
O petróleo também se recuperou, tanto o WTI (+2,84%) quanto o Brent (+2,05%), o que dá força aos papéis da Petrobras: os PNs (PETR4) subiram 2,93% e os ONs (PETR3) avançaram 2,38%.
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