A temperatura subiu rápido na guerra comercial — e o Ibovespa as bolsas globais derreteram
A escalada nas tensões comerciais entre EUA e China elevou a aversão ao risco nos mercados e pressionou fortemente o Ibovespa neste início de semana

Os mercados globais estão constantemente numa espécie de banho-maria, flutuando no contexto externo. É claro, fatores locais também interferem nas negociações, mas a cena internacional tem capacidade para mexer com as operações no mundo todo. E, nesta segunda-feira (5), a temperatura da água deu um salto.
E olha que as operações já estavam cozinhando lentamente desde a semana passada, quando a guerra comercial entre Estados Unidos e China voltou a esquentar. Mas, hoje, o líquido que aquece as negociações entrou subitamente em estado de fervura — e, como resultado, a receita dos mercados desandou.
As bolsas globais derreteram nesta segunda-feira: no Brasil, o Ibovespa fechou em baixa de 2,51%, aos 100.097,75 pontos; nos Estados Unidos, a coisa foi ainda mais feia: o Dow Jones despencou 2,90%, o S&P 500 recuo 2,98% e o Nasdaq desabou 3,47%. Na Europa e na Ásia, o tom foi igualmente negativo.
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O Ibovespa até que pode se dar por feliz, já que conseguiu sustentar o nível dos 100 mil pontos. No pior momento do dia, o principal índice da bolsa brasileira chegou a cair 2,96%, batendo os 99.9630,09 pontos.
O dólar à vista também sentiu os efeitos da guerra comercial em ponto de ebulição: a moeda americana terminou a sessão de hoje em forte alta de 1,66%, a R$ 3,9561 — o maior nível de fechamento desde 30 de maio.
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Todo esse pessimismo se deve às posturas mais agressivas assumidas por Estados Unidos e China nos últimos dias, e que descambou para o temor de uma guerra cambial por parte das duas potências. Hoje, o dólar rompeu a marca de 7 yuans pela primeira vez em mais de 10 anos — o que despertou a ira do presidente americano, Donald Trump.
Via Twitter, ele acusou o governo de Pequim de estar manipulando artificialmente o câmbio. O yuan desvalorizado tende a fortalecer suas exportações, uma vez que seus produtos ficam mais baratos e competitivos, o que afeta diretamente a economia americana.
Esse novo desdobramento da guerra comercial ocorre após Trump anunciar, na última quinta-feira (1), a adoção de tarifas de 10% sobre outros US$ 300 bilhões em importações de produtos chineses, com início previsto para 1º de setembro.
O governo de Pequim, contudo, não dá indícios de que irá ceder às pressões de Washington: no fim de semana, a imprensa oficial da China afirmou que o país "nunca se curvará" ao "velho truque de bullying comercial" dos EUA, dizendo ainda que o gigante asiático não quer uma guerra comercial, mas que não tem medo de entrar numa, caso necessário.
"Foi um contra-ataque. O Trump elevou as tarifas, e para compensar, os chineses desvalorizaram o câmbio como moeda de troca", disse um analista que prefere não ser identificado, acrescentando ainda que, na China, o governo tem o poder de interferir diretamente no preço do yuan — por lá, o regime cambial não é tão flutuante.
As fortes perdas de 2,51% registradas hoje no Ibovespa marcam o pior pregão desde 13 de maio, quando o índice terminou em baixa de 2,69%. E, curiosamente, o mau desempenho daquele dia também foi desencadeado pela reação chinesa às tarifações do governo americano.
Na ocasião, o governo da China anunciou a imposição de uma sobretaxa em US$ 60 bilhões de produtos importados dos Estados Unidos, após Washington elevar as tarifas que incidiam sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas, de 10% para 25%.
"É uma guerra, e cada um vai usar as armas que tem", conclui o analista.
Câmbio estremecido
Com medo das consequências que a escalada nas tensões comerciais e cambiais entre EUA e China poderão trazer à economia mundial, os agentes financeiros têm adotado uma postura bastante clara: estão reduzindo à exposição ao risco, o que mexe especialmente com o mercado de câmbio.
Há um movimento de fuga das moedas de países emergentes e exportadores de commodities, uma vez que tais ativos são considerados mais arriscados. E, como consequência, o dólar ganha força ante tais divisas.
É o caso do peso mexicano, do peso chileno, do rand sul-africano, do peso colombiano e do dólar neozelandês — e do real. Por aqui, o dólar à vista chegou a bater o nível de R$ 3,9666 na máxima (+1,93%).
"Há um movimento cada vez mais expressivo de enxugamento de risco", diz Cleber Alessie, operador da H. Commcor, ao comentar os recentes desdobramentos da guerra comercial. Ele pondera, ainda, que o dólar à vista também pode estar sendo pressionado pelos recentes movimentos dos Bancos Centrais, mas que é difícil quantificar essa influência.
Como a redução na Selic foi mais intensa que a dos juros americanos, o diferencial nas taxas se estreitou, o que tende a elevar a cotação do dólar — o meu colega Eduardo Campos explica a lógica por trás desse movimento nessa matéria especial. "Talvez essa questão do diferencial também mexa com o dólar, mas tudo está contaminado pela aversão ao risco", diz Alessie.
Ibovespa cai forte
Considerando todo esse contexto, o Ibovespa operou em forte queda desde o início do dia. Além do mau desempenho em si, um outro fator chamou a atenção: apenas dois papéis do índice, Marfrig ON (MRFG3) e IRB ON (IRBR3) terminaram o pregão em alta, com ganhos de 1,03% e 0,14%, respectivamente.
As perdas desta segunda-feira foram capitaneadas pelo setor de siderurgia e mineração, reagindo fortemente às perdas de 6,66% no minério de ferro no porto chinês de Qingdao — cotação que serve de referência para os mercados.
Em meio à desvalorização da commodity e aos temores de desaquecimento na economia chinesa em função da guerra comercial, os papéis ON da Vale (VALE3) caíram 3,85%, as ações ON da CSN (CSNA3) recuaram 5,99%, as ações PNA da Usiminas (USIM5) tiveram baixa de 3,29% e os papéis PN da Gerdau (GGBR4) fecharam em queda de 3,46%.
As ações da Petrobras também exerceram pressão negativa sobre o Ibovespa: os ativos PN (PETR4) da estatal caíram 3,66% e os ONs (PETR3) recuaram 4,14%, em meio às quedas do petróleo WTI (-1,74%) e Brent (-3,36%) no exterior.
O setor bancário caiu em bloco e afeta o desempenho do Ibovespa: Itaú Unibanco PN (ITUB4) recuou 1,37%, Bradesco ON (BBDC3) desvalorizou 2,08%, Bradesco PN (BBDC4) teve baixa de 1,81%, Banco do Brasil ON (BBAS3) fechou em queda de 1,87% e as units do Santander Brasil (SANB11) retraíram 1,14%.
Por fim, as ações de empresas do setor aéreo também apareceram entre os destaques negativos, uma vez que a valorização do dólar implica em maiores custos com combustível de aviação — o que pressiona diretamente o resultado financeiro de tais companhias. Como resultado, Gol PN (GOLL4) caiu 5,02% e Azul PN (AZUL4) recuou 3,64%.
Juros para o alto
Com o dólar à vista subindo forte e encostando no nível de R$ 3,94, as curvas de juros também foram pressionadas e fecharam em alta firme, tanto na ponta curta quanto na longa.
Os DIs para janeiro de 2021, por exemplo, avançaram de 5,41% na última sexta-feira para 5,57%; no vértice longo, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 subiram de 6,37% para 6,54%, e as para janeiro de 2025 foram de 6,91% para 7,05%.
E o cenário local?
Por aqui, os mercados também acompanharam o noticiário político doméstico, uma vez que o Congresso retorna do recesso do meio de ano — e já há a expectativa de que a tramitação da reforma da Previdência volte a caminhar ainda nesta semana.
Lideranças políticas sinalizaram que pode começar amanhã a votação do texto em segundo turno pela Câmara dos Deputados — passada esta fase, o projeto segue para discussão no Senado. No entanto, apesar de a reforma parecer bem encaminhada, um operador destaca que há fatores de preocupação no front local.
"O mercado não sabe como a bancada do Nordeste vai reagir à postura do Bolsonaro após as declarações dos últimos dias", diz o operador, lembrando que o presidente usou termos pejorativos ao se referir aos governadores da região. "Há um movimento de proteção aos dois cenários, interno e externo".
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