A águia e o dragão acertaram uma trégua — e o Ibovespa aproveitou a paz para subir
O Ibovespa acompanhou os mercados globais e terminou no campo positivo nesta segunda-feira (1), reagindo positivamente à trégua sinalizada entre EUA e China na guerra comercial

Dois dos caçadores mais temidos da cadeia alimentar passaram os últimos meses em conflito. O dragão chinês e a águia americana travaram uma disputa acirrada por domínio territorial — e o temor dos danos colaterais que essa briga poderia trazer ao ecossistema como um todo vinha deixando o clima pesado nos mercados.
Assim, o apertar de patas entre os predadores trouxe um forte alívio aos demais participantes desse bioma. Ao menos por enquanto, a trégua firmada entre americanos e chineses aumenta a otimismo dos agentes financeiros — e, como resultado, o Ibovespa e as bolsas de Nova York abriram o mês de julho no campo positivo.
O principal índice do mercado acionário brasileiro fechou o pregão desta segunda-feira (1) em alta de 0,37%, aos 101.339,68 — comportamento semelhante ao visto no Dow Jones (+0,44%), S&P 500 (+0,77%) e Nasdaq (+1,06%). O dólar à vista, por outro lado, terminou a sessão em leve alta de 0,10%, a R$ 3,8441.
Toda essa onda de bom humor se deve ao acerto fechado entre a águia, representada por Donald Trump, e o dragão, encarnado por Xi Jinping. Os presidentes dos EUA e da China se reuniram neste fim de semana, durante a cúpula do G20, e firmaram trégua na guerra comercial, apontando para a continuidade das negociações entre as partes.
Com o acerto, o governo americano não irá mais impor tarifas de 25% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses que ainda não sofriam com barreiras comerciais — os bens que já haviam sido tarifados, contudo, continuam sendo sobretaxados. Além disso, Trump deu sinal verde para que a Huawei volte a comprar produtos americanos.
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Em troca, o presidente americano afirmou que o governo chinês irá comprar "ainda mais produtos agrícolas americanos", mas sem dar maiores informações a respeito das cifras envolvidas.
"As tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã continuam na mesma, mas a guerra comercial deu uma acalmada, então os mercados encontraram espaço para abrirem o dia com bastante força", diz um operador, apontando o exterior como principal fator de influência para as negociações por aqui.
Vale destacar que o fim do embargo à Huawei fez as ações de empresas do setor de tecnologia dos Estados Unidos terem um desempenho particularmente bom hoje, uma vez que a companhia chinesa é um importante consumidor de microchips, processadores e semicondutores.
Isso explica a alta mais intensa registrada pelo Nasdaq neste primeiro pregão de julho, uma vez que o índice concentra um número maior de ações de empresas ligadas ao setor de tecnologia.
Embora a segunda-feira tenha sido marcada pelo otimismo dos agentes financeiros em relação à trégua firmada entre Washington e Pequim, é importante ressaltar que os mercados perderam parte da força ao longo do dia. O Ibovespa, por exemplo, chegou a subir 1,45% mais cedo, aos 102.431,61 pontos; as bolsas americanas também terminaram longe das máximas.
Esse movimento de suavização dos ganhos se deve aos temores ainda grandes quanto ao estado da economia global. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria mundial recuou para 49,4 em junho — é o menor nível desde 2012. Leituras abaixo de 50 indicam contração da atividade.
Esse dado arrefece parte do otimismo dos mercados, embora não tenha sido suficiente para derrubar as bolsas ao campo negativo. E, no Brasil, um certo viés de cautela em relação à agenda domestica também tirou o ímpeto dos ativos locais.
De olho na reforma
Por aqui, os olhos estiveram atentos a Brasília e à tramitação da reforma da Previdência. Afinal, há a previsão de que o novo parecer do relator do texto na comissão especial da Câmara, Samuel Moreira, seja lido nesta terça-feira (2).
Os principais atores da cena política ainda debatem a inclusão dos Estados e municípios nas novas regras da aposentadoria, o que atrasou a leitura do parecer, inicialmente agendada para a semana passada. E, embora o mercado siga otimista, o cronograma apertado traz alguma apreensão às negociações.
O Congresso entrará em recesso no dia 18 — assim, há menos de três semanas para que a Previdência seja aprovada na comissão especial e no plenário da Câmara. Caso o texto não receba o sinal verde nessas etapas até o dia 18, a tramitação ficará parada na Casa até a volta dos trabalhos do Legislativo, em agosto, e há o receio de que, nesse tempo, o cenário político possa se deteriorar.
Pedro Galdi, analista da corretora Mirae Asset, pondera que esse "otimismo cauteloso" em relação à reforma influenciou o movimento de perda de força do Ibovespa ao longo da tarde, uma vez que eventuais mudanças a serem feitas no parecer do relator ainda são incertas — e novos atrasos podem inviabilizar as votações na Câmara.
Dólar vai e volta
Mais cedo, em meio à onda de otimismo global quanto à trégua firmada entre EUA e China, o dólar à vista chegou a cair ao nível de R$ 3,8104 (-0,78%). No entanto, a moeda americana foi ganhando força em relação ao real, também influenciada pela cautela no front doméstico em relação à Previdência.
Mas não foi apenas esse fator que mexeu com os rumos do dólar. No exterior, a divisa americana ganhou intensidade em escala global, passando a avançar com mais intensidade ante as moedas fortes — o índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante as principais divisas do mundo, avançou de modo firme nesta segunda-feira.
Comportamento semelhante foi viso na comparação com as moedas emergentes e ligadas às commodities. O dólar reduziu as perdas ante o peso mexicano, o rublo russo e o peso colombiano; além disso, ampliou a alta em relação ao rand sul-africano, o peso chileno e o dólar neozelandês.
Juros recuam
As curvas de juros fecharam a sessão em queda, embora tenham se afastado das mínimas da sessão. Os DIs refletiram o cima de maior tranquilidade visto no exterior e as sinalizações emitidas pelo boletim Focus desta segunda-feira.
Na ponta curta, os DIs com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 5,84% para 5,81%; na longa, as curvas para janeiro e 2023 caíram de 6,64% para 6,59%, e as para janeiro de 2035 tiveram baixa de 7,12% para 7,05%.
Além do alívio global em relação à guerra comercial, o mercado também se ajusta às estimativas divulgadas mais cedo pelo boletim Focus. A previsão de crescimento do PIB neste ano foi novamente cortada, passando de 0,87% na semana passada para 0,85% hoje.
E, em meio à percepção de de fraqueza da economia local, aumentam as apostas em relação a um corte de juros por parte do BC para estimular a atividade. A medida do Focus para a Selic no fim de 2019 também caiu, passando de 5,75% para 5,50% — a taxa básica de juros está atualmente em 6,5% ao ano.
Minério em alta
O bom humor global também contagiou o mercado de commodities: na China, o minério de ferro fechou em forte alta de 4,37% no porto de Qingdao — cotação que serve de referência para as negociações globais.
Nesse contexto, ações de empresas ligadas ao setor de commodities fecharam em alta firme e deram sustentação ao Ibovespa, com destaque para os papéis ON da Vale (VALE3), que avançaram 3,53%. Entre as siderúrgicas, destaque para CSN ON (CSNA3), em alta de 1,68%.
Expectativa elevada
Quem dominou a ponta positiva do Ibovespa, contudo, foram as ações do setor de frigoríficos. JBS ON (JBSS3) avançou 5,51%, BRF ON (BRFS3) teve ganho de 8,67% e Marfrig ON fechou em alta de 3,02%.
Segundo um operador, os papéis avançam com as expectativas de aumento na exportação de proteínas animais à Europa após o fechamento do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.
Galdi, da Mirae Asset, ainda pondera que ouros fatores também impulsionaram as cotações dos papéis do setor, com destaque para os rumores de que o impacto da febre suína sobre a população de porcos da China é ainda maior do que o estimado inicialmente pelo mercado — o que aumentaria a demanda do país por proteína animal importada.
Primeiro dia
Fora do Ibovespa, destaque para as ações ON da Neoenergia (NEOE3), que começaram a ser negociadas hoje na B3. E o mercado assumiu uma postura positiva para os papéis: os ativos da companhia tiveram ganho de 8,37%.
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