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Cobrar 2% de administração e 20% de performance é muito para um fundo multimercado brasileiro em tempos de juros baixos?
Se você cresceu no interior de Minas, como eu, na certa já acreditou que leite com manga é veneno, assim como comer ovo à noite.
Além disso, vassoura atrás da porta manda a visita embora — se você quiser que ela volte, tem que abrir a porta na despedida —, bolsa no chão te deixa sem dinheiro, quem tem o pé varrido nunca se casa e quem tem o segundo dedo do pé maior do que o DEDÃO vai mandar no marido
Você cresce e vê que, com exceção da última regra, que costuma vigorar, as outras não se confirmam necessariamente.
O mercado de fundos é cheio das verdades incontestes, muitas delas importadas de fora, várias espalhadas via redes sociais. Algumas são verdades verdadeiras. Outras são verdades que se mostram mentirosas – ou ao menos não tão verdadeiras assim.
É por isso que, quando eu vejo uma dessas verdades crescendo por aí, ponho minha equipe para trabalhar intensamente sobre elas: verdade ou mentira? Dessa vez, o caçador de mitos foi o Bruno Marchesano (que tem o azar de trabalhar comigo e voltou só umas cinco vezes para o Excel para novos testes nas últimas semanas, coitado).
O que ele precisava testar: cobrar 2 por cento de administração e 20 por cento de performance, a taxa padrão, é muito para um fundo multimercado brasileiro em tempos de juros baixos?
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A resposta é: não necessariamente, depende do risco que ele toma. E eu confesso que fiquei surpresa com o resultado. Eu tinha certeza de que ele ia condenar os multis.
Para avaliar essa questão, o Bruno levantou o retorno médio dos fundos pós-taxas desde 2018, período em que o juro máximo foi 7 por cento ao ano.
Os multimercados que costumam rodar à volatilidade maior do que 10 por cento rendem em média, desde 2019, 296 por cento do CDI (lembrando que os retornos são sempre divulgados já descontados de taxas). Sendo assim, você há de concordar comigo que, pelo menos até agora, os custos não foram suficientes para inviabilizar esses produtos.
De que fundos estamos falando? Alguns exemplos de fundos que rodam nessa faixa de volatilidade: Kapitalo Zeta, Adam Advanced e SPX Raptor. São os produtos que os gestores em geral oferecem somente ao cliente de private banking.
Então vamos descer aos produtos que costumam chegar ao varejo, com volatilidade entre 5 por cento e 10 por cento. É o caso dos fundos mais famosos dos gestores estrelados, como Nimitz, Verde e Adam Macro.
Na média, esses fundos rendem 128,78 por cento do CDI. Ainda considero um retorno satisfatório, principalmente tendo em vista que essa é uma média. Adicionando uma camada de avaliação qualitativa, acredito que aumentamos esse potencial. Como diz um especialista da Morningstar, resultados como esse dizem mais sobre as médias do que sobre os fundos.
Para ter dimensão da mudança de retornos, comparamos com 2015 e 2016, fase em que tínhamos juros de dois dígitos. O retorno médio ali foi de 131,06 por cento do CDI, não muito maior.
Talvez os defensores do crédito privado ponderem que conseguem retorno próximo a 130 por cento do CDI em CDBs. Eu defendo que com muito mais risco. Um título que paga tamanho ganho é provavelmente de uma instituição financeira com alto risco de inadimplência.
Prefiro a diversificação dos multimercados e o risco não mascarado – como o mercado de crédito é pouco líquido, volatilidade é uma péssima medida de risco.
E se os fundos cobrassem 1,5 por cento de taxa de administração? Esse retorno médio subiria para 135,58 por cento do CDI desde 2018. Eu não ia reclamar não.
Agora vamos para a faixa de volatilidade mais crítica: abaixo de 5 por cento. Os fundos que cobram 2 por cento com 20 por cento nesse segmento rendem em média 122,99 por cento do CDI.
Ficou surpreso? Eu também. Não é um retorno tão ruim assim. Entre um multimercado nessa faixa de retorno e concentrar todo o dinheiro em um único título de crédito de mesmo retorno, prefiro o primeiro.
Talvez você pense aqui que o retorno em função do CDI não é a melhor métrica agora. Os 120 por cento do CDI de hoje não são os mesmos de antigamente. Eu discordo: o custo de oportunidade também não é mais o mesmo. Precisamos comparar os multimercados com sua alternativa: ficar parado no CDI, em títulos públicos pós-fixados.
Eu arriscaria dizer, entretanto, que o retorno dos fundos de volatilidade abaixo de 5 por cento não vai sobreviver no futuro – e por isso não gosto desse tipo de produto.
Isso porque parece que o retorno relativamente elevado, para uma volatilidade baixa, está ligado ao menos em parte ao expressivo investimento em crédito privado.
Um estudo adicional reforça essa tese. Ao remover os fundos com volatilidade menor ou igual a 5 por cento e crédito privado no nome – o que significa que podem investir mais de 50 por cento do patrimônio nesse tipo de ativo – o retorno médio cai para 112,59 por cento do CDI.
Isso significa remover apenas 10 por cento da amostra, todos com crédito privado no nome, com ganho médio desde 2018 de 164,31 por cento do CDI. O retorno mostra claramente que estão recheados de ativos em que o risco não é explicado pela volatilidade.
Ao patamar mais realista, de 112,59 por cento do CDI para fundos com volatilidade menor do que 5 por cento, concordo com quem condena os multimercados: não faz sentido. Risco para você, muito ganho para o gestor, pouco ganho no seu bolso.
Mesmo que você esteja disposto a correr o risco de crédito, olhando para o futuro, não consigo ver esse movimento se repetir: os fundos que investem nesse tipo de ativo foram muito beneficiados nos últimos meses pelo ajuste nos prêmios de risco, que valoriza os papéis que carregam. E, seja como for, eles parecem classificados erroneamente. Mas isso é assunto para o futuro.
Minha conclusão (sinta-se à vontade para chegar a outras, também estou disposta a mudar a minha se você provar algo diferente): para os multimercados brasileiros que miram volatilidade maior do que 5 por cento, a taxa de 2 por cento com 20 por cento não parece punitiva à luz do custo de oportunidade, ou seja, não é suficiente para desistirmos da categoria. Para menos do que isso, ainda não também, mas há um risco de que se torne.
Há outras formas de fazer esse estudo. É evidente, por exemplo, que, se o juro caiu e a taxa não, ou seja, gestor e administrador continuam comendo o mesmo naco de retorno, o seu ganho caiu mais do que proporcionalmente.
Um exemplo: no caso dos fundos com volatilidade entre 5 por cento e 10 por cento, cerca de 15 por cento dos ganhos ficavam com o gestor lá na era de juro alto, no formato de taxas. Agora essa fatia é bem maior: de 23 por cento. Você está disposto a abrir mão de um quarto do seu retorno para um profissional alocar o seu dinheiro? Desse ponto de vista, 1,5 por cento com 20 por cento parece mais justo para essa faixa de volatilidade, não é mesmo?
A corretora Pi, filhote do Banco Santander, lançou hoje seu fundo taxa zero que investe somente em títulos públicos pós-fixados: Pi Tesouro Selic FI Renda Fixa Simples. Assim, soma-se aos produtos taxa zero do BTG Pactual Digital e à Órama como destinos óbvios para a reserva de emergência.
O principal diferencial do fundo da Pi é o mínimo, de apenas 30 reais. Assim desbanca de vez a compra do título público via Tesouro Direto, para o qual só restava a vantagem para quem gostaria de investir menos de 100 reais.
O CEO da Pi Investimentos, Felipe Bottino, também ressalta a segurança do banco, ainda tão cara aos brasileiros. O fundo é gerido, custodiado e administrado pelo Santander. “Dispensa qualquer tipo de comentário sobre solidez, que é o que um fundo para a reserva de emergência precisa ter”, defendeu para mim o executivo.
Não, não é caridade. As corretoras têm criado o fundo taxa zero para atrair clientes. A expectativa é que, com a conta aberta, eles acabem comprando outros produtos, gerando receita. O mais difícil é convencer o cara a abrir uma nova conta.
Sim, tem come-cotas, antecipação de imposto semestral. Mesmo assim, pelas nossas contas, o fundo deve ser mais rentável que o título público comprado via Tesouro Direto, em que há cobrança de 0,25 por cento ao ano.
O Cota Murcha de hoje começa com um Cota Cheia à Bolsa, que atingiu a marca de 1 milhão de investidores pessoas físicas em abril. O Tesouro Direto bateu a marca no mesmo mês. Lindo, não?
Por outro lado, vamos ao Cota Murcha: 153 milhões de pessoas ainda têm dinheiro na poupança. Dados do Banco Central apresentados pela B3. Agora o 1 milhão do parágrafo de cima pareceu pequeno, né?
Sim, há as pessoas que usam a poupança como conta corrente. Ainda assim, é gente demais apegada à caderneta, concorda?
Um estudo qualitativo da Bolsa com investidores mostrou, entretanto, que as pessoas não gostam que mexam em suas poupanças. Esse é outro dinheiro, sua segurança. Tudo bem, não vou discutir.
Só um pouquinho, porque eu não resisto: posso pedir para você pegar 5 por cento desse dinheiro e investir no Tesouro Direto, na Bolsa, em um fundo de renda fixa barato ou até, quem sabe, em um multimercado e comparar os ganhos daqui a cinco anos? Obrigada!
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