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Primeira fotografia do bilionário espanhol foi publicada apenas em 1999 no balanço da Inditex, dona da rede de lojas Zara, presente em 96 países e com 7 mil lojas
Depois da escola, um menino de 12 anos entra em uma loja com sua mãe para comprar comida, contando com a boa vontade do comerciante para vender fiado, mas sai de mãos vazias. Desta vez, o vendedor se nega a fazer negócio sem receber dinheiro em troca. Neste momento, o menino decide que está na hora de largar os estudos e começar a trabalhar. Esta cena poderia ser parte da história de qualquer criança pobre do mundo, mas foi o começo da jornada do empresário espanhol Amancio Ortega, fundador da rede de roupas Zara e atualmente o sexto homem mais rico do mundo.
“Aquilo me deixou destroçado... Isso não vai acontecer com a minha mãe nunca mais. Ficou muito claro: a partir daquele dia eu iria começar a trabalhar para ganhar dinheiro e ajudar em casa. Abandonei os estudos, deixei os livros e comecei a trabalhar em uma fábrica de camisas”, conta o empresário no livro “Así es Amancio Ortega, el hombre que creó Zara”, de Covadonga O’Shea.
A promessa foi bem mais longe do que ele poderia imaginar. Segundo a revista Forbes, sua fortuna é avaliada em US$ 62,7 bilhões no ranking de bilionários de 2019, o que faz dele o varejista mais rico do mundo.
Nascido em 28 de março de 1936, em León, na Espanha, Amancio é um dos três filhos de um ferroviário e de uma empregada doméstica. A família deixou a cidade natal e se mudou para La Coruña quando ele ainda era criança, devido ao trabalho do pai, e ali ficou.
Quando o adolescente Amancio decidiu trabalhar, encontrou emprego em uma camisaria chamada Gala, dando início à trajetória de trabalho que o levaria a criar a marca Zara. Anos mais tarde, em 1963, conseguiu iniciar um negócio próprio focado na produção de roupões para mulheres.
Chamado de Goa Confecciones, o empreendimento contava com a parceria de seus dois irmãos e da sua primeira esposa, Rosalia Mera. A iniciativa foi como o nascimento de muitos pequenos negócios: começou em uma garagem de 80 metros quadrados.
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A primeira loja da Zara foi inaugurada mais de uma década depois, em 1975, também em La Coruña. O nome original era Zorba, mas teve que ser alterado porque já existia um café com essa marca na região. A opção Zara foi escolhida por dois motivos bem estratégicos:
Bilhões de dólares depois, fica difícil imaginar Ortega precisando fazer economia. Mas quem o conhece de perto relata que ele conserva hábitos humildes. Almoça regularmente no refeitório da empresa, gosta de criar galinhas em sua casa de campo e evita aparições públicas.
Até mesmo sua forma de vestir foi pouco influenciada pela fortuna. Aos 83 anos, ele costuma ser visto sempre com o mesmo modelo: camisa branca, um blazer azul e um par de calças na cor cinza – nenhum deles da Zara –, e quase nunca usa gravata.
Diferente da maioria dos donos de empresas, Ortega não tem o costume de trabalhar em um escritório fechado, e prefere circular pelo chão de fábrica e pela área de design da Inditex, o grupo dono da Zara e outros negócios.
Seus hábitos podem ter mudado pouco, mas o seu patrimônio cresceu exponencialmente.
Uma década depois da primeira loja Zara ser aberta, foi criado o grupo Inditex, que reúne a Zara e outras marcas, como Zara Home, Massimo Dutti, Bershka, Pull&Bear, Stradivarius e Oysho.
A opção por diversificar a sua atuação em marcas independentes foi um trunfo de Ortega. Desta forma, ele conseguiu ter várias lojas com propostas diferentes, muitas vezes uma perto da outra, atendendo vários nichos de mercado e multiplicando os lucros.
A internacionalização da Zara foi outro passo importante para o crescimento do negócio, e começou por Portugal nos anos 1980. Depois foram abertas lojas em Nova York e Paris. Hoje, a Inditex está presente em 96 países e conta com 7 mil lojas, sendo 2.259 lojas da marca Zara. E tudo isso foi feito praticamente sem nenhum investimento em publicidade, pois Ortega não acredita em propaganda para expandir seu negócio.
No final dos anos 1990, várias reportagens apontavam a falta de informações sobre o executivo, e o Diário de Notícias de Lisboa chegou a duvidar de sua existência, pois nunca havia sido publicada uma fotografia dele. Nem mesmo a sua idade era sabida. As dúvidas terminaram somente em 1999, quando a sua primeira fotografia foi publicada, no primeiro balanço da Inditex, mas ele continua a ser uma pessoa discreta.
Embora Ortega já fosse um homem rico, foi no início dos anos 2000 que sua fortuna mudou de porte, com a abertura de capital da Inditex na Bolsa de Madri, em 2001. Na ocasião, a empresa captou 2,4 bilhões de euros. Ele continua a ser o acionista majoritário do grupo até hoje, com 60% das ações.
Desde o IPO, o preço da ação se valorizou de forma expressiva, passando de 3,6 euros para quase 25 euros no final de maio de 2019, tendo superado os 35 euros em 2017. As cotações acompanharam o volume de vendas da Inditex, que somente na última década passaram de 10,4 bilhões de euros (em 2008) para 26 bilhões de euros (em 2018).
A diversificação da Inditex e a internacionalização de suas marcas são dois pilares que explicam a fortuna criada por Ortega. Mas para compreender o seu sucesso é preciso entender também um conceito que é a alma do negócio da Zara: o “fast fashion”. Ele consiste em levar as últimas tendências de moda para as lojas no menor tempo possível, acompanhando de perto o que o consumidor está procurando e comprando.
Em média, uma criação da Zara consegue chegar até as lojas em duas a três semanas, menos da metade de outras grandes redes, e os pedidos feitos pelas lojas chegam em 48 horas. Outro diferencial da empresa é estar presente em todo o processo, desde a produção até a venda das roupas.
Com isso, a empresa consegue acompanhar as tendências e inclinações da clientela e alimentar a indústria com estes dados, praticamente em tempo real. É assim que a Zara consegue entregar o que o cliente quer, e rápido.
Apesar de ter sido um modelo eficiente até hoje, o fast fashion também pode ser um desafio para a Inditex no futuro, pois as gerações mais jovens têm se mostrado mais preocupadas com questões de sustentabilidade. Segundo uma pesquisa recente da Nielsen, 73% dos millennials (nascidos entre 1977 e 1995) demostraram estar dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis.
A forma de lidar com os novos consumidores será decisiva para a companhia no futuro. Vale lembrar que a Zara já foi envolvida em acusações de trabalho escravo no Brasil. Em seu site, a Inditex declara que assume a responsabilidade de assegurar o respeito aos Direitos Humanos em toda a sua cadeia de atuação.
Enquanto tiver saúde, é de se esperar que Ortega continue a acompanhar de perto o andamento dos negócios. Ele entregou o cargo de presidente da Inditex para Pablo Isla em julho de 2011, mas continua no conselho de administração e ainda participa do dia a dia da empresa.
Parte do dinheiro que ganhou no varejo Ortega investiu em outro mercado: o imobiliário. E foi com esses negócios que ele conseguiu transformar alguns dos seus “colegas” no ranking dos bilionários em seus inquilinos. As empresas de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Larry Page têm alguns de seus escritórios em edifícios que pertencem a Ortega. Um de seus investimentos mais recentes foi justamente a compra da sede da Amazon em Seattle, nos Estados Unidos, por 659 milhões de euros.
Ortega é dono da maior imobiliária da Espanha, que compra, vende e aluga grandes edifícios corporativos na Europa, Estados Unidos e Ásia. Entre seus inquilinos na Espanha estão o Facebook, o Google, a Apple e até a concorrente H&M.
Atualmente, ele vive em La Coruña com a sua segunda esposa, Flora Pérez, com quem é casado desde 2001. A filha do casal, Marta Ortega, é tida como a herdeira mais provável no comando da Inditex, embora ele tenha outros dois filhos do primeiro casamento.

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