A estrela solitária
Denúncia contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, revela origem do mal-estar nos bastidores da política entre Legislativo e Executivo

Uma denúncia contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, revela a origem do mal-estar recente nos bastidores da política entre o Legislativo e o Executivo e ainda explica a dificuldade na tramitação da reforma da Previdência. Perícia em sistemas da Odebrecht indica repasse de R$ 1,4 milhão para campanhas do “Botafogo” e “Inca”, codinomes atribuídos respectivamente a Maia e seu pai, César Maia.
A procuradora-geral da República, Raquel Dogde, pediu mais 60 dias para concluir um inquérito que investiga o presidente da Câmara. Caberá ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidir se prorroga ou não o prazo. Segundo a PGR, a Polícia Federal ainda precisa dar continuidade às investigações e levantar informações conclusivas.
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Ao que tudo indica, já era sabido entre a elite da classe política que o cerco estava se fechando em torno do presidente da Câmara, indo muito além da prisão do ex-presidente Michel Temer e seu ex-ministro, sogro de Maia, Moreira Franco. Mais que isso, tal hipótese explica a relação difícil entre Maia e o presidente Jair Bolsonaro. Não se tratava, portanto, apenas de uma incapacidade do governo na articulação política com o Congresso.
Mas, principalmente, de um “jogo duro” por parte de Maia, que poderia ter buscado respaldo do Palácio do Planalto, em troca de apoio no andamento da proposta de reforma da Previdência e de facilidade na negociação com os parlamentares. Maia, porém, viu-se sozinho, na mira direta da Lava Jato e, agora, pode trabalhar contra o governo, tocando a agenda econômica de modo a usá-la a seu favor.
Pressão política na reforma
Essa tensão política pode aumentar nos próximos dias, travando o andamento da reforma da Previdência na Câmara, que já vinha encontrando obstáculos. A posição do Centrão, de inverter a pauta de votação na CCJ, com a proposta do Orçamento impositivo sendo colocando à frente da análise do parecer da Previdência, compromete o calendário na semana que vem, com a apreciação do texto ocorrendo somente após a Semana Santa.
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É válido lembrar que a proposta que engessa ainda mais as contas do governo foi votada às pressas no plenário da Câmara e foi vista como uma resposta do Congresso ao mal-estar com o presidente Bolsonaro, em meio à imposição da “nova política”, sem a troca de cargos ou liberação de verbas. Contudo, parece que a “velha política” irá se alinhar a Maia, uma vez que os casos de propina são generalizados e o governo segue sem base aliada.
Com isso, as discussões sobre a reforma da Previdência ganham certo nível de indefinição. E o mercado financeiro brasileiro tende a colocar no preço dos ativos o risco de atraso no cronograma - não apenas da votação da reforma na CCJ. Essa demora reduz a confiança dos investidores, que já estão está cada vez mais descrentes na capacidade do governo em angariar apoio para acelerar a tramitação da proposta.
Ao que tudo indica, o encaminhamento da reforma da Previdência para a comissão especial se dará já no início de maio, após mais um feriado, prolongando a discussão sobre o assunto ainda nas fases iniciais. É bom lembrar que é nessa comissão, com até 40 sessões, que podem haver mudanças no texto original do governo, “desidratando” a proposta da equipe econômica e reduzindo a economia fiscal.
Exterior pode trazer alívio
Apesar do ambiente político mais tenso em Brasília, o cenário externo pode trazer algum alento aos negócios locais. Os mercados internacionais recebem com alívio a recuperação da balança comercial chinesa em março, após o tombo em fevereiro, em meio às distorções por causa do feriado do Ano Novo Lunar.
As exportações da China subiram 14,2% no mês passado, em base anual, depois de cair 20,7% no mês anterior. A previsão era de alta bem menor, de 8,7%. Já as importações recuaram 7,6%, na mesa base de comparação, intensificando o ritmo de queda, após ceder 5,2% em fevereiro. A estimativa era de baixa menor, de -1,2%.
Com isso, o superávit da balança comercial chinesa alcançou US$ 32,64 bilhões em março, ficando bem acima do resultado positivo de US$ 4,12 bilhões em fevereiro e da previsão de +US$ 6 bilhões. Ainda assim, as bolsas asiáticas encerraram a sessão com um desempenho misto, contaminadas pela comportamento lateral em Wall Street na véspera.
Hong Kong e Tóquio subiram 0,3% e +0,7%, ao passo que Xangai ficou de lado, com -0,04%. No Ocidente, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York têm alta firme, tentando embalar a abertura do pregão na Europa, que é pressionada pelas ações de bancos e montadoras.
Nos demais mercados, o dólar perde terreno para as moedas rivais, de países desenvolvidos e emergentes, ao passo que o título norte-americano de 10 anos (T-note) volta a ser negociado acima de 2,50%. Entre as commodities, o petróleo avança, com o barril do tipo WTI caminhando para a sexta semana seguida de alta. O cobre também sobe.
Como pano de fundo, o mercado financeiro ainda ecoa os alertas dos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed) e da zona do euro (BCE) sobre a perda de tração da economia global e o desempenho sem brilho da atividade neste início de ano. Ao mesmo tempo, a política monetária está pouco estimulativa, com capacidade limitada para minimizar tal efeito.
Assim, cresce a cada dia o sentimento de que a economia mundial está se desacelerando. E o fim das incertezas em relação às negociações comerciais entre EUA e China e sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) ganha importância, pois esses focos de tensão têm potencializado o impacto na economia global.
Agenda segue fraca
A semana chega ao fim com uma agenda econômica mais fraca. No Brasil, destaque apenas para o desempenho do setor de serviços em fevereiro (9h). Os números, combinados com os dados sobre o varejo e a indústria no mesmo período, tendem a lançar luz sobre o ritmo da atividade doméstica no início deste ano.
Aliás, no exterior, merece atenção o resultado da produção industrial na zona do euro em março, logo cedo. Pela manhã, saem os preços de importação e exportação nos Estados Unidos em março (9h30), além da leitura preliminar deste mês sobre a confiança do consumidor norte-americano (11h).
Na safra de balanços nos EUA, destaque para os resultados dos bancos JP Morgan e Wells Fargo referentes ao primeiro trimestre deste ano, antes da abertura do pregão em Wall Street.
Conteúdo Empiricus
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