Menu
2019-04-20T17:00:28+00:00
Marina Gazzoni
Marina Gazzoni
Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com MBA em Informação Econômico-Financeira e Mercado de Capitais no Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Foi editora de Economia do G1 e repórter de O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo e do portal IG.
CONTA DIGITAL

Should I stay or Should I go? O dia seguinte da Neon Pagamentos

Financeira teve operação suspensa em maio após a quebra de banco parceiro homônimo e viveu o desafio de acalmar – e reter – clientes desesperados

25 de setembro de 2018
5:56 - atualizado às 17:00
Pedro Conrade, CEO da Neon Pagamentos
Pedro Conrade, CEO da Neon Pagamentos - Imagem: Raphael Lopes/Seu Dinheiro

Uma coisa que eu aprendi nos meus primeiros anos como repórter de economia: um banco nunca deveria dar prejuízo, muito menos quebrar. Quando isso acontece, algo está muito errado e aí tem notícia. Na sexta-feira, 5 de maio, recebi um comunicado de que o Banco Neon sofreu uma liquidação extrajudicial do Banco Central. Sinal de alerta piscou na minha cabeça e mobilizei a equipe toda de economia do G1 para cobrir o caso.

O Banco Neon, uma instituição mineira bem enrolada e com apenas uma agência, importava pouco para o mercado. O caso ganhou relevância porque colocou na berlinda os negócios da fintech homônima, a Neon Pagamentos, que na época dizia ter mais de 600 mil contas ativas. Por ser uma instituição pagamento – e não um banco- a Neon precisava de um parceiro habilitado no Banco Central para movimentar suas contas digitais. Como o banco parceiro se encrencou, a Neon Pagamentos teve suas operações suspensas na ocasião.

Ela foi uma das primeiras fintechs a oferecer um conta digital para os brasileiros. Com um serviço mais ágil, mais amigável e muito mais “cool” que o dos bancos tradicionais, conseguiu rapidamente uma boa carteira de clientes.

Dias depois de ter a operação suspensa, a Neon fechou uma parceria com o banco Votorantim e conseguiu restabelecer os serviços – exceto o cartão de crédito. A dúvida que ficou no ar era se o amor dos clientes – e especialmente, a confiança - sobreviveria à primeira crise.

Meses depois, já na equipe do Seu Dinheiro, pedi uma entrevista com o Pedro Conrade, presidente da Neon. Era um teste para aquele jovem líder de 26 anos. Um comportamento comum dos CEOs é falar quando tem notícia boa e, quando há um problema, se manifestar por meio de comunicados e da equipe de relações públicas.

Conrade aceitou me receber na sede da Neon. Com um sorriso simpático no rosto, ele me disse que o incidente era “página virada” para a empresa.

“Isso nem é mais assunto aqui dentro. Só lembro quando falo com jornalistas.”

E qual é o assunto hoje? “Como nós vamos crescer, melhorar a operação e trazer novos produtos”. Conrade disse que a Neon está trabalhando em uma solução de conta digital para as pequenas empresas e estratégias para crescer em ritmo de fintech – 10%, 20% ao mês. Está no forno também o lançamento do cartão de crédito do Neon. “Precisamos fazer uma integração financeira com o novo parceiro. Mas está na cara do gol”, afirmou.

Não quero ser banco

Logo depois do incidente com o Banco Neon, o Banco Central liberou para as fintechs a possibilidade de virar banco. Era a chance das fintechs de dar seu grito de independência.
Pedro Conrade diz que não tem interesse em transformar a Neon Pagamentos em banco. Para ele, a busca do registro é uma complexidade desnecessária, que só vai gastar energia da equipe. “É uma complexidade que não é o core. Uma startup morre na praia se fizer tudo ao mesmo tempo.”

Os clientes saíram ou ficaram?

“O número de contas canceladas foi irrisório. Muito pouco mesmo e já superamos isso”, disse Conrade. Ele afirmou que a empresa conseguiu ainda mais clientes este ano e atingiu 1 milhão de contas abertas.

O fato é que, como a Neon não cobra taxas, o número de contas abertas não é o indicador mais relevante. O que importa mesmo é quantas pessoas mantêm dinheiro nas contas digitais e qual o volume disponível. E essa informação o Neon não abre, nem o Banco Central.

“Quando tudo aconteceu, pensei: ‘ferrou, 95% das pessoas vão tirar o dinheiro’. No domingo já sabia que não iam tirar mais. As pessoas estavam torcendo pelo banco. Se tivéssemos demorado mais de uma semana (para fechar com o Votorantim), teria talvez perdido 95%”, conta Conrade.

Como a Neon não abre os números de saques, pedi para os repórteres Fernando Pivetti e Luis Ottoni procurarem os clientes insatisfeitos para saber deles como está hoje a relação com o banco. Ele ouviram 5 pessoas que se manifestaram contra o banco no site Reclame Aqui na época do bloqueio. Veja o que eles fizeram e seus relatos:

  • Um cancelou a conta;
  • Dois sacaram o dinheiro, mas ainda são clientes da Neon;
  • Dois voltaram a usar os serviços do banco e elogiaram o atendimento – mas um deles ainda tem medo de comprar CDBs.

Matheus Amaral,19 (estudante) - São Paulo/SP

"O dinheiro que eu tinha aplicado ficou bloqueado. Eu fiquei um tempo com medo de perder o dinheiro até que a Neon avisou que tinha a garantia do FGC. Assim que liberaram o dinheiro, eu saquei da conta. Mas a minha conta continua aberta."

Mariana Ghizini Bougeard, 40 (administradora de dados) - Florianópolis/SC

“Tive problemas com depósito feito no mesmo dia da liquidação e que não tinham sido efetivado. Resolveram em uma semana. Confesso que fiquei um pouco contrariada, mas não pensei em encerrar a conta. Procurei o Neon porque queria uma conta que não cobrasse taxas. Quando chegar meu cartão vou parar de utilizar os cartões dos outros bancos que tenho conta.”

Marcelo Cielo, 29 (artista visual e designer) - São Paulo/SP

"Aguardava o pagamento de um freela e fiquei desesperado. Tudo foi resolvido através do aplicativo. Eu tinha investimento em CDB e logo que liberaram o resgate tirei de lá. Em relação a minha conta, estou bem tranquilo. Mas fiquei receoso com o investimento em CDB."

João Claudio, 20 - auxiliar administrativo – Aricanduva/MG

"Essa foi a minha primeira conta em um banco e usava para pagamentos. Alguns boletos não foram pagos e só soube quando fui cobrado, com juros. Ainda tenho a conta aberta, mas estou usando outro banco, uma marca grande, porque fiquei com o pé atrás com eles."

Giovanny Melo, 23 anos - analista de Suporte - Ribeirão Preto (SP)

"Fiquei em pânico quando comecei a ler as notícias na internet falando que o banco tinha quebrado. Tinha investimentos em CDBs e tentei sacar tudo imediatamente, mas não consegui. Assim que liberaram minha conta, transferi todos os meus investimentos para outro banco. A princípio tinha decidido deixar minha conta aberta e só usar em situações emergenciais. Agora acabei fechando. Não confio mais."

Empresa resistiu, mas com trauma

"O relato dos clientes deixa claro que muitos ficaram traumatizados, embora ainda mantenham a porta aberta para uma nova relação com o banco. Afinal, que brasileiro não tem alguma reclamação sobre o serviço bancário? O incidente até pode ter atrasado um pouco os planos do Neon, mas está longe de ter decretado a morte precoce da empresa."

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
A REVOLUÇÃO 3.0 DOS INVESTIMENTOS

App da Pi

Aplique de forma simples, transparente e segura

Startup no banco dos réus

STJ vai decidir se condomínios podem proibir aluguéis por aplicativos como Airbnb

Tribunal julga recurso para anular uma decisão que proibiu um casal de Porto Alegre de alugar um apartamento por meio do aplicativo Airbnb

Santiago em chamas

Chile põe Exército nas ruas após protestos que deixaram três mortos

Manifestantes saíram às ruas contra o aumento de preço do metrô de Santiago, que passaria do equivalente a US$ 1,12 para US$ 1,16. Ontem, o governo anunciou a suspensão do reajuste

Seu dinheiro no domingo

Bancão X Fintech, um duelo que vi ao vivo

Você pode apostar comprando ou vendendo ações dos bancos e fintechs na bolsa. A batalha está longe de acabar, mas já temos o ganhador, o cliente

Varejo

Compras pela internet devem crescer 18% na Black Friday deste ano

Expectativa para a Black Friday de 2019 no e-commerce é de faturamento acima de R$ 3 bilhões. O dia de promoções no varejo neste ano será em 29 de novembro

Disputa política

Eduardo Bolsonaro publica vídeo com campanhas do PSL que citam presidente

No vídeo, protagonistas da nova crise, como os deputados Delegado Waldir (PSL-GO) e Joice Hasselmann (PSL-SP), pedem votos para si próprios mencionando Bolsonaro

Débito e crédito

Luiz Frias: o empresário da mídia que virou bilionário com as maquininhas

Conheça o herdeiro da Folha de S.Paulo e entusiasta da internet que revolucionou mercado de meios de pagamentos no Brasil com a PagSeguro

Ações para uma vida

Conheça os 5 maiores investimentos da carteira do bilionário Warren Buffett

Em junho deste ano, a holding de Warren Buffett detinha na carteira ações de 47 companhias. Mas cinco delas representavam 69% do total em valor de mercado. Confira quais são as queridinhas do “oráculo de Omaha”

QUER GANHAR DINHEIRO?

5 estratégias para lucrar na bolsa olhando apenas os gráficos

Quem souber interpretar esses movimentos pode ter insights valiosos sobre a tendência de preços.

Impasse sem fim

Hoje não? Hoje sim. Parlamento britânico volta a adiar votação sobre acordo do Brexit

Foi um duro golpe para primeiro-ministro Boris Johnson, que poderá se ver obrigado a pedir à União Europeia o adiamento da saída do Reino Unido

Sócios na bolsa

Banco do Brasil atrai mais de R$ 7 bilhões em recursos de pessoas físicas em oferta de ações

Uma parcela de 30% da emissão do Banco do Brasil foi destinada ao varejo, embora a demanda fosse suficiente para cobrir o total da oferta, de R$ 5,8 bilhões

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements