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Em meio à recuperação judicial, operadora espera mudança no marco regulatório e chama a atenção de investidores como George Soros e Victor Adler, mas está longe de resolver problemas
Eu preciso confessar: sou fã de novelas. Uma trama bem escrita, com interpretações contundentes, uma direção primorosa e com uma pegada na atualidade, na minha opinião, consegue ser tão boa quanto um bom livro.
É claro que a maioria dos enredos que se sucedem nas telinhas não preenche todos esses quesitos, mas existem ótimos exemplos de dramalhões globais, desde as icônicas Roque Santeiro e Vale Tudo, passando pelo humor de Rainha da Sucata e Guerra dos Sexos, o romantismo de A Cor do Pecado e Além do Tempo, o suspense de A Favorita e A Próxima Vítima, até o “fenômeno” Avenida Brasil que fez, literalmente, o país parar para assistir o último capítulo em 2012.
O megainvestidor George Soros também parece gostar de um bom novelão. No mês passado, a despeito de todo o imbróglio envolvendo a operadora de telefonia Oi, que nos últimos três anos vem encabeçando a maior recuperação judicial da América Latina, o Soros Fund Management aumentou em 123,36% a sua participação na empresa.
Apesar de dobrar a aposta, a fatia do fundo na companhia é pequena, está abaixo dos 5% do capital social, e gira em torno de US$ 8 milhões. Eu não sei se Soros está inteirado de todos pormenores da trama da Oi, mas esta é uma “soap opera” que acompanho desde os tempos de trainee...
Em 1998, a antiga operadora estatal do Rio de Janeiro, Telerj, deu origem à Telemar, que em meio à privatização do setor de telecomunicações promovida pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso ficou responsável por nada menos que 16 Estados do Norte, Nordeste e Sudeste do país.
Desde então houve uma sucessão de percalços: a empresa trocou de assinatura (passou a adotar o nome Oi, antes destinado apenas à telefonia móvel, após o desgaste com as reclamações envolvendo o nome Telemar); comprou outra concessionária, a Brasil Telecom, com a ambição de se tornar uma “supertele nacional”, operação criticada por receber bilhões de dinheiro público; participou de uma fusão malsucedida com a europeia Portugal Telecom, que aumentou ainda mais o seu passivo.
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O endividamento se tornou estratosférico – R$ 65 bilhões – e, no final de 2016, a Justiça aprovou o plano de recuperação judicial da Oi. Tudo isso em meio à beligerante disputa acionária entre a Pharol (ex-Portugal Telecom) e a Société Mondiale (de Nelson Tanure), que contribuiu para que a empresa somasse nada menos que 14 presidentes em 21 anos de vida – um ano e meio de mandato, em média, para cada um. O penúltimo presidente, Marco Schroeder, chegou a registrar em ata ter sofrido ameaças à sua integridade física.
A dúvida que fica ao final dessa temporada é: se a vida não está fácil para a Oi – palco de conflitos de interesse, motivados por soberba, ambição, ira e inveja – por que George Soros resolveu aumentar a aposta na companhia? Será que é a hora de o investidor brasileiro, literalmente, seguir o mestre?
Outro investidor conhecido que assumiu uma posição relevante na Oi foi Victor Adler, que passou a deter 5,32% do capital da operadora por meio de um fundo. Adler é também um dos principais acionistas da Eternit, outra empresa que está em recuperação judicial.
Há quem recomende, com cautela, a compra dos papeis, ancorada na esperança da aprovação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, que cria um novo marco das telecomunicações no Brasil. Mas alguns especialistas que eu ouvi pedem mesmo que o investidor fique com um pé atrás e não assuma papel de coadjuvante nessa trama, contentando-se em sentar na janelinha para assistir aos próximos capítulos.
A recente renúncia do conselheiro independente Ricardo Reisen no início do mês é a prova de que as coisas não mudaram muito na governança da Oi, que no passado chegou a tomar dívida para pagar dividendos aos seus acionistas.
“Reisen pediu demissão porque votou contra a remuneração de conselheiros com ações da companhia”, diz me disse um analista que acompanha a operadora. Não há nada de errado neste tipo de prática, mas não é o momento, ressalta.
Para o analista, a compra de ações da Oi só faz sentido para quem aposta no sucesso de três fatores que ainda permanecem como incógnita no mercado: a aprovação do PLC 79 (que na prática retira das teles as obrigações de concessão de serviço público de telefonia fixa, e elas passam a operar o serviço como autorizadas); a compra da Oi pela TIM e a consequente sinergia entre os serviços das operadoras; a execução bem-sucedida dessa fusão. “Caso contrário, babau”, diz o analista.
Oficialmente, Ricardo Reisen protocolou uma carta de renúncia e disse que a sua saída se deve a motivos pessoais. Mas deixou claro no texto a necessidade de novos aportes de capital na companhia para enfrentar os tempos bicudos e deu uma cutucada nos acionistas:
“A título meramente especulativo, a discussão de alternativas estratégicas ou táticas tais como, a extensão da RJ como forma de proteção legal à companhia por mais um período ou, o aporte, de agora sim, novos recursos de fato por parte dos acionistas, são alternativas a serem exaustivamente exploradas e justificadas”, afirma Reisen na carta.
“A última é particularmente um interessante exercício para testar a falácia da entrada recente de, assim chamados, novos recursos, uma vez que o aporte de cerca de R$ 4 bilhões era parte inerente do PRJ [plano de recuperação judicial], sem os quais todos os stakeholders perderiam suas posições, com todos, portanto, já tendo ajustado seus retornos financeiros para tal evento. Com relação a este último ponto, vale destacar que os principais bondholders/acionistas backstoppers se remuneraram por tal fato, bem como todos os acionistas que aportaram recursos viram seu capital apreciar cerca de 30% no período”.
Entre as casas que mantêm a recomendação de compra para Oi está o Bradesco BBI. “Em termos operacionais, a situação é complicada, e 2021 já será um problema se não houver a reforma do setor de telecomunicações”, diz Fred Mendes, analista do banco. Segundo ele, mesmo com a aprovação do PLC 79, a Oi precisa ser comprada ou se unir a alguém.
“Mas a ação traz uma relação risco/retorno interessante, pelo fato de a Oi ser a operadora mais beneficiada com a mudança na LGT [Lei Geral de Telecomunicações]”, diz.
Para Mendes, a ação tem potencial para subir de 20% a 30%. O analista do Bradesco BBI lembra que a operadora gasta cerca de R$ 600 milhões por ano para cumprir as obrigatoriedades por ser uma concessão – enquanto a Vivo, da espanhola Telefónica, que tem a concessão para o Estado de São Paulo, desembolsa algo entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões.
“Pelas regras atuais, a Oi tem até sete dias para instalar uma linha fixa em qualquer lugar do país, por mais difícil que seja o acesso, caso contrário é multada”, diz. Na opinião de Mendes, todo esse dinheiro gasto com concessão, a partir da aprovação do PLC 79, poderia ser aplicado em banda larga, o foco de todas as operadoras.
O projeto de lei, porém, está parado com a relatora, senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), que não informa prazo para concluir o seu parecer.
“A lei precisa ser atualizada. Em 1998, a telefonia fixa era o grande produto, mas hoje é a banda larga, com o FTTH”, diz Mendes, referindo-se aos investimentos em “fiber to the home”, a tecnologia que coloca fibra óptica dentro da residência (como faz a Vivo). Trata-se de um investimento mais caro do que a rede de cabo (como faz a NET), mas é a opção mais adequada para quem deseja explorar as novas tecnologias. A própria Oi já disse que o FTTH é uma das suas prioridades.
“Nos primeiros dias de 2019, concluímos o aumento de capital proposto no plano de recuperação judicial, de R$ 4 bilhões, que está financiando a aceleração do plano de investimentos, que é a base para a reestruturação do negócio. O foco é FTTH oferecendo banda larga de alta velocidade, e expansão da rede 4G e 4,5G, preparando-a para a tecnologia 5G, quando estiver disponível no país”, disse a operadora, por meio de sua assessoria de imprensa.
Em resposta aos questionamentos do Seu Dinheiro sobre o andamento do plano de recuperação judicial, a companhia informou que hoje é assessorada por três consultorias. “Oliver Wyman, que atua no gerenciamento da implantação de fibra em um nível de granularidade extremamente alto para conseguir retornos mais altos; o BCG, que está revisando o plano estratégico da Oi, olhando para a companhia no longo prazo e elaborando os planos de execução; e o Bank of America, que está trabalhando na venda de ativos não essenciais e oportunidades de M&A, garantindo o financiamento necessário para a implementação do plano estratégico”.
Na opinião do analista do Bradesco BBI, todas as operadoras seriam beneficiadas de certa maneira com o PLC, que aumenta a previsibilidade para o investidor. As mudanças podem ser mais favoráveis a quem tem concessão de telefonia fixa – Oi e Vivo –, mas a primeira ainda teria mais vantagens, por conta dos custos com o tamanho da sua operação. A Claro, do grupo mexicano América Móvil, já opera nas três frentes da telefonia – móvel, fixa e banda larga, essas últimas com as marcas NET e Embratel.
Para a italiana TIM, porém, falta a conexão direta com o cliente na banda larga – o TIM Fiber tem alcance limitado. Neste sentido, para muita gente, a fusão da TIM, vice-líder em telefonia móvel, com a Oi, dona de uma rede de 360 mil quilômetros no país, e uma base de 56,6 milhões de clientes, seria perfeita.
“Mas será que a Oi vale o tamanho da dívida?”, questiona um fornecedor do setor de telecom. Segundo ele, a Oi tem feito a lição de casa, pagando os fornecedores em dia, voltando a investir, mas precisa de mais capital para se manter competitiva.
Se não passar à alçada da TIM, é possível que seja fatiada entre os principais concorrentes, dependendo das mudanças na lei. “A venda de partes da Oi facilitaria a vida da concorrência, que ficaria sem um rival e cada uma com o pedaço que lhe interessa da operadora”, afirma.
Para ele, faria mais sentido o governo fomentar o mercado das operadoras regionais, que se tornariam parceiras das grandes teles para chegar até a casa do cliente, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos. Fora isso, existe a própria evolução da tecnologia, com a chegada do 5G, uma realidade no setor em 2021. “Se eu sou a TIM e tenho 5G, que permite a banda larga ultrarrápida no celular, será que eu vou precisar estar na casa do assinante com fibra?” Para saber a resposta desta e de outras questões, leitor, é preciso ficar ligado nas cenas dos próximos capítulos.
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