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Com a tramitação da reforma da Previdência superando as fases cruciais, o mercado começa a pensar nos próximos fatores que podem influenciar o Ibovespa e os demais mercados brasileiros. Ainda há potencial de alta para as ações, mas os ganhos tendem a ser menores que os vistos no primeiro semestre
Se você esperava lucrar investindo na bolsa depois da aprovação da reforma da Previdência, apostando numa alta firme do mercado acionário brasileiro a partir de agora, nós temos duas notícias para você: uma ruim e outra boa.
Comecemos, então, pelas más novas: boa parte desse movimento de valorização já aconteceu. Ou seja, quem preferiu não correr riscos e esperou pela aprovação do projeto no plenário da Câmara em primeiro turno acabou perdendo grande parte do rali da Previdência, que levou o Ibovespa a subir quase 20% só neste ano.
Mas não há motivo para desespero: embora a reforma não seja mais um gatilho relevante, a bolsa ainda tem espaço para subir. Só que, a partir de agora, a alta das ações deve vir da melhora esperada para a economia e do lucro das empresas listadas na B3.
Vale ressaltar que a tramitação da reforma da Previdência ainda não foi concluída — o texto precisa ser votado em segundo turno pelos deputados e, posteriormente, ser debatido e apreciado pelo Senado. No entanto, a primeira etapa do pleito na Câmara era vista como crucial pelo mercado.
E a obtenção do sinal verde na votação da última quarta-feira (10) com uma ampla margem de folga — a pauta obteve 379 sinalizações favoráveis, bem acima do piso, de 308 votos — deu sustentação às visões construtivas que as casas de análises e grandes corretoras possuem para o mercado acionário brasileiro.
Para o BTG Pactual, por exemplo, o Ibovespa pode subir até o patamar de 119 mil pontos até o fim do ano — um potencial de ganhos de mais de 10% em relação aos níveis atuais, ao redor dos 105 mil pontos. E uma mistura de otimismo em relação às perspectivas econômicas com questões técnicas está por trás dessas projeções.
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"Uma parte grande da expectativa já foi precificada no mercado de curtíssimo prazo", afirma Carlos Sequeira, chefe de pesquisa de ações da instituição para a América Latina. "Não há muito potencial [para alta da bolsa em 2019], mas ainda há algum espaço".
Ele ressalta que, apesar do rali visto na bolsa desde o início do ano, a aprovação da reforma da Previdência tende a provocar uma redução nos juros reais — o que, consequentemente, irá diminuir o custo de capital das companhias e aumentar o potencial de lucro das empresas daqui para frente.
E essa perspectiva de melhora nos resultados corporativos abre espaço para que o Ibovespa continue subindo, ressalta Sequeira. "Além disso, há um movimento de fluxo em direção ao mercado de ações", diz ele. "Mas, olhando mais para frente, a alta do índice vai depender do crescimento do lucro das empresas".
Outras grandes casas de análise também continuam enxergando potencial de alta para o Ibovespa. É o caso do Bradesco BBI, que elevou seu preço-alvo para o índice de 116 mil para 122 mil pontos, e do Bank of America Merrill Lynch, que reafirmou sua projeção em 120 mil pontos, ambos após a aprovação da Previdência no primeiro turno na Câmara.
Boa parte dos ganhos esperados com a aprovação da reforma aconteceu nos últimos três meses, quando o Ibovespa acumulou uma valorização de 14% em dólar, contra apenas 3% das bolsas americanas, segundo Paulo Clini, responsável pela área de investimentos da gestora de fundos Western Asset.
Isso significa que, se você pretende entrar na bolsa, precisa ter o médio prazo em mente, deixando de lado as expectativas de lucro num curto prazo de tempo, já que não há a expectativa de um novo “rali” como o que ocorreu nos últimos meses.
Nesse cenário, a Western tem procurado empresas listadas na bolsa que possam se beneficiar da recuperação esperada da economia, entregando um crescimento de lucros acima da média. Clini não citou ações específicas, mas disse que algumas companhias do setor de varejo e os bancos têm esse perfil.
Já Sequeira, do BTG Pactual, acredita que o comportamento da bolsa como um todo tende a seguir a mesma toada vista no primeiro semestre: ações de empresas ligadas à economia doméstica e que se beneficiam com a redução dos juros — em especial, companhias dos setores de consumo e construção civil — devem continuar indo bem.
Passada a Previdência, o mercado já começa a vislumbrar as próximas etapas da pauta econômica do governo Bolsonaro. E dois temas começam a despontar entre os analistas e agentes financeiros: a agenda de privatizações e a reforma tributária.
No front da venda de ativos, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu em junho que o governo pode se desfazer de subsidiárias de empresas estatais sem a necessidade de lei, o que tende a acelerar as privatizações e desinvestimentos a serem conduzidos por empresas como a Petrobras ou a Eletrobras.
No lado da reforma tributária, há a perspectiva de que as discussões continuem evoluindo em Brasília. No entanto, os especialistas ponderam que, para tal, é preciso que o governo se empenhe para melhorar a articulação com o Congresso, uma vez que o amplo apoio recebido pela Previdência não necessariamente irá se repetir nas demais pautas.
"Ainda é preciso ter clareza sobre o quão duradouro é o equilíbrio alcançado entre o Congresso e o Executivo", diz Vladimir Caramaschi, estrategista-chefe da Indosuez Wealth Management. "Ainda é uma situação bem pouco usual e que pode prejudicar o andamento de outras pautas importantes para a economia".
Clini, da Western, assume uma posição semelhante, embora mostre-se otimista com a bolsa. "Tem mais por vir, agora menos em razão da reforma e mais em decorrência da melhora do ambiente econômico", diz ele.
A aprovação da reforma na Câmara praticamente eliminou a última barreira para que o Banco Central poderia oferecer ao início de um novo ciclo de queda da Selic, a taxa básica de juros. E como ficam as suas aplicações de renda fixa nesse cenário?
Quem investe pelo Tesouro Direto e viu o retorno dos títulos de longo atrelados à inflação (Tesouro IPCA) disparar no primeiro semestre provavelmente não verá o fenômeno se repetir agora na segunda metade do ano. Mesmo assim, os preços atuais dos títulos ainda embutem algum espaço para ganhos.
Além da ampla expectativa de redução dos juros por aqui, também há uma tendência de queda nas taxas no exterior, em meio às preocupações com a desaceleração da economia global. De todo modo, os ganhos na renda fixa hoje parecem mais limitados do que os da bolsa, afirma Clini, da Western.
"A renda variável está mais atrativa, mas também embute mais riscos", diz ele.
A aprovação da reforma da Previdência também deve reduzir a pressão sobre o câmbio. Embora seja reconhecidamente o ativo cujo comportamento é mais difícil de se prever, Caramaschi, da Indosuez, acredita que o dólar poderá seguir caindo, mas vê espaço ainda menor para alívio no mercado de moedas.
Clini também pondera que há um pequeno potencial para uma queda adicional do dólar. Mas nada que vá animar demais os potenciais viajantes à Disney: para ele, a moeda americana pode recuar até a faixa entre R$ 3,60 e R$ 3,70.
Considerando que o dólar à vista encontra-se perto do nível de R$ 3,75, trata-se de um potencial de baixa de 1% a 4% — desde o início do ano, a divisa acumula queda de 3%.
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