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BTG Pactual avalia os pontos fortes e os pontos fracos do país vizinho e diz o que esperar daqui para frente

A Argentina dança seu próprio tango: passos firmes para um lado, recuos inesperados para o outro. Uma coreografia errática que o BTG Pactual descreve como “modo zigue-zague” — enquanto o comércio exterior bate recordes e ajuda o banco central a encher os cofres com dólares, a atividade econômica real patina.
Do lado dos passos firmes está a conta corrente da Argentina — que mede as trocas do país com o exterior —, que fechou novamente no azul em maio, somando US$ 1,9 bilhão.
Esse é o segundo mês seguido de resultado positivo, depois dos US$ 1,3 bilhão registrados em abril. Nos últimos 12 meses, esse saldo acumula US$ 4,3 bilhões, equivalente a cerca de 0,6% do PIB do país.
O destaque foi a balança comercial, que atingiu US$ 4,3 bilhões no mês passado — o maior valor da história, descontados dois períodos excepcionais (setembro de 2022 e setembro de 2025) em que programas especiais de incentivo turbinaram as exportações do agronegócio.
As exportações argentinas somaram US$ 9,3 bilhões em maio, alta de 16,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Os destaques foram o setor de óleo e gás, com salto de 83%, puxado pela exploração da bacia de Vaca Muerta, e a mineração, que mais que dobrou (alta de 104%).
Já as importações caíram 19,1% no mesmo período, e essa fraqueza generalizada nas compras externas também ajudou a inflar o saldo positivo.
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Um ponto que chama atenção do BTG é a forma como a Argentina tem conseguido acumular reservas em dólar.
Segundo os analistas, o Banco Central da Argentina (BCRA) já comprou US$ 11,1 bilhões no mercado oficial de câmbio neste ano, mas o motor por trás disso não é exatamente o comércio exterior — e sim a emissão de dívida em dólares por empresas e províncias argentinas, tanto dentro quanto fora do país.
Essa dependência preocupa os analistas para a segunda metade do ano.
Se as empresas decidirem reduzir a emissão de dívida — por exemplo, antecipando um cenário mais desafiador às vésperas do ciclo eleitoral do próximo ano —, ou se as famílias argentinas aumentarem a compra de dólares como proteção, o ritmo de acúmulo de reservas deve desacelerar.
O banco também menciona que o governo argentino tem resistido à ideia de emitir um bônus internacional em dólares, por considerar que o mercado está precificando o risco do país de forma exagerada.
Ainda assim, o BTG não descarta essa possibilidade, o que aliviaria a pressão sobre o banco central.
Outro fator de atenção: o BCRA tem intervindo nos mercados futuros de câmbio e em instrumentos atrelados ao dólar, sinal de que ainda existe demanda por proteção cambial nos níveis atuais.
Enquanto as contas externas surpreendem, a economia real argentina segue de forma mais hesitante. Em abril, o indicador de atividade econômica caiu 1,5% na comparação com o mês anterior (já descontados efeitos sazonais), resultado pior que o esperado pelo BTG, que projetava uma queda de apenas 0,6%.
O movimento confirma o padrão de instabilidade dos últimos meses: depois de cair 2,7% em fevereiro e subir 0,3% em janeiro, a atividade havia avançado 3,1% em março, para em seguida recuar novamente em abril.
No acumulado, o nível de atividade de abril ficou cerca de 1% abaixo do registrado em dezembro de 2025 — ou seja, o crescimento praticamente estagnou ao longo de 2026.
Apesar disso, o BTG mantém, por ora, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) argentino entre 3,4% e 3,5% para o ano.
Os analistas apontam que os indicadores de maio já divulgados são mistos: produção de petróleo, consumo de eletricidade e confiança do consumidor vieram positivos, mas o varejo segue fraco.
A expansão do crédito na segunda metade do ano é apontada como condição necessária para a recuperação — caso contrário, o banco avisa que pode ser obrigado a revisar a projeção de crescimento para baixo novamente.
Os analistas traçam um retrato interessante da economia argentina: ela está dividida em três grupos com desempenhos bem diferentes entre si.
O setor primário — agricultura, indústrias extrativas e pesca — é o que mais cresce. As indústrias extrativas, que incluem mineração e hidrocarbonetos, avançaram 17,1% na comparação anual em abril, impulsionadas pela produção de petróleo e gás em Vaca Muerta. A agricultura também teve bom desempenho, com alta de 10,9% no período.
Já os setores de serviços crescem em ritmo mais próximo da média da economia, enquanto as indústrias tradicionais — manufatura, construção e varejo — seguem em dificuldade.
Comércio (varejo e atacado) recuou 3,2% na comparação anual, a manufatura caiu 2,9% e a construção, 1,8%.
Vale destacar que o BTG se mostra relativamente mais otimista com a construção do que com varejo ou manufatura.
Assim como no tango, quando o condutor dá passos para frente e para trás, guiando o parceiro por meio de abraços e trocas de peso, a economia da Argentina caminha sobre uma linha tênue.
O fôlego das exportações de energia e mineração, puxado por Vaca Muerta, é um ponto forte e estrutural da economia, de acordo com o BTG.
Mas o segundo semestre traz desafios: a expectativa de recuperação da atividade deve elevar as importações, reduzindo o superávit comercial, enquanto uma normalização dos preços do petróleo — que já caíram da casa dos US$ 100 para a faixa de US$ 70 o barril — também deve pressionar as contas externas.
Do lado da atividade doméstica, os analistas apontam para a necessidade de uma retomada do crédito como peça-chave para destravar o crescimento nos setores que ainda patinam, como manufatura e varejo.
Sem isso, a meta de crescimento do PIB para 2026 pode ficar mais distante do que o esperado.
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