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Declarações de Trump sobre a Groenlândia levantam dúvidas sobre os limites da defesa coletiva da OTAN quando a ameaça parte de um país-membro da própria aliança

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) surgiu em 1949, em meio à Guerra Fria, tendo entre seus objetivos a garantia de proteção militar coletiva de seus membros. Pela lógica da aliança, se um país-membro é atacado, os demais são chamados a ajudá-lo. Mas e quando a ameaça deixa de ser externa e passa a vir de dentro da própria aliança?
É o caso das recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de invadir e tomar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, membro da Otan. O comportamento do atual inquilino da Casa Branca tem feito crescer a tensão entre os membros da Otan.
“De um jeito ou de outro, vamos ficar com a Groenlândia”, reafirmou Trump no último domingo (11).
Pelo Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, qualquer ataque externo contra um país da Otan é tratado como uma agressão a todos os membros da aliança. O princípio da defesa coletiva visa a desencorajar potenciais inimigos a atacarem os membros da aliança.
Na prática, isso garante que os recursos militares, estratégicos e políticos de toda a Otan possam ser mobilizados em defesa de qualquer país integrante.
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Em entrevista à CNN, Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, afirmou que nenhum país europeu estaria disposto — ou preparado — a lutar para proteger a Groenlândia.
Sem descartar uma ação militar dos EUA, ele minimizou essa possibilidade ao dizer que “não há necessidade sequer de pensar nisso”, já que, segundo ele, nenhum aliado enfrentaria militarmente os Estados Unidos.
A leitura, no entanto, não é a mesma em Copenhague nem na própria Groenlândia. Em comunicado divulgado na terça-feira (13), o ministro da defesa da Dinamarca, Troels Lund Poulsen, anunciou um investimento de 88 bilhões de coroas dinamarquesas (R$ 77,5 bilhões) no reforço da defesa da imensa ilha ártica.
Apesar disso, para Edward R. Arnold, pesquisador sênior do Royal United Services Institute, os EUA teriam capacidade de invadir a Groenlândia rapidamente, se quisessem — e sem enfrentar resistência significativa.
“Que comandante europeu ordenaria disparos contra um navio de tropas dos EUA?”, disse Arnold, citado pela CNBC. “Isso poderia desencadear uma guerra dentro da própria Otan — e Washington sabe disso.”
Outras medidas que podem ser adotadas é a recusa em reabastecer navios americanos em portos europeus, a negativa de atendimento a militares dos EUA em hospitais militares locais e a imposição de custos mais elevados para a permanência de tropas americanas no continente.
Segundo Marion Messmer, diretora do programa de segurança internacional da Chatham House, estes poderiam ser alguns dos instrumentos de pressão a serem utilizados pelos países do velho continente.
Além disso, os governos europeus também poderiam discutir o fechamento de determinadas instalações militares. “Os Estados europeus têm uma influência significativa que a atual administração dos EUA parece ignorar”, afirmou Messmer.
Para ela, a retirada de bases que dão suporte às forças americanas tornaria operações no Oriente Médio e no Alto Norte consideravelmente mais difíceis.
Em contrapartida, Rasmus Sinding Søndergaard, pesquisador sênior do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais (DIIS), disse em entrevista à revista norte-americana Newsweek que se trata de um cenário extremo.
“A maioria dos europeus preferiria que os militares americanos permanecessem na Europa por causa da Rússia”, afirmou.
Donald Trump há anos critica o que chama de falta de comprometimento financeiro dos aliados europeus da Otan. Na cúpula da aliança realizada no ano passado, ele chegou a ser elogiado por ter pressionado os membros a assumirem um novo compromisso de gastos com defesa, que prevê investimentos de até 5% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2035.
Ainda assim, na Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro, ficou claro que o Hemisfério Ocidental, termo pelo qual os EUA tratam o continente americano, é a atual prioridade de Washington.
Para Marion Messmer, da Chatham House, esse cenário obriga os países europeus a pensarem sobre como funcionaria a Otan sem a presença dos norte-americanos e a ampliar investimentos em áreas nas quais ainda são concentradas por Washington.
“Agora, eles também precisam considerar seriamente que tipo de adversário os Estados Unidos podem se tornar — especialmente no caso de um ataque à Groenlândia”, disse Messmer, acrescentando que os países europeus “não podem mais se dar ao luxo de ignorar essa possibilidade”.
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