Adeus, Super Quarta? Warsh muda calendário do Fed e prepara mais novidades para 2027
Banco central americano manterá oito encontros anuais, mas reservará parte deles para discutir estratégia; revisão da comunicação, dos modelos de inflação e do balanço também está em andamento

Quem acompanha cada reunião do Federal Reserve em busca de pistas sobre os juros dos Estados Unidos terá de se acostumar a um novo calendário. O banco central americano continuará se reunindo oito vezes por ano, mas parte desses encontros passará a ser dedicada exclusivamente à estratégia da instituição, sem decisão sobre as taxas.
A mudança foi anunciada pelo presidente do Fed, Kevin Warsh, na quarta-feira (28), depois de a instituição manter os juros entre 3,75% e 4% ao ano. A partir de 2027, uma das oito reuniões será reservada ao debate estratégico. Para 2028, Warsh prevê ampliar esse número para duas, deixando seis encontros regulares para as decisões de política monetária.
O anúncio acrescenta uma nova alteração à gestão iniciada em maio. Desde então, Warsh mudou a comunicação com o mercado, deixou de apresentar projeções individuais para os juros e abriu uma revisão de áreas centrais da atuação do Fed. Esse trabalho pode alimentar novas decisões em 2027.
O que muda no calendário do Fed?
Hoje, as oito reuniões regulares do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), são oportunidades para avaliar e decidir o rumo da política monetária. Com o novo formato, parte dessa agenda terá outra função: discutir como o Fed deve atuar no longo prazo.
Nos encontros estratégicos, não estão previstos votação sobre os juros nem o comunicado habitual de política monetária. Warsh ainda não detalhou quais informações serão divulgadas ao final dessas discussões.
A justificativa é abrir espaço para questões que vão além da próxima decisão de juros. Segundo Warsh, o banco central precisa conciliar a avaliação frequente da economia com discussões mais amplas sobre sua estratégia e seus instrumentos.
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As datas dos encontros que ganharão esse formato ainda não foram anunciadas. O Fed também continuará podendo alterar a política monetária fora do calendário regular, uma prerrogativa utilizada em momentos excepcionais, como no início da pandemia
E as Super Quartas?
A mudança também pode mexer com as chamadas Super Quartas, quando o Fed e o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciam suas decisões de juros no mesmo dia.
Cruzando os calendários divulgados pelas duas instituições, há cinco coincidências em 2027: 27 de janeiro, 17 de março, 28 de abril, 27 de outubro e 8 de dezembro.
Mas essa lista ainda depende da definição do encontro que será dedicado exclusivamente à estratégia do Fed. Se a escolha recair sobre uma dessas datas, o dia terá decisão sobre a Selic no Brasil, mas não a habitual votação dos juros americanos.
Warsh ainda não anunciou qual reunião ganhará o novo formato. Segundo a Reuters, o economista Omair Sharif, presidente da Inflation Insights, considera outubro o candidato mais provável. Nesse cenário, 2027 teria quatro Super Quartas, com a retirada de 27 de outubro da lista de decisões simultâneas. Por enquanto, trata-se de uma avaliação do economista, sem confirmação do Fed.
Fed em mudanças
A mudança no calendário se soma a uma série de alterações promovidas pelo Fed desde a chegada de Kevin Warsh à presidência, em 22 de maio deste ano. Sob seu comando, os comunicados após as reuniões ficaram mais curtos, assim como as entrevistas coletivas. Warsh também rejeita a prática de antecipar o provável caminho dos juros, conhecida como forward guidance.
Outra mudança envolve as projeções. Warsh não apresenta sua estimativa no gráfico de pontos, que reúne as expectativas dos integrantes do Fed para os juros. O painel continua sendo divulgado com as contribuições dos demais participantes.
Essa postura já aparecia no discurso feito em Jackson Hole, em agosto. Na ocasião, Warsh defendeu um Fed mais comedido nas manifestações públicas, com a comunicação a serviço das decisões de política monetária. Também enfatizou a necessidade de trabalhar com informações atuais e observar tendências, evitando depender de indicadores isolados.
Cinco grupos estudam as próximas mudanças
A revisão mais abrangente, porém, ainda está em andamento. Warsh criou cinco grupos de trabalho para examinar a forma como o banco central analisa a economia e conduz sua política monetária. As lideranças e os objetivos foram detalhados em julho.
Os estudos abrangem:
- Comunicação: como o Fed apresenta suas discussões e decisões em meio à incerteza.
- Balanço: custos e benefícios do atual regime de reservas bancárias e da composição da carteira de ativos.
- Dados: qualidade e rapidez das informações utilizadas pelos dirigentes.
- Produtividade e emprego: efeitos da inteligência artificial e de outras tecnologias sobre a economia e o trabalho.
- Inflação: modelos utilizados para entender a formação dos preços e responder às pressões inflacionárias.
Os grupos contam com assessores externos e apoio técnico do Fed. Entre os responsáveis pela frente de comunicação está Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central brasileiro, ao lado de Peter Fisher e Mervyn King, ex-presidente do Banco da Inglaterra.
O mandato é examinar as práticas atuais, considerar alternativas e apresentar propostas aos responsáveis pela política monetária. A criação dos grupos, portanto, inicia uma revisão; a adoção das recomendações dependerá da avaliação dos dirigentes.
O que pode ficar para 2027?
Warsh estabeleceu o fim deste ano como prazo para os trabalhos, mas reconheceu ontem que alguns grupos poderão precisar de mais tempo. No caso do balanço, espera que as recomendações cheguem ao Fomc no início do primeiro trimestre de 2027, embora tenha evitado assumir um compromisso com essa data.
Essa frente pode ter consequências para a maneira como o Fed administra sua carteira de títulos e a liquidez do sistema financeiro. A revisão inclui o regime de reservas abundantes — a manutenção de um volume elevado de recursos dos bancos junto ao banco central — e possíveis alternativas a esse modelo.
Warsh já sinalizou sua preferência por utilizar os juros de curto prazo como principal instrumento de política monetária. Em Jackson Hole, defendeu que medidas extraordinárias de estímulo sejam usadas com parcimônia fora de crises e pediu maior atenção aos efeitos da quantidade de moeda sobre as condições financeiras e os preços. São princípios que orientam sua gestão, mas não equivalem à aprovação de uma nova política para o balanço.
Nos juros, a gestão Warsh já entregou uma alta
Enquanto revê o funcionamento da instituição, o Fed também alterou a taxa básica. Depois de manter os juros entre 3,50% e 3,75% nas reuniões de junho e julho, o comitê aprovou, por unanimidade, uma alta de 0,25 ponto percentual em setembro, para o intervalo atual.
A decisão buscou acelerar o retorno da inflação à meta. Mesmo com a revisão dos métodos e instrumentos, o objetivo continua sendo 2% ao ano, medidos pelo índice de preços de gastos com consumo pessoal, o PCE. Warsh reafirmou que essa é uma meta fixa e que cabe ao banco central entregar a estabilidade de preços.
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