De Marte para a sua carteira: o que muda se Elon Musk juntar Tesla e SpaceX
Para o Barclays, a união entre as duas empresas virou expectativa consensual; o prazo para levar a proposta aos acionistas pode ser a assembleia da Tesla, que precisa acontecer até 6 de dezembro

Imagine dois irmãos que moram em casas vizinhas. Um fabrica carros e robôs; o outro, foguetes e inteligência artificial (IA). Os dois dividem ferramentas, fornecedores e até clientes. Em algum momento, a família inteira passa a perguntar: por que não morar na mesma casa?
É mais ou menos essa a conversa que volta a rondar Wall Street, e que agora ganhou o reforço de um peso-pesado.
O Barclays afirma que a fusão entre a Tesla (TSLA) e a SpaceX (SPCX), ambas comandadas por Elon Musk, "tem se tornado cada vez mais a expectativa consensual" do mercado.
Vale o freio de arrumação: por enquanto, tudo isso ainda é especulação. Não há anúncio oficial nem proposta formal. Na quinta-feira (15), as ações das duas companhias recuaram, em um dia de queda também para o setor de tecnologia como um todo.
Por que agora?
A ideia de juntar as duas empresas de Musk não é nova. Ela reaparece de tempos em tempos no radar do mercado. O que chamou atenção do Barclays foi o timing.
Segundo as regras da SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, a Tesla precisa realizar sua assembleia geral anual até 6 de dezembro. Para Dan Levy, analista do banco, esse seria o palco natural para os acionistas votarem uma eventual proposta de fusão.
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Só que o calendário aperta. Para o Levy, um anúncio que fique para outubro ou o início de novembro "pode desafiar cada vez mais a aprovação da fusão como parte da assembleia geral". Ou seja: quanto mais tempo passar, mais difícil fica encaixar a votação nessa reunião.
Isso não significaria o fim da história. O Barclays avalia que, nesse cenário, o acordo ainda poderia sair nos próximos seis a 12 meses, já que os investidores enxergam vantagem em fechar qualquer negócio dentro do ambiente favorável a fusões e aquisições da administração de Donald Trump.
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A lógica do negócio: IA de ponta a ponta
Na visão de Levy, o grande argumento a favor da fusão é a integração vertical de inteligência artificial.
De um lado, a "IA física" da Tesla, como o Robotaxi e o robô Optimus. De outro, a "IA virtual" da SpaceX, como o Grok. O elo entre as duas seria a Terafab, a fábrica de chips planejada pela companhia, que forneceria o hardware para tudo isso.
Hoje, as decisões sobre a Terafab precisam passar pela aprovação dos conselhos das duas empresas. Um processo que, segundo a Tesla e o próprio Elon Musk levaria "um tempo". Uma empresa única simplificaria essa engrenagem.
As pistas deixadas por Elon Musk
O fator que mais pesa a favor da fusão, segundo o Barclays, é que o próprio Elon Musk tem dado sinais claros nessa direção.
Na última teleconferência de resultados da Tesla, o bilionário observou que há "cada vez mais sobreposição" entre as duas companhias, seja em operações, em tecnologia ou até na compra de Cybertrucks pela SpaceX.
Na All-In Summit, no mês passado, ele foi além e deixou no ar uma pergunta: com tanta colaboração, em tantos níveis, quem pode imaginar que ação alguém tomaria quando há tanta cooperação tão próxima em tantas áreas?
Quem compra quem?
É aqui que a conta fica interessante para o investidor. Hoje, a SpaceX vale cerca de US$ 2,1 trilhões, e a Tesla, cerca de US$ 1,5 trilhão. Já a fatia de Elon Musk é bem diferente em cada uma: 20% no capital da fabricante de carros elétricos e 48% da empresa espacial — o que, graças às ações supervotantes da Classe B, dá a ele cerca de 82% dos votos.
Por isso, o Barclays espera que a SpaceX seja a compradora, em uma operação totalmente em ações. Nos valores atuais, cada ação da Tesla equivaleria a cerca de 0,7 ação da SpaceX, antes de qualquer prêmio de aquisição.
Nessa simulação, Elon Musk passaria a deter cerca de 37% da empresa combinada e controlaria 56% dos votos, bem acima dos 25% da Tesla que ele há muito tempo diz querer ter.
Os investidores na fusão
Para quem tem Tesla, na hipótese traçada pelo Barclays, o papel dseria trocado por ações da SpaceX, na proporção de aproximadamente 0,7 para 1, antes de qualquer prêmio.
O prêmio, aliás, é um ponto em aberto e será decisivo: quanto maior, melhor para quem está do lado da Tesla. A decisão final, ao menos no cenário do banco, seria dos próprios acionistas, em votação na assembleia.
Para quem tem SpaceX, a empresa seria a compradora e, portanto, a estrutura sobrevivente. Com a fusão, o acionista passaria a ter fatia de um grupo que une foguetes, IA, carros elétricos e robôs, mas também a diluição natural de uma operação feita com emissão de ações.
Para todos: o poder de Musk sairia ainda mais concentrado. Com 56% dos votos na empresa combinada, o controle seria dele, e o acionista minoritário teria pouca margem para influenciar os rumos do negócio. É um ponto de atenção para quem se preocupa com governança.
Para o seu bolso (e para o investidor brasileiro): enquanto não houver anúncio, o que existe é especulação, e especulação costuma movimentar preços, para cima e para baixo. Quem acompanha esses papéis deve olhar duas datas: a divulgação de uma eventual proposta e a assembleia da Tesla, até 6 de dezembro.
*Com informações do Yahoo Finance
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