Por que cientistas estão transformando baratas em ciborgues?
Baratas ciborgues podem ajudar em resgates de desastres naturais e missões espaciais

Pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Nanyang, em Singapura, desenvolveram baratas ciborgues capazes de sobreviver por até três horas em ambientes sem oxigênio.
O feito, que parece ter saído diretamente de um roteiro de ficção científica, faz parte de um projeto que busca desenvolver uma tecnologia para utilizar esses insetos em missões de resgate durante desastres naturais e até em missões espaciais.
Baratas ciborgues
A pesquisa conduzida por Hirotaka Sato, professor coordenador do estudo, e seus colegas demonstrou, ainda em 2021, que uma espécie de barata originária da ilha de Madagascar poderia ser controlada remotamente por meio de eletrodos inseridos em seus órgãos sensoriais.
Três anos depois, em 2024, a equipe conseguiu demonstrar que um grupo dessas baratas ciborgues poderia ser coordenado de forma conjunta.
A proposta era que os insetos fossem soltos em grande escala para auxiliar na busca por sobreviventes de desastres naturais.
A espécie já possui locomoção eficiente e reflexos capazes de desviar de obstáculos. Mas os cientistas queriam ir além e capacitar as baratas para entrar em áreas de busca inundadas, comuns nesse tipo de desastre.
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A partir disso, o grupo desenvolveu um "traje" que permite ao inseto se locomover debaixo d'água por até três horas, em profundidades de até 50 centímetros, sem efeitos colaterais.
Os cientistas desenvolveram e imprimiram em 3D um traje de resina que protege da água as cavidades respiratórias da barata — os espiráculos, localizados no tórax do inseto.
Para solucionar a questão da falta de oxigênio, os pesquisadores armazenaram no traje dois agentes químicos: peróxido de hidrogênio e dióxido de manganês, que, ao reagirem, produzem oxigênio capaz de ser absorvido pelo inseto.
Impacto da pesquisa
A ideia de utilizar pequenos agentes para auxiliar na busca por sobreviventes e no monitoramento de locais inóspitos não é novidade.
Em entrevista à revista New Scientist, Alan Winfield, pesquisador da Universidade do Oeste da Inglaterra, explicou por que as baratas são utilizadas nesse tipo de projeto.
"Houve tentativas de desenvolver robôs muito pequenos, mas o problema é a bateria: não é possível obter uma autonomia muito grande", explicou Winfield.
Segundo ele, as baratas são mais eficientes do que robôs porque, além de operarem por mais tempo sem necessidade de recarga, conseguem encontrar o próprio alimento na natureza.
A ideia agora não é apenas utilizar essa tecnologia em operações de busca e resgate durante desastres naturais, mas também adaptá-la para ampliar seu uso em missões espaciais.
Para isso, o grupo pretende testar os efeitos de diferentes condições extremas sobre o traje para analisar seus limites de resistência.
Sato afirma que seu maior objetivo é levar essa tecnologia ao espaço.
"É, de certa forma, um passo — um grande passo — em direção a trajes espaciais para insetos ciborgues. Para a exploração da superfície de Marte, por exemplo", disse o pesquisador em entrevista à New Scientist.
*Com informações da New Scientist
**Sob supervisão de Renan Dantas
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