Por que centenas de castelos foram abandonados nesta cidade da Turquia?
O que deveria ser um refúgio para milionários se transformou em uma cidade fantasma de "castelos de boneca"

Em meio à paisagem verde e montanhosa de Mudurnu, cidade de cerca de 5 mil habitantes na Turquia, a visão de centenas de minicastelos abandonados causa estranhamento imediato. A uniformidade das construções transforma a paisagem em um cenário quase irreal.
A estrutura não foi projetada para assustar. Na realidade, trata-se de um empreendimento malsucedido: o Burj Al Babas. A proposta era vender pequenos palácios individuais, por valores entre US$ 370 mil e US$ 500 mil, para investidores dos países do Golfo.
O projeto, porém, não foi tão longe. O empreendimento chegou a vender parte das unidades, mas a Sarot Properties Group, empresa responsável pelo complexo, decretou falência antes de concluir as construções.
As obras do Burj Al Babas foram interrompidas em 2018 e, desde então, o local permanece oficialmente fechado. Hoje, tornou-se algo que jamais havia sido planejado: uma atração clandestina, visitada por curiosos interessados em seu aspecto distópico e sombrio.
Diante desse cenário, surge a dúvida: o que levou um projeto tão ambicioso a ser abandonado?
Por que castelos?
O Grupo Sarot lançou o Burj Al Babas em 2014. O empreendimento, avaliado em US$ 200 milhões, previa a construção de 732 minicastelos nos arredores de Mudurnu.
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Inspiradas nos châteaux franceses, as residências combinavam elementos da arquitetura gótica com interiores de mármore. Cada unidade teria três andares, terraço na cobertura, jacuzzis em todos os pavimentos e piso aquecido.
O conceito foi desenvolvido para atrair compradores em busca de exclusividade. Na prática, porém, a proposta dividiu opiniões.
O conjunto foi duramente criticado por ambientalistas e moradores da região, que apontavam o contraste entre os castelos e a arquitetura otomana predominante em Mudurnu. Além disso, as construções foram erguidas muito próximas umas das outras, reduzindo a privacidade dos futuros moradores.
Críticos também afirmavam que o projeto priorizava o impacto visual em detrimento da funcionalidade, tornando o empreendimento pouco atrativo para uso no longo prazo.
A falência da empresa
O Burj Al Babas teve um início promissor, com cerca de 350 castelos vendidos nos quatro anos seguintes ao lançamento. O cenário mudou em 2018, quando a economia turca enfrentou uma forte crise cambial, ao mesmo tempo em que investidores dos países do Golfo reduziram os investimentos após a queda das receitas provenientes do petróleo.
Nesse contexto, compradores passaram a atrasar pagamentos ou desistir dos contratos, deixando o Grupo Sarot com uma dívida de aproximadamente US$ 27 milhões. Em meio à crise, a empresa declarou falência.
A partir daí, surgiram diversos processos judiciais. Compradores exigiam reembolsos, enquanto ativistas ambientais denunciavam os impactos provocados pelas obras. Anos depois, muitos desses casos ainda permanecem sem solução.
Segundo o The New York Times, o Grupo Sarot acreditava que as dificuldades eram temporárias e que o projeto seria retomado. No entanto, os obstáculos acabaram sendo suficientes para que o Burj Al Babas fosse abandonado.
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Próximos capítulos
Em 2021, tribunais turcos autorizaram que o governo assumisse o controle do empreendimento por meio de um fundo estatal. Posteriormente, a Nova Group Holdings adquiriu o complexo, mas nenhum avanço significativo foi registrado desde então.
Ainda não há planos definidos para o futuro dos minicastelos inacabados. Hoje, eles permanecem como um enorme canteiro de obras abandonado e, ao mesmo tempo, uma curiosa atração para visitantes interessados em conhecer de perto um dos empreendimentos imobiliários mais peculiares da Turquia.
*Sob supervisão de Renan Dantas.
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