Pele de lesma? A onda viral que colocou a Coreia do Sul atrás apenas da França na exportação de cosméticos
Fermentação, regulação e décadas de pesquisa e desenvolvimento transformaram o K-beauty em uma indústria de US$ 11 bilhões

Vídeos virais do TikTok deram fama às lesmas como animais capazes de manter a pele sedosa e sem rugas — a delas e a de humanos. A indústria coreana de cosméticos embalou a onda do skincare com produtos feitos à base do filtrado de secreção de lesma, mais conhecido como mucina.
Mesmo sem evidências científicas suficientes que confirmem o benefício, eles se tornaram a cara hidratada e sem rugas do K-beauty, como é chamado o conjunto de produtos e tendências de beleza exportados pela Coreia do Sul.
Em 2025, o país exportou cerca de US$ 11,4 bilhões em cosméticos, tornando-se o segundo maior do setor no mundo, atrás apenas da França.
A influência da lesma no mercado de cosméticos
Mas não é a lesma a razão do tamanho desse mercado. A Coreia do Sul investiu décadas em pesquisa e desenvolvimento antes de o molusco viralizar.
Um dos resultados é a aplicação industrial da biotecnologia da fermentação à cosmética — o mesmo princípio por trás do kimchi, o prato coreano apimentado de vegetais fermentados.
No processo, microorganismos quebram moléculas grandes em estruturas menores. Se na feitura do kimchi essa quebra torna os vegetais mais digestíveis, na cosmética ele permite que os ativos do produto atravessem a barreira cutânea da pele. É por isso que muitos tratamentos dermatológicos recorrem a aplicações subcutâneas.
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Extratos de arroz, soja, chá e leveduras processados por bactérias e fungos chegam fragmentados em estruturas que a pele absorve com mais facilidade.
Estudos com extratos fermentados de soja e ginseng mostram melhora mensurável em hidratação e elasticidade em comparação com as versões não fermentadas dos mesmos ingredientes. Isso acontece porque a fermentação transforma componentes comuns em nutrientes que a pele aproveita de forma muito mais direta e profunda.
A mucina de lesma não tem o mesmo nível de comprovação. Revisões da literatura apontam resultados promissores em laboratório, mas ainda faltam ensaios clínicos robustos para medir seus efeitos em larga escala.
Como transformar descobertas científicas em tendências de consumo
A popularidade da mucina ilustra a capacidade da indústria sul-coreana de transformar descobertas científicas em tendências de consumo em produtos globais.
Desde os anos 1990, o país ampliou investimentos em pesquisa e desenvolvimento, como nas áreas de biotecnologia, química fina e manufatura avançada.
Empresas do setor passaram a trabalhar em ciclos acelerados de desenvolvimento, lançando formulações e adaptando tendências em poucos meses e ocupando nichos antes dominados por marcas europeias, americanas e japonesas.
A velocidade ajuda a explicar a capacidade de inovação do setor, mas também significa que muitos produtos desaparecem das prateleiras tão rapidamente quanto surgem.
Essa volatilidade é sustentada por uma engenharia de produção ágil. As indústrias criaram bases cosméticas flexíveis, que permitem trocar ingredientes em poucas semanas, sem ter que recomeçar o produto do zero. Em contrapartida, esse ritmo favorece o consumo descartável: vários produtos são lançados, testados pelo mercado e abandonados rapidamente, enquanto o consumidor é empurrado para a novidade seguinte.
Regulação reforça modelo
Na Coreia do Sul, o MFDS — o ministério equivalente à Anvisa brasileira — criou uma categoria específica de cosméticos funcionais que exige comprovação de eficácia antes da aprovação.
Produtos que alegam clareamento, ação antirrugas ou proteção solar precisam de dados clínicos para chegar às prateleiras. É um modelo diferente do americano, onde a FDA não exige aprovação prévia de eficácia para cosméticos.
Ao elevar a exigência técnica, o governo criou um selo de qualidade que diferencia o produto coreano no mercado global.
A expansão global coincidiu com mudanças nos hábitos de consumo durante a pandemia. O isolamento social impulsionou o interesse por rotinas de autocuidado e aumentou as vendas de skincare em diversos mercados.
Na Coreia do Sul, marcas locais aproveitaram o comércio eletrônico e criadores de conteúdo para alcançar consumidores diretamente, sem depender dos canais tradicionais de distribuição.
Esse movimento encontrou terreno fértil na onda coreana, que já havia ampliado a visibilidade internacional do país por meio de séries, filmes e artistas de K-pop.
Nesse contexto, a lesma é menos ingrediente do que metáfora. Enquanto a ciência ainda busca medir com precisão os efeitos da mucina sobre a pele, a indústria coreana já demonstrou sua capacidade de transformar conhecimento, tendências e velocidade de execução em um negócio bilionário.
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