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Apesar de a Europa representar uma fatia relativamente pequena das receitas, o bloco é considerado um mercado premium para as exportadoras brasileiras

A decisão da União Europeia (UE) de barrar a importação de carnes, tripas, pescado e mel produzidos no Brasil ganhou caráter oficial e adicionou uma nova preocupação ao radar das exportadoras brasileiras de proteína animal.
A medida, anunciada há quase um mês, foi confirmada em documento publicado no Diário Oficial da UE na sexta-feira (5) e passa a valer a partir de 3 de setembro.
O setor pecuário brasileiro sentiu o impacto. Por volta das 12h30 (de Brasília), Minerva Foods (BEEF3) tinha queda de 2,17%, cotada a R$ 3,60; JBS (JBSS32) recuava 3,42%, a R$ 60,36 e Marfrig (MBRF3) caía 2,54%, negociada a R$ 15,36.
Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não conseguiu comprovar que toda a sua cadeia produtiva atende às exigências sanitárias do bloco, especialmente em relação ao uso de medicamentos antimicrobianos para tratamento e prevenção de infecções em animais.
Embora o governo brasileiro tenha proibido, em abril deste ano, parte dos antimicrobianos utilizados para estimular o crescimento e aumentar a produtividade animal, a avaliação europeia é de que ainda faltam garantias adicionais.
Para a Genial Investimentos, apesar da repercussão negativa da notícia, o impacto financeiro para as grandes companhias brasileiras do setor tende a ser administrável.
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Segundo dados do Agrostat, a UE foi o terceiro principal destino da carne brasileira em valor em 2025, movimentando US$ 1,8 bilhão, dos quais US$ 1,1 bilhão vieram da carne bovina e US$ 762 milhões da carne de frango.
Ainda assim, os analistas destacam que esse volume representa uma parcela relativamente pequena das receitas das empresas. A JBS, por exemplo, registrou faturamento de US$ 88 bilhões nos últimos 12 meses.
Além disso, o mercado ainda conta com uma janela de quase três meses até que o veto entre em vigor, período que pode ser utilizado para negociações diplomáticas e redirecionamento de embarques para outros mercados.
Na avaliação da Genial, o principal risco não está na quantidade exportada para a Europa, mas na qualidade dessas vendas.
Isso porque o bloco europeu é considerado um mercado premium para as proteínas brasileiras, o que significa que a rentabilidade por tonelada costuma ser superior à observada em outros destinos.
“O que realmente importa é a parcela de origem brasileira, já que o veto vale apenas para o Brasil. Tudo o que sai de Argentina, Uruguai e Paraguai continua habilitado e pode absorver parte do volume realocado”, afirma o analista da Genial, Luca Vello.
Mesmo sendo mais concentrada em carne bovina, a Minerva surge como a empresa menos vulnerável à restrição europeia, segundo a Genial.
A corretora destaca que a companhia possui uma plataforma diversificada de produção na América do Sul, com operações distribuídas entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia, além de liderar o mercado exportador da região.
A estimativa é que apenas 3,4% da receita bruta acumulada nos últimos 12 meses esteja diretamente exposta ao veto. Outros 2% a 3% das vendas para a União Europeia têm origem em países que não foram afetados pela medida e podem ajudar a absorver parte dos volumes atualmente embarcados pelo Brasil.
A principal desvantagem é que a companhia não possui outras proteínas em seu portfólio para compensar eventuais perdas de rentabilidade na carne bovina.
No caso da JBS, a proteção vem principalmente da diversificação geográfica.
O Brasil responde por 26% da receita por consumo da companhia, mas representa apenas 12% da produção. Cerca de metade do faturamento é gerada nos Estados Unidos, enquanto a empresa também mantém operações produtivas dentro da Europa por meio da Moy Park e da Vivera.
Com isso, o impacto da medida europeia fica restrito às exportações de carne bovina produzidas pela JBS Brasil e aos embarques de frango e processados da Seara destinados ao continente.
Segundo a Genial, a maior parte das exportações brasileiras da companhia segue direcionada para a Ásia e o Oriente Médio.
A corretora estima uma exposição equivalente a aproximadamente 1% da receita consolidada da empresa, em uma faixa entre 0,5% e 1,5%, com elevada capacidade de realocação da produção por meio das operações na Austrália, nos Estados Unidos e na própria Europa.
Para a Marfrig, a exposição está dividida entre os negócios de carne bovina e de frango.
A operação Beef América do Norte, baseada nos Estados Unidos, não sofre impactos da decisão. Já os segmentos Beef América do Sul e BRF concentram a exposição ao mercado europeu.
Segundo a Genial, as exportações brasileiras destinadas à União Europeia representam cerca de 2,5% da receita consolidada da companhia, o equivalente a aproximadamente R$ 1,3 bilhão por trimestre. Desse total, cerca de 1% está ligado à carne bovina e 1,5% ao frango.
A diferença está na capacidade de redirecionamento da produção. No caso da carne bovina, parte dos volumes pode migrar para plantas localizadas na Argentina e no Uruguai. Já o frango enfrenta limitações maiores.
“A BRF concentra o abate de aves no Brasil e não possui uma estrutura equivalente habilitada no Mercosul para atender a demanda europeia. Vale lembrar que a reabertura dos mercados da UE e da China para o frango foi um dos principais motores do resultado internacional da BRF no primeiro trimestre de 2026, ganho que agora é parcialmente revertido”, destaca a corretora.
O veto europeu ocorre em um momento de forte expansão das exportações brasileiras de carne bovina.
Em maio de 2026, o Brasil embarcou 297 mil toneladas da proteína, volume 17,8% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior. Na comparação com abril, o crescimento foi de 2,9%.
A receita das exportações somou US$ 1,83 bilhão no mês, alta de 6,5% em relação a abril, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
A China permaneceu como principal destino da carne bovina brasileira, respondendo por 157,6 mil toneladas e US$ 1,06 bilhão em compras, o equivalente a 53,1% de todo o volume exportado em maio.
Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 28,8 mil toneladas importadas e receita de US$ 195,6 milhões.
Já a União Europeia comprou 8,3 mil toneladas de carne bovina brasileira no mês, movimentando US$ 77,5 milhões.
No acumulado de janeiro a maio de 2026, o Brasil exportou 1,388 milhão de toneladas de carne bovina, avanço de 15,3% na comparação anual. A receita alcançou US$ 7,88 bilhões.
A União Europeia respondeu por 43 mil toneladas importadas e faturamento de US$ 377,2 milhões no período, com crescimento de 24% em volume frente aos cinco primeiros meses de 2025.
Segundo a Abiec, a presença da carne bovina brasileira em mais de 177 mercados internacionais continua sendo um dos principais fatores de sustentação da competitividade do setor e ajuda a reduzir os riscos associados a restrições impostas por mercados específicos.
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