Como a Amil saiu da crise e agora se dá ao luxo de recusar proposta multibilionária de compra de fundos estrangeiros
Amil se recuperou após crise e recusa oferta de R$ 15 bilhões da Bain e Advent; entenda os entraves da venda e o plano de IPO da operadora de planos de saúde

Parecia que o negócio estava praticamente certo. Mas, de última hora, o empresário José Seripieri Júnior desistiu da negociação de venda da Amil a grandes investidoras multibilionárias.
O empresário conhecido como Júnior decidiu deixar a mesa de negociações e recusar a proposta da Bain Capital e da Advent, que segundo o jornal Valor Econômico era avaliada entre R$ 15 bilhões e R$ 16 bilhões.
A Bain Capital é uma empresa de investimentos privados com cerca de US$ 225 bilhões em ativos, e a Advent tem cerca de US$ 94 bilhões em private equity sob gestão.
Segundo informações da imprensa, a Amil divulgou nesta quinta-feira (10) um comunicado aos funcionários, em que informa ter mantido conversas com os fundos de investimentos e que estas conversas estão encerradas.
"Continuamos abertos a propostas futuras de investimentos minoritários", diz o comunicado, divulgado pela Broadcast. O texto é assinado pelo conselho de administração.
Como a operadora de saúde que até poucos anos atrás estava em grave crise financeira chegou ao ponto de recusar uma proposta de compra bilionária, de duas gigantes?
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Por que a venda da Amil não foi fechada
Depois de anos enfrentando prejuízos sob a gestão da multinacional norte-americana United Health Group, a Amil passou por uma restruturação interna depois de passar às mãos de Júnior.
Ela chegou à mesa de negociações fortalecida, com crescimento da carteira, redução de sinistros e faturamento de R$ 32 bilhões anuais, além de um resultado líquido de R$ 5,4 bilhões no ano passado.
Segundo o site da empresa, ela tem 6,1 milhões de beneficiários, e 480 mil empresas parceiras, tanto PMEs quanto grandes corporações. São 3,3 milhões de beneficiários de planos médicos e 2,7 milhões em odontológicos.
São mais de 25 mil médicos e serviços de saúde credenciados, além de 22 mil colaboradores. Ela tem hospitais no Sudeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e no Nordeste, no Ceará e no Rio Grande do Norte.
Outros desentendimentos envolvem o modelo da transação. As gestoras buscavam adquirir 100% da operadora, mas o empresário buscava vender apenas cerca de 30%, segundo informações da imprensa.
Além disso, gestoras não queriam carregar o risco de possíveis passivos no futuro. Foi assim que Júnior comprou a Amil, há mais de 10 anos: ele assumiu R$ 9 bilhões em possíveis passivos judiciais.
A saída de Júnior da operação também era outro entrave, segundo o Neofeed.
Agora, Júnior deve buscar outra saída para o investimento. Segundo a Exame, a ideia é abrir o capital da Amil em um IPO, quando as condições de mercado forem mais favoráveis. De acordo com a revista, a oferta pode chegar a R$ 40 bilhões.
História da Amil
Fundada em 1978 por Edson de Godoy Bueno e sua ex-esposa, Dulce Pugliese, no Rio de Janeiro, a companhia de saúde verticalizada atua com planos de saúde, hospitais, clínicas, laboratórios e centros de diagnóstico. Em 2009, comprou o controle da Medial Saúde, por R$ 612,5 milhões.
Em 2012, foi comprada pelo grupo norte-americano UnitedHealth Group (UHG) por quase R$ 10 bilhões.
Os fundadores da Amil não deixaram o mercado de saúde: em 2014, compraram 60% do controle acionário da Dasa. Com a morte de Edson Bueno em 2017, o controle passou para os seus herdeiros e a ex-esposa.
Pouco mais de dez anos depois que foi vendida ao grupo norte-americano, a Amil trocou novamente de mãos. A operadora estava em grave crise financeira, com prejuízos anuais.
O UHG já havia demonstrado interesse em vender sua participação em 2022 e, entre os interessados, estavam a Rede D'Or, que estava em processo de fusão com a SulAmérica, e a Dasa, da mesma família dos fundadores da Amil.
Em dezembro de 2023, o aperto de mãos: a Amil foi vendida por R$ 11 bilhões para o empresário José Seripieri Júnior, fundador da Qualicorp. Desse total, quase R$ 9 bilhões eram em dívidas assumidas.
Choque de gestão
Júnior assumiu um passivo pesado e prejuízos bilionários. Em 2023, a companhia reportou perdas de R$ 4 bilhões.
A empresa passou a focar em rentabilidade, fez reajustes nos preços dos planos acima da média do mercado e cortou camadas intermediárias de gestão.
Os reajustes fizeram a empresa perder quase 170 mil contratos em 2024. Mas ela voltou a se recuperar no ano seguinte, com mais descontos. No primeiro ano sob o novo comando, as receitas subiram 25%, e o prejuízo virou lucro de R$ 819 milhões.
Ainda que a Dasa não tenha levado a compra, firmou mais tarde um acordo com a Amil. Em 2024, as duas fundiram suas operações hospitalares, dando origem à Rede Américas. Ambas detêm uma participação de 50% na joint venture, a segunda maior rede hospitalar do país, com 25 hospitais.
Desde o ano passado, a Amil é uma das empresas que mais ganha beneficiários mensalmente, após perder 170 mil clientes no ano anterior. Ela mantém o posto de terceira maior operadora do país.
Em 2025, foi a operadora que mais adicionou novos clientes à sua carteira, com crescimento de 17% em relação ao ano anterior. Em planos de saúde, foram 415 mil novos clientes, enquanto o setor como um todo adicionou 1,2 milhão de vidas.
As receitas com operações de planos de saúde apresentaram um aumento de 9,7% no ano em relação a 2024. A companhia encerrou o exercício com resultado líquido de R$ 5,4 bilhões.
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