O que o Banco do Brasil (BBAS3) está vendo na Argentina para continuar colocando dinheiro no país?
Para analistas, aquisição do varejo do Bind reforça a presença do Banco Patagonia e sinaliza que o BB ainda vê espaço para crescer no país vizinho

Enquanto o mercado discute a capacidade de capital do Banco do Brasil (BBAS3), o banco estatal decidiu dar um sinal em outra direção: em vez de reduzir sua exposição à Argentina, está colocando mais dinheiro no país.
A movimentação vem por meio do Banco Patagonia, instituição argentina controlada em cerca de 80% pelo BB, que acertou a aquisição de parte do negócio de varejo do Banco Industrial (Bind).
A operação adicionará cerca de 200 mil clientes e 28 agências à estrutura do Patagonia, ampliando sua presença em algumas das principais regiões urbanas e produtivas da Argentina.
O valor oficial da transação não foi divulgado. Segundo estimativas da imprensa argentina, porém, o negócio teria sido fechado por aproximadamente US$ 60 milhões, o equivalente a cerca de R$ 306 milhões no câmbio atual.
Procurado pelo Seu Dinheiro, o BB não retornou os pedidos de comentário até o momento da publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Mais do que o tamanho da operação, porém, o movimento chama atenção pelo recado que passa sobre o papel que o Banco do Brasil enxerga para o Patagonia.
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Em relatório, o Citi avalia que a contribuição financeira da aquisição é relativamente pequena, mas que a decisão de alocar capital adicional na Argentina tem uma importância estratégica maior.
- Leia também: Tem algo de errado com a ‘pechincha’ do Banco do Brasil (BBAS3)? Citi acende alerta e corta preço-alvo
Na leitura dos analistas, o negócio sugere que o Patagonia está sendo tratado como uma plataforma de crescimento pelo BB — e não como uma possível fonte de capital para a matriz.
Os detalhes da aposta do Banco do Brasil na Argentina
O acordo prevê a transferência de determinados ativos e passivos relacionados à operação de varejo do Bind, incluindo agências, funcionários, clientes, contas e produtos financeiros.
Ao todo, 28 agências do banco argentino passarão para o Patagonia. A unidade localizada na Avenida Santa Fe 880, em Buenos Aires, ficou de fora da operação e permanecerá sob titularidade e operação do Bind.
É importante destacar que o Patagonia não está comprando o Bind inteiro. O acordo envolve uma parcela específica da operação, concentrada principalmente na banca de varejo.
Com a transação, o banco controlado pelo BB deverá incorporar aproximadamente 200 mil clientes e ampliar sua rede física em diferentes pontos do país. O Patagonia já possui mais de 1 milhão de clientes e mais de 200 pontos de atendimento na Argentina.
A operação também inclui a transferência dos funcionários vinculados às agências envolvidas.
Segundo informações do Valor Econômico, as instituições criaram um comitê de transição para conduzir a migração, que ainda depende das aprovações regulatórias e tem conclusão prevista para o início de 2027.
Do outro lado, o Bind deve usar a operação para concentrar recursos em outras frentes.
De acordo com o jornal, o banco manterá sua atuação corporativa e pretende reforçar negócios como gestão de caixa, investimentos, pagamentos e banking as a service (BaaS), modelo em que presta infraestrutura financeira para outras empresas.
Aliás, o Bind é parceiro do Banco Inter, que anunciou o início de sua operação na Argentina na última terça-feira (8).
- Veja também: Inter chega à Argentina com conta em dólar e acesso a Wall Street; veja o que está por trás da estratégia
O que dizem os analistas
Para o Citi, a operação ganha relevância justamente porque acontece em um momento em que as discussões sobre capital do Banco do Brasil ganharam força.
Na avaliação do banco norte-americano, a aquisição indica que o BB está confortável em continuar destinando recursos à operação argentina, em vez de enxergar o Patagonia como uma alternativa para liberar dinheiro.
“Em um momento em que as discussões sobre capital ganharam relevância para o Banco do Brasil, a aquisição sugere que o Patagonia é visto como uma plataforma de crescimento, e não como uma potencial fonte de capital”, afirmam os analistas.
Isso reduz, na visão do Citi, a probabilidade de que o Banco Patagonia seja usado como uma ferramenta evidente de gestão de capital, seja por meio de dividendos extraordinários, venda de participação ou outras iniciativas de otimização do balanço.
Além do componente estratégico, o Citi vê fundamentos financeiros positivos por trás da aquisição.
Segundo os analistas, os indicadores independentes do Bind apontam para uma franquia de varejo com baixa inadimplência e retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 17,1%.
Para efeito de comparação, o Banco Patagonia apresenta inadimplência de 3% e ROE de 8,7%.
A aquisição também não representa uma aposta que, em tese, comprometa de forma relevante o capital do Patagonia: o valor da operação equivale a menos de 5% de seu patrimônio líquido e a menos de 7% de seu capital regulatório excedente, segundo as estimativas do Citi.
Pelos cálculos do banco, o negócio teria sido fechado por aproximadamente 1,1 vez o valor patrimonial (P/BV), um múltiplo considerado razoável para uma operação de varejo lucrativa, com qualidade de ativos e uma rede de distribuição já estabelecida.
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