Itaú BBA deixa de recomendar compra de Bradesco (BBDC4), e ação cai forte; o que levou o bancão a perder o brilho?
Com juros mais altos e economia mais fraca no horizonte, analistas veem recuperação mais lenta e lucros pressionados nos próximos anos

O Bradesco (BBDC4) já foi o banco preferido do Itaú BBA entre os grandes nomes do setor financeiro. Agora, perdeu esse status.
Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco de investimentos rebaixou a recomendação para os papéis do Bradesco de compra para neutra e reduziu o preço-alvo de R$ 22 para R$ 20.
O relatório coloca mais fogo na fogueira da ação, que derretia 6,10% nesta quarta-feira (28), a R$ 14,77, por volta das 16h37.
A mudança reflete preocupações com a economia para 2027, que combina juros mais altos, menor crescimento e riscos de crédito mais elevados.
Segundo os analistas, o Bradesco pode encontrar mais dificuldades do que os concorrentes para navegar esse ambiente.
"O ambiente macroeconômico previsto para 2027 aponta para uma atividade e confiança mais fracas, o que provavelmente restringirá a demanda por crédito e/ou prejudicará a capacidade de pagamento dos tomadores de empréstimos", escreveu o BBA.
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Os sinais de alerta já começaram a aparecer no terceiro trimestre. O banco registrou nova alta nas provisões para perdas com crédito e viu sua cobertura para inadimplência diminuir.
Além disso, o Itaú BBA avalia que o aumento do endividamento das famílias e os riscos crescentes entre pequenas empresas podem dificultar tanto a expansão da carteira quanto a qualidade dos empréstimos.
Crescimento existe, mas pode perder força
Embora algumas linhas de negócio tenham apresentado um desempenho forte no terceiro trimestre, os analistas questionam a sustentabilidade desse avanço.
No crédito automotivo, as receitas cresceram 27% na comparação anual e 6% frente ao trimestre anterior. Já o crédito para grandes empresas avançou 14,8% em um ano.
A administração do Bradesco segue confiante na qualidade das carteiras, mas o Itaú BBA vê obstáculos pela frente.
A avaliação é que juros mais elevados tendem a reduzir a demanda por financiamentos e limitar o crescimento das receitas.
Por isso, o banco revisou para baixo suas expectativas para a receita líquida de juros (NII) com clientes. A projeção agora é de avanço de 6% em 2027, metade dos 12% estimados para 2026.
Na visão do BBA, uma originação de crédito mais criteriosa pode ajudar a conter perdas futuras. O problema é que os benefícios dessa estratégia devem aparecer apenas gradualmente.
Inadimplência preocupa
Outro ponto de atenção é a inadimplência superior a 90 dias, que atingiu 4,6% no terceiro trimestre, alta de 30 pontos-base em relação ao período anterior.
O Bradesco atribui parte desse movimento ao aumento da participação de operações com garantias dos programas FGI e FGO, além de efeitos sazonais ligados à carteira da John Deere.
O Itaú BBA, no entanto, entende que atrasos nos pagamentos das garantias e na regularização dos empréstimos podem prolongar a pressão sobre a qualidade dos ativos.
Com isso, os analistas elevaram suas estimativas para os indicadores de risco do banco.
Agora, a projeção é que o Bradesco termine 2027 com inadimplência de 4,9% e custo de risco de 3,87%, acima das previsões anteriores de 4,2% e 3,33%, respectivamente.
As despesas com provisões devem alcançar R$ 47,1 bilhões em 2027, um salto de 16% em relação às estimativas anteriores.
Já para os lucros, a expectativa é de crescimento modesto. O Itaú BBA manteve praticamente inalterada a projeção de R$ 28 bilhões para 2026 e prevê lucro líquido de R$ 28,5 bilhões em 2027, com retorno sobre patrimônio (ROE) de 14,4%.
Para os analistas, o Bradesco continua em processo de recuperação, mas o caminho pode ser mais longo do que o mercado esperava.
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