Casas Bahia, Habib’s e mais: por que tantas empresas no Brasil estão quebrando?
Tatiana Flores, advogada e especialista em recuperação judicial, fala sobre o que está por trás desse movimento e quais são os riscos para as empresas e os acionistas
A recuperação judicial deixou de ser exceção para virar rotina do mercado financeiro neste ano. Desde janeiro, uma série de empresas deram início a processos judiciais e extrajudiciais. Vimos Raízen, Grupo Pão de Açúcar, Oncoclínicas, Casas Bahia e Habib's passarem por esse caminho, para citar algumas.
Em novo episódio do podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro, a advogada Tatiana Flores, sócia do LDCM Advogados e especialista em recuperação judicial, extrajudicial e falência, falou sobre o que está por trás da disparada dos pedidos de reestruturação de dívidas.
Para ela, o principal erro dos investidores é enxergar a recuperação judicial ou extrajudicial como sinônimo de fracasso. "A recuperação judicial é um instrumento para possibilitar que empresas viáveis possam se recuperar para evitar a falência", disse.
O problema é que muitos empresários demoram para recorrer ao mecanismo, chegando ao pedido já com um nível de endividamento que torna a reestruturação muito mais difícil.
O problema não é pedir recuperação judicial. É pedir tarde demais
Segundo a advogada, muitos empresários continuam vendo a reestruturação de dívidas como uma admissão de fracasso e acabam adiando a decisão até que a situação fique praticamente insustentável.
O resultado é que a empresa entra no processo já carregando uma montanha de dívidas, garantias e problemas operacionais difíceis de resolver.
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Para ela, a recuperação judicial deveria ser encarada como uma ferramenta de reorganização financeira, e não como o último estágio de uma empresa antes da falência.
"O empresariado brasileiro é sempre muito otimista. Muitas vezes quando vê que está com uma crise operacional, ao invés de se valer do mecanismo de recuperação, ele fala: 'não, eu vou conseguir'. Mas não consegue e aumenta a bola de neve", diz.
A avaliação também ajuda a explicar por que tantas companhias acabam não conseguindo atravessar o processo com sucesso. Em muitos casos, a recuperação não falha porque o mecanismo é ruim. Ela falha porque a empresa chega tarde demais à mesa de negociação.
Modelos de negócios que não funcionam mais
Embora os juros altos estejam por trás de boa parte das dificuldades enfrentadas pelas empresas, Flores avalia que muitos dos casos mais recentes revelam um problema mais profundo. São negócios que deixaram de acompanhar as transformações do mercado.
Segundo a advogada, a pandemia funcionou como um acelerador dessas mudanças.
Empresas que já tinham canais digitais estruturados conseguiram atravessar o período com menos dificuldades, enquanto outras precisaram correr atrás de uma adaptação cara e demorada.
Agora, a conta dessa transição começa a aparecer nos balanços e nos processos de reestruturação de dívidas.
O varejo é um dos exemplos mais claros. Na avaliação de Flores, casos como o da Casas Bahia não refletem apenas uma crise financeira, mas a necessidade de rever a forma como o negócio está estruturado.
E essa pressão pode ganhar uma nova dimensão nos próximos anos com o avanço da inteligência artificial.
Touros e Ursos da semana
No encerramento do episódio, o tradicional quadro Touros e Ursos trouxe os destaques da semana.
No lado dos Ursos (destaques negativos), a convidada escolheu a Oi. Para Flores, a falência da companhia após duas recuperações judiciais mostra que nem toda empresa é recuperável.
"Será que precisava ser assim? Será que não tinha uma outra forma? Acho que a gente precisa aprender um pouco", afirmou ao comentar o processo que se arrasta desde 2016.
Outro caso de reestruturação de dívida que ganhou um urso foi o do Habib's, cuja controladora entrou em recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 500 milhões, pressionada pelos juros altos e pela concorrência dos aplicativos de entrega.
Do lado dos Touros (destaques positivos), a advogada destacou Gol e Latam, que passaram por processos de reestruturação nos Estados Unidos e conseguiram sair mais fortalecidas.
Na visão dela, a experiência mostra como um mercado mais maduro, com credores especializados e acesso a financiamento novo, pode acelerar a recuperação das empresas.
Outro exemplo positivo foi o da Oncoclínicas. A possibilidade de uma oferta pública de aquisição envolvendo a gestora norte-americana Centaurus Capitalpoderá resultar em um prêmio relevante aos acionistas da companhia e mais segurança para os credores da dívida.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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