Após 54 anos, orelhões vão deixar de fazer parte da paisagem urbana
Retirada do orelhão acontece porque terminam as concessões do serviço de telefonia fixa das empresas responsáveis pelos aparelhos

Durante décadas, ele esteve presente: na esquina, na praça, em frente ao bar ou ao lado do ponto de ônibus. Agora, sai de cena de forma definitiva. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou a retirada final dos últimos orelhões ainda espalhados pelo país, encerrando oficialmente um dos capítulos mais emblemáticos da história da telefonia no Brasil.
A medida integra o cronograma oficial da Anatel. Com a popularização do celular, dos aplicativos de mensagens e das chamadas via internet, os telefones públicos perderam utilidade, manutenção e viabilidade econômica.
A história do orelhão
“De repente – notaram? – a rua melhorou em São Paulo, com o aparecimento do telefone-capacete.” Assim Carlos Drummond de Andrade registrou o surgimento do orelhão no Brasil, em sua crônica Amenidades da Rua.
Criado em 1971, o orelhão ganhou diversos apelidos, como tulipa e capacete de astronauta, mas seu nome técnico na CTB era Chu II, em homenagem à sua criadora, Chu Ming Silveira.
Na época, Chu chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira e assumiu a missão de desenvolver um protetor para telefones públicos que combinasse funcionalidade e estética.
A estreia para o público ocorreu em janeiro de 1972, com instalações no Rio de Janeiro, no dia 20, e em São Paulo, no dia 25.
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Agora, quase 54 anos depois, os telefones públicos vivem seus últimos momentos nas ruas brasileiras.
Quando o telefone era território neutro
Antes da geolocalização, do armazenamento de chamadas na nuvem e das notificações em tempo real, o orelhão oferecia algo raro: a possibilidade de uma ligação sem rastros pessoais imediatos. Não por acaso, tornou-se presença constante no cinema. Cada chamada era um risco calculado; cada ficha, um elemento de tensão.
Em O Agente Secreto, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, o telefone público aparece como parte do imaginário da espionagem clássica — um mundo de códigos, encontros rápidos e ligações curtas, feitas longe de casa.
O orelhão não era apenas cenário: era instrumento narrativo.
Hollywood também explorou esse simbolismo. Em Donnie Brasco, o personagem de Johnny Depp, um agente infiltrado na máfia, usava telefones públicos como quem troca de identidade.
A decisão da Anatel
A decisão da Anatel ocorre com o fim das concessões do serviço de telefonia fixa das empresas responsáveis pelos aparelhos. Com isso, Oi, Algar, Claro, Sercomtel e Telefônica deixam de ser obrigadas a manter telefones fixos e orelhões nas vias públicas.
A estimativa é que cerca de 30 mil orelhões sejam removidos ao longo deste ano, principalmente em áreas centrais, corredores comerciais e avenidas de grande circulação.
Apesar da retirada, a Anatel avalia que o serviço ainda pode ser necessário em pontos específicos do país, como regiões rurais, áreas isoladas e comunidades indígenas.
Além disso, as operadoras deverão direcionar investimentos para redes de banda larga ou serviços móveis.
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