Selic a 8% ou a 15%? Ex-diretores do Banco Central explicam o dilema que o Brasil terá pela frente
Para Bruno Serra e Rodrigo Azevedo, o país entrou na fase decisiva em que promessas já não bastam: o ajuste fiscal precisará acontecer, de um jeito ou de outro

Às vésperas da próxima decisão de política monetária, dois ex-diretores do Banco Central se reuniram para traçar as perspectivas para o Brasil. Bruno Serra, hoje portfolio manager da Itaú Asset, e Rodrigo Azevedo, fundador da Ibiuna Investimentos, concordam em um ponto central: o Brasil se aproxima de uma encruzilhada. Um daqueles momentos em que não há mais espaço para atalhos, “curativos” temporários ou soluções paliativas.
Para eles, o futuro da economia brasileira será binário. De um lado, um ajuste fiscal crível, capaz de reduzir o risco estrutural do país, aliviar o prêmio exigido pelos investidores e permitir que a Selic encontre um patamar mais baixo e sustentável ao longo do tempo.
Do outro, a repetição da estratégia que marcou os últimos ciclos: adiar decisões difíceis, empurrar o ajuste com a barriga e torcer para que o mercado continue comprando promessas.
Nesse cenário, o desfecho é conhecido, segundo Azevedo: o ajuste acontece à força, via juros mais altos e perda de confiança.
“Ajuste gradual no Brasil? Acho que a gente já queimou essa carta. Não dá mais”, resume o gestor, em evento anual de investimentos organizado pelo UBS.
O fim dos “band-aids”
Na avaliação do gestor da Ibiuna, a estratégia brasileira de administrar as contas públicas com soluções temporárias chegou ao limite. Ao longo de diferentes governos, o país recorreu a arranjos provisórios — o que consumiu, pouco a pouco, a credibilidade.
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O resultado é um quadro em que a conta de juros já supera 9% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o déficit nominal caminha para os dois dígitos.
É por isso que, para ele, o mercado já não aceitará mais promessas vazias na virada para 2027. "Não dá para achar que você vai colocar um band-aid de novo, contar uma mentira e as pessoas vão acreditar", disse.
Para Azevedo, o mercado ainda tolera a situação atual por um motivo específico: a incerteza política. "Até a eleição deste ano, existe uma espécie de leniência dos investidores. Depois disso, a paciência acaba".
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Quando começam os cortes de juros no Brasil?
Apesar da expectativa em torno da decisão do Copom de amanhã (28), os dois ex-diretores do BC não acreditam em cortes imediatos. O consenso é que o início do ciclo de afrouxamento deve ficar para março, e não para a reunião que se encerra nesta quarta-feira (28).
Serra aposta em um primeiro corte de 0,50 ponto percentual, seguido por duas reduções consecutivas de 0,75 ponto. Com a inflação acumulada em 12 meses projetada em 3,2% para março, manter a Selic em 15% “perde o sentido”, segundo ele.
Rodrigo Azevedo também vê espaço para o início do afrouxamento em março, mas partindo de um corte inicial de 0,25 ponto. Ainda assim, ele estima que há espaço para uma queda de pelo menos 300 pontos-base.
“Com inflação projetada em 3,5% e juros em 12%, o Brasil ainda estaria em território contracionista”, diz. “O Banco Central fez um excelente trabalho e agora tem muito mais conforto para devolver os 300 pontos que adicionou por precaução.”
Selic a 15% ou a 8%? A verdadeira encruzilhada de 2026
Se o curto prazo parece relativamente bem mapeado, o médio e o longo prazo concentram as maiores incertezas quanto ao cenário político e econômico brasileiro.
Para Serra, se o ajuste fiscal continuar baseado majoritariamente em aumento de receitas, os juros estruturais do país seguirão elevados. Nesse ambiente, mesmo com inflação comportada e crescimento modesto, a Selic tenderia a se estabilizar perto de 10%.
Mas, segundo o economista, o cenário muda radicalmente se houver um corte efetivo de gastos. “Se houver uma redução real de despesas de 1% do PIB, a Selic poderia cair para 8% ou menos.”
Segundo ele, o vetor fiscal tem sido dominante desde 2023, e revertê-lo alteraria completamente o equilíbrio da política monetária. Um próximo mandato — mesmo em caso de reeleição — poderia começar com mais cautela fiscal para abrir espaço político no fim.
Azevedo, porém, é menos paciente. Para ele, o nível de dívida e de juros do Brasil é alto demais para permitir maior complacência. “A deterioração acontece rápido.”
“Hoje o investidor tolera a situação porque existe uma incerteza de 50% sobre o ajuste”, afirma. “Depois da eleição, essa dúvida acaba. O ajuste [fiscal] virá na transição de 2026 para 2027 — a questão é se será ordenado ou desordenado.”
Na leitura de Azevedo, não há mais espaço para ajustes fiscais graduais. Segundo ele, a partir de 2026, o Brasil estará diante de dois cenários:
- Ajuste ordenado: um plano fiscal crível, com cortes reais de gastos, pode reduzir o risco estrutural do país e permitir que a Selic finalmente desça para a casa dos 8%.
- Ajuste desordenado: sem um choque de realidade nas contas públicas, o mercado fará o ajuste por conta própria — e os juros podem voltar aos 15%.
“Não é mais possível usar band-aids nem contar histórias em que ninguém acredita”, afirma Azevedo. “No dia seguinte à eleição, o fundamento local vai se impor, independentemente de qualquer cenário externo favorável.”
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