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ANUNCIAÇÃO

O que a inflação acima do esperado em maio diz sobre o ciclo de corte de juros no Brasil — e para o seu bolso

IPCA de 0,58% superou projeções e acumula 4,72% em 12 meses, acima do teto da meta; economistas apontam que Copom deve adotar tom mais duro na reunião da próxima semana

Imagem: Montagem Seu Dinheiro/iStock/Andrey Shadrin

“Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais”. Nem foi preciso a voz do anjo sussurrar nos ouvidos dos investidores, como diz Anunciação, cantada por Alceu Valença. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio mandou o recado: a inflação brasileira voltou a surpreender para cima, limitando a capacidade do Banco Central de seguir com o ciclo de cortes de juros.  

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O IPCA registrou alta de 0,58% no mês, acima da mediana das estimativas de mercado, que era de 0,55%. Em 12 meses, o índice acumula 4,72% — ultrapassando o teto da meta de inflação, fixado em 4,5%, e acelerando pelo terceiro mês consecutivo. 

Para o investidor pessoa física, o número não é apenas estatística: ele sinaliza que A Selic no Brasil pode cair menos do que o esperado este ano — ou parar de cair antes do que muita gente pode estar esperando.  

O Comitê de Política Monetária (Copom) se prepara para anunciar a nova taxa de juros brasileira na próxima quarta-feira (17), após o fechamento do mercado.  

Embora o mercado aposte em um corte de 0,25 ponto percentual (pp) para a Selic no encontro da semana que vem, a curva de juros vem precificando a manutenção da taxa básica nos atuais 14,50% ao ano, o que significa que o Banco Central pode encerrar o ciclo de afrouxamento já neste mês.  

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O que puxou a inflação em maio 

Os vilões do mês foram bem definidos. Segundo análise de André Valério, economista sênior do Inter, três grupos responderam sozinhos por 101% da inflação registrada: alimentação e bebidas (alta de 1,33%), habitação (1,22%) e saúde e cuidados pessoais (0,90%). 

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A pressão nos alimentos refletiu fatores adversos de oferta que já pressionam os preços desde março. E o efeito não ficou restrito à cesta básica: a alimentação fora do domicílio — restaurantes e lanchonetes — subiu 0,49%, acumulando alta de 1,7% nos últimos três meses. 

No grupo de habitação, o destaque foi a energia elétrica residencial, que subiu 3,67% por conta da bandeira tarifária amarela e de reajustes de distribuidoras em diversas capitais.  

Já em saúde e cuidados pessoais, os artigos de higiene pessoal avançaram 1,95% — reflexo indireto do petróleo mais caro, que eleva o custo de insumos usados em perfumes e cosméticos, segmento que avançou 4,4%. 

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O único alívio veio dos transportes, que registraram deflação de 0,46%, puxados pela queda nos combustíveis: o óleo diesel recuou 2,34% e a gasolina, 1,46%, retirando 0,09 ponto percentual do índice cheio. 

Por dentro dos números: há alguma boa notícia? 

Os economistas fazem uma distinção importante entre o número cheio do IPCA e sua composição — ou seja, de onde vêm as pressões e quão persistentes tendem a ser. 

Nesse aspecto qualitativo, os dados de maio trouxeram sinais levemente positivos. A média dos núcleos de inflação — medidas que filtram os itens mais voláteis para capturar a tendência estrutural dos preços — recuou de 0,49% em abril para 0,45% em maio, segundo o Inter.  

O Daycoval confirma o movimento: seus cálculos apontam núcleos em 0,45% contra 0,49% no mês anterior. 

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A inflação de serviços subjacentes — aquela que exclui itens mais voláteis como passagens aéreas — também desacelerou. Para o Inter, o indicador recuou de 0,37% para 0,34%. O BMG registrou 0,40%, abaixo de sua própria projeção de 0,47%. 

“A composição do número em linha com a esperada, com certa acomodação dos serviços subjacentes e dos núcleos, indica que a tendência da inflação está razoavelmente em linha com a nossa projeção para os próximos meses”, avaliou o departamento econômico do Bradesco. 

Mesmo o Itaú BBA, que apontou aceleração nos industriais subjacentes para 6,5% (ante 5,0%), reconheceu que os serviços subjacentes desaceleraram para 5,6% na média móvel de três meses anualizada. 

O alívio, portanto, existe — mas é parcial. 

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Por que a Selic pode parar de cair 

É aqui que o número de maio se torna mais relevante para quem tem investimentos atrelados à taxa básica de juros. 

O economista Leonardo Costa, do ASA Investimentos, foi direto. “Além da preocupação com a inflação corrente, também influenciam o fim do ciclo de corte de juros o cenário externo mais complexo e as expectativas de inflação em alta.” 

Na avaliação do ASA, o IPCA de maio, somado a esses fatores, deve levar o Banco Central a encerrar o ciclo de redução da Selic já na próxima reunião do Copom, marcada para o quarta-feira (17). 

Nesta semana, a casa alterou a projeção para a Selic terminal de 2026 de 13,25% para 14,25% ao ano, patamar também previsto pelo BTG Pactual e Bank of America (BofA). 

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Já o Bmg espera um corte de 0,25 ponto percentual (pp) na próxima reunião, mas com um recado mais duro. “A comunicação será mais dura, reduzindo as chances de novos cortes no curto prazo”, afirmou Flávio Serrano, economista-chefe do banco. 

O Inter é um pouco mais otimista, mas admite a incerteza crescente. O banco ainda vê espaço para cortes de 0,25 pp por reunião até o fim do ano, o que levaria a Selic a 13,25%.  

Mas Valério ressalva que “o risco de uma pausa prematura é cada vez maior” e que, após junho, “o Copom deve decidir reunião por reunião.” 

O Itaú BBA mantém a projeção para o IPCA em 5,4% no ano e reitera que “o balanço de risco é assimétrico para cima”, nas palavras da economista Luciana Rabelo. 

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A ameaça do El Niño no horizonte 

Um fator que preocupa os economistas para os próximos meses é o El Niño. O fenômeno climático, cujo início foi declarado oficialmente pelos institutos meteorológicos do Japão e dos EUA, tende a afetar a produção agrícola — e, por consequência, o preço dos alimentos. 

“Existe elevada probabilidade que tenhamos um El Niño forte, o que deve manter a inflação de alimentos pressionada ao longo do ano”, diz Valério, do Inter. 

O Daycoval também inclui o El Niño entre os fatores que reforçam o viés de alta para a projeção de IPCA ao final do ano, hoje em 5,1%.  

O Bradesco cita ainda a possibilidade de um Super El Niño, que traria “maior incerteza com relação ao efeito sobre os preços.” 

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O que isso significa para o seu dinheiro 

Se os juros caem menos — ou param de cair — os investimentos pós-fixados atrelados ao CDI e à Selic continuam rendendo bem por mais tempo. Títulos do Tesouro Selic, CDBs e fundos DI seguem como opções relevantes nesse cenário. 

Por outro lado, quem apostou em uma queda mais agressiva dos juros — comprando títulos prefixados longos ou fundos de renda fixa de maior duração — pode ver o desempenho dessas carteiras ficar abaixo do esperado, caso o Banco Central adote um tom mais conservador nas próximas reuniões.

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