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Impacto é mais que o dobro do maior caso da história do fundo, mas Jairo Saddi diz que não há risco sistêmico e defende ajustes sem pressa

O FGC (Fundo Garantidor de Crédito) já passou por poucas e boas — e não por acaso. O mecanismo de proteção aos investidores e correntistas foi criado justamente para funcionar quando algo dá errado no sistema financeiro, ou seja, quando um banco quebra.
Em 25 anos de existência, foi acionado 42 vezes, ressarcindo investidores que tinham recursos aplicados em instituições liquidadas.
Mas, desta vez, o que chama atenção é o tamanho da conta.
A quebra do Banco Master levou cerca de R$ 40 bilhões. Na sequência vieram o Will Bank, com R$ 6,3 bilhões, e o Banco Pleno, com mais R$ 4,9 bilhões. No total, aproximadamente R$ 50 bilhões saíram do caixa do FGC — valor que agora terá de ser recomposto pelos bancos do sistema.
Para efeito de comparação, o segundo maior impacto histórico foi o do Banco Bamerindus, em 1997, que demandou R$ 3,7 bilhões — algo que, corrigido pela inflação, superaria R$ 20 bilhões hoje. Ainda assim, isso é menos da metade do volume atual requerido.
“O que chama atenção é o tamanho do rombo. Isso é inusitado. As crises anteriores não chegaram nem perto de 20% desse valor. O tamanho é, de fato, novo”, afirma Jairo Saddi, em entrevista ao Money Times.
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Advogado, árbitro e pós-doutor pela Universidade de Oxford, Saddi já foi conselheiro e ocupou a vice-presidência e a presidência do FGC entre 2014 e 2017.
Apesar da magnitude, Saddi não vê risco sistêmico.
Ele lembra que há muitos poupadores pequenos e médios envolvidos, mas parte relevante dos investidores conhecia o risco e buscava remuneração elevada — CDBs que chegavam a 140% do CDI —, confiando justamente na cobertura do FGC, que garante até R$ 250 mil por CPF e por instituição.
Em quatro anos, o banco de Daniel Vorcaro multiplicou por dez seu patrimônio e quintuplicou a carteira de crédito. O combustível vinha da captação agressiva via CDBs. Em caso de quebra — como de fato aconteceu —, investidores são ressarcidos pelo FGC.
Foi uma engrenagem que funcionou por algum tempo, mas que passou a mostrar sinais claros de esgotamento.
Não demorou para o Banco Central notar que a operação carregava riscos elevados. Isso porque a captação agressiva ocorria sem lastro sólido suficiente, o que colocou o Banco Master sob maior escrutínio antes de a situação desandar e chegar à liquidação.
Autoridades se perguntam como bancos que representavam menos de 1% das captações do Sistema Financeiro Nacional (SFN) conseguiram gerar impacto tão expressivo no fundo. Para Saddi, responsabilizar o FGC não faz sentido.
“O FGC tem sido injustamente acusado. Ele funciona dentro das regras estabelecidas: é acionado após a liquidação da instituição. Não é um órgão de supervisão preventiva. É, basicamente, um mecanismo de pagamento após o evento.”
O fundo é uma associação civil privada, pertencente aos bancos associados. Embora muitas vezes seja visto como algo “da sociedade”, juridicamente pertence às instituições financeiras que o compõem.
Ainda assim, Saddi defende ajustes.
“Reformas são necessárias, sim. Não se pode correr o risco de um segundo ou terceiro caso semelhante. Mas é preciso preservar princípios importantes, como o fato de que bancos operam com alavancagem, não apenas com liquidez imediata.”
Hoje, o modelo de contribuição é horizontal: todos os bancos pagam percentualmente de forma semelhante. A discussão é se instituições menores ou mais alavancadas deveriam contribuir com mais.
Mas, segundo ele, a solução não é tão simples. “Criar um sistema ponderado por risco é extremamente complexo. Como avaliar ativos com precisão? Não é trivial.”
Uma alternativa seria limitar a cobertura do FGC para aplicações que paguem remunerações muito acima do mercado.
“Poderia haver um teto atrelado a determinado percentual do CDI. Acima disso, o investidor assumiria parte do risco. Mas qualquer mudança precisa ser feita com calma. Não se altera um sistema desses no calor da crise.”
Para evitar novos episódios, Saddi defende mais transparência. “É fundamental dar mais visibilidade a indicadores técnicos de liquidez e solvência. Informação é o melhor desinfetante em qualquer sistema.”
Segundo ele, quem analisava os balanços da instituição dois anos atrás já observava indicadores de liquidez pressionados. O problema é que essas informações não eram claras para o investidor comum.
“No capitalismo, crises acontecem. O importante é apurar responsabilidades rapidamente e preservar o máximo possível dos ativos remanescentes.”
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