Inflação deve subir com El Niño e petróleo, mas Copom vai cortar juros mesmo assim, diz economista-chefe da Bradesco Asset
Apesar da possível alta dos combustíveis e dos alimentos, Marcelo Cirne de Toledo afirma que a variável mais importante para o Copom hoje é outra

Ninguém trabalhou mais que o guarda-chuva dos cidadãos que moram no Sul e no Sudeste do país nos últimos dias. A chuva que atingiu os estados dessas regiões já é resultado do tão falado Super El Niño.
Mas para além desses dias cinzas, nos próximos meses, o resultado de toda essa chuva deve chegar ao supermercado, com grãos e outros alimentos mais caros pelo prejuízo nas plantações.
Mas o clima não é a única preocupação. Um velho conhecido do brasileiro deve pesar no bolso de novo: o preço dos combustíveis — gasolina e diesel.
A guerra no Oriente Médio continua e piorou com a entrada da Arábia Saudita. Em paralelo, o conflito entre Rússia e Ucrânia também escalou. E esses dois conflitos dificultam as negociações do petróleo e de combustíveis, piorando o preço desses produtos.
O impacto de tudo isso sobre os preços de alimentos e combustíveis já começa a aparecer fora do país e não deve demorar a chegar às prateleiras e postos brasileiros.
Ainda assim, o mercado chega à reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira (16) com o corte na taxa Selic dado como certo. Um ajuste de 0,25 ponto percentual (p.p.) que levará os juros básicos à faixa de 13,75% ao ano.
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Mas não só. Alguns bancos e casas de análise esperam mais cortes: 0,25 p.p. em novembro e 0,25 p.p. em dezembro, de modo que a Selic termine o ano a 13,25%.
É o caso da Bradesco Asset.
Para Marcelo Cirne de Toledo, economista-chefe do braço de investimentos do Bradesco, os diretores do Banco Central neste momento estão mais preocupados com outro dado da economia: a desaceleração da atividade.
Atividade fraca …
Depois de meses de leitura de atividade resiliente, o Brasil começou a desacelerar.
Dados mais recentes de vendas no varejo, produção industrial, consumo das famílias e o próprio Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre registraram números fracos — quando não negativos.
A avaliação de Toledo é que os impulsos que vinham de programas do governo, como o Desenrola, para renegociação de dívidas, o Mover Brasil, para financiamento de veículos, e a isenção de imposto de renda para salários de até R$ 5 mil, perderam fôlego ao longo dos meses.
Se no começo do ano esses benefícios representavam mais dinheiro na mão dos brasileiros e, por consequência, em circulação na economia, agora essa torneira fechou, e o peso dos juros altos está restringindo mais liberação desse tipo crédito.
“Não estamos caminhando para uma recessão. Há setores da economia que estão indo bem, mas os dados mostram uma desaceleração evidente”, diz o economista.
E é essa desaceleração que dá espaço para mais cortes na Selic, segundo Toledo.
- LEIA TAMBÉM: Até onde a taxa Selic pode cair? Economista do BV vê juros perto de 10% ao ano no longo prazo
O endividamento das famílias e das empresas deve seguir comprometendo a renda e a demanda por consumo. Em paralelo, os dados de atividade mostram que indústria, varejo e serviços estão em tendência de desaceleração.
Esse combo deve limitar o dinheiro em circulação. Logo, deve limitar a inflação.
… vs. inflação alta
Na leitura de Toledo, os dados mais fracos de inflação (com deflação de –0,32% em agosto) não devem se sustentar nos próximos meses.
O economista acredita que questões pontuais permitiram esse desempenho, como o bônus de energia de Itaipu, que diminuiu os valores da conta de luz em agosto.
Para os próximos meses, o que está contratado é o oposto: alimentos mais caros por causa do El Niño, combustível mais caro por causa do ajuste do petróleo e a conta de luz de volta ao preço normal.
A projeção da Bradesco Asset é que, no começo de 2027, a inflação em 12 meses esteja no nível de 5,5% a 6%. Para efeito comparativo, estava em 4,22% em agosto.
Mas, então, por que o Banco Central vai continuar cortando os juros?
Porque essas situações também são avaliadas como pontuais. E o Copom não trabalha com a inflação corrente, mas com a projeção de inflação futura.
Os modelos do Banco Central trabalham com cenários futuros, em um horizonte de 18 meses à frente. A missão dos diretores é entender como os acontecimentos de agora podem influenciar os preços nesse prazo.
Se o entendimento é que os choques de preço deste momento são passageiros, a influência é pequena em relação à decisão para a Selic.
“Não é que a inflação corrente não seja importante. Importa na medida em que pode gerar uma pressão de preços mais duradoura. Mas não é o cenário que trabalhamos com o petróleo e o El Niño agora”, disse Toledo.
O economista acredita que a projeção de inflação do Copom para 18 meses à frente aumentará na margem, de 3,2% para 3,3%, o que reforça a premissa de que há espaço para mais cortes nos juros.
“Não estamos falando de mudar o patamar dos juros. Em 13% ao ano, a Selic continua muito alta. O Copom seguirá cauteloso com esses cortes de 0,25 ponto”, afirmou.
Na contramão do exterior
Se a tese da Bradesco Asset estiver correta, o Banco Central brasileiro deve continuar cortando os juros mesmo diante de um cenário internacional mais desafiador.
Nesta Super Quarta, a expectativa é que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) aumente os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa dos fed funds para a faixa de 3,75% a 4,0%.
Em tese, juros mais altos nos Estados Unidos tornam os títulos norte-americanos mais atrativos e reduzem o espaço para bancos centrais de países emergentes, como o Brasil, cortarem suas próprias taxas.
Mas Toledo avalia que essa relação costuma ser superestimada pelos investidores.
Para ele, a política monetária brasileira é muito mais influenciada pela atividade econômica, inflação e expectativas domésticas do que pelos movimentos do Fed.
"O mercado costuma atribuir um peso muito grande ao que acontece nos Estados Unidos. Mas, historicamente, as decisões do Copom respondem muito mais ao cenário doméstico", afirmou.
O economista cita um paralelo recente para ilustrar esse comportamento.
Há exatos dois anos, em setembro de 2024, ambos os bancos centrais estavam em situações opostas: o Fed reduzindo os juros no mesmo dia em que o Copom elevava a Selic.
Para Toledo, não existe uma correlação automática entre as decisões das duas autoridades monetárias. E o diferencial de juros entre os EUA e o Brasil continuará alto o suficiente para não prejudicar a atratividade do real, segundo o economista.
"É claro que o cenário internacional importa. O petróleo importa. O câmbio importa. Mas o peso maior continua sendo dos dados brasileiros", disse.
Apenas uma desvalorização muito expressiva do real ou uma piora significativa nas expectativas de inflação futura teriam potencial para interromper o ciclo de cortes na Selic esperado pela Bradesco Asset.
E este cenário não está no radar neste momento.
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